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O que significa a vitória de Trump para o mundo?

O futuro presidente dos Estados Unidos será Donald Trump! Isso não foi um “acidente”; pode ser tendência.

O quê exatamente isso significa para a política tradicional?

O quê exatamente isso significa para a esquerda mundial?

Uma vitória inesperada para muitos, sem nenhuma dúvida, entretanto, ela somente pode ser entendida quando analisamos o desenvolvimento eleitoral desde as prévias de ambas as candidaturas.

Democratic U.S. presidential candidate Bernie Sanders speaks at a rally in Hollywood, Los Angeles, California, United States October 14, 2015. REUTERS/Lucy Nicholson - RTS4IJU
Bernie Sanders x Hillary Clinton (Reprodução: REUTERS)

Com relação ao Partido Democrata, Hillary Clinton era tida como a favorita desde o começo, porém a retórica de Bernie Sanders demonstrou-se intensamente chamativa e sedutora, principalmente por causa de seu discurso contra a tradicional política. Entre outros fatores, isso ocorria, primeiramente, por causa das relações profundas entre Hillary Clinton e Wall Street, já que três dos cinco maiores doadores de sua campanha presidencial eram bancos – Goldman Sachs, Citibank e JP Morgan.

Enquanto Bernie Sanders possuía 3/4 de sua campanha financiada por pequenas doações individuais (abaixo de 200 dólares), somente 17% da campanha de Hillary foi financiada por pequenos doadores. Além disso, Wall Street não financiava somente a campanha de Clinton, mas também os seus discursos. Durante um debate da prévia do Partido Democrata, Bernie Sanders falou sobre esse tema:

“Você realmente consegue reformar Wall Street, quando eles estão gastando milhões e milhões de dólares em contribuições de campanhas e proporcionando pagamentos de discursos individuais?”

Além dessas relações problemáticas com Wall Street, a Fundação Clinton tem recebido financiamentos de fontes contestáveis no exterior. Por exemplo, Victor Pinchuk, um dos oligarcas mais ricos e corruptos da Ucrânia, se tornou, entre 2004 e 2014, o segundo homem mais rico da Ucrânia e o maior doador estrangeiro para a Fundação Clinton nos EUA, o que foi intensificado quando ela se tornou Ministra das Relações Exteriores dos EUA, entre 2009 e 2014. Coincidentemente, esse oligarca é um dos principais aliados dos EUA no conflito existente na Ucrânia atualmente.

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Ted Cruz x Donald Trump (Reprodução: www.presidentialpolls.com)

Com relação às prévias republicanas, os candidatos foram desistindo com o passar do tempo, primordialmente quando a força de Trump junto ao eleitorado foi crescendo. Embora o candidato preferido do partido não fosse o magnata, os republicanos tiveram que se conformar com essa indicação.

De maneira impressionante, no dia 1º de março a CNN divulgou uma pesquisa que atestava que Bernie Sanders, se indicado, venceria os três possíveis candidatos republicanos (Trump, Rubio e Cruz), enquanto Hillary venceria apenas Trump. Isso já era um sinal que o discurso de Hillary talvez não convencesse aqueles que desejavam mudanças profundas na política norte-americana.

Enquanto Sanders foi evidentemente sabotado pelo Partido Democrata, como foi atestado pelo Wikileaks, Trump também o foi pelo Partido Republicano, porém este conseguiu ultrapassar essa intensa barreira. Percebe-se que a quase vitória de Sanders nas primárias democratas e a grande vitória de Trump nas primárias republicanas foram mais dois sinais a respeito da força dos discursos anti-sistema. A partir desses acontecimentos, poderemos traçar algumas conclusões a respeito do resultado da madrugada.

Essa eleição demonstrou o cansaço dos eleitores com relação a discursos vazios e superficiais daqueles que defendem os interesses dos atores dominantes. Embora a retórica de Donald Trump seja deplorável, principalmente com relação aos direitos das minorias, ele representou para muitos norte-americanos uma efetiva possibilidade de mudança. Dois candidatos de um espectro de direita (Trump e Hillary), conservadores, mas que se diferenciam nessa característica específica.

Apesar da possível ressonância da vitória de um candidato xenófobo, racista e misógino para a extrema direita mundial, não parece que esse fato específico, por si só, signifique a expansão desse tipo de pensamento para outros países.

Primeiramente, se analisarmos a Europa e a América Latina, por exemplo, ambos continentes possuem fortes movimentos de esquerda, o que os diferenciam dos EUA, uma vez que os dois partidos políticos norte-americanos mais importantes (Democratas e Republicanos) são de direita, embora variem nesse espectro.

Portanto, enquanto nessas duas outras regiões os embates ocorrerão entre direita e esquerda essencialmente, nos EUA o conflito eleitoral significou sinteticamente o continuísmo contra a quebra de paradigma.

Segundo, porém, esses conflitos eleitorais entre esquerda e direita nas outras regiões do mundo podem ser permeados por novos atores e discursos contra o continuísmo da política, como vem ocorrendo no Brasil, onde grande parte do eleitorado se absteve nas últimas eleições pela descrença no sistema democrático “de fachada”.

Ainda que a crise da esquerda brasileira abra perspectivas para a direita, ambos têm a perder quando a política se torna desacreditada, na medida em que isso abre caminho para diversos “aventureiros”, como inegavelmente é Donald Trump.

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O “aventureiro” Rei Julian, do desenho Madagascar (Reprodução: www.contestpatti.com)

A vitória de um aventureiro de direita nos EUA não representa, desse modo, um desafio para a esquerda somente, mas sim para todo um sistema político desacreditado pelos inúmeros problemas econômicos, sociais e de representatividade no contexto global. Talvez a presença de políticos com discursos anti-sistema no mundo tenha apenas começado, mas já conseguiu atingir profundamente o país mais importante para o capitalismo global.

O que está em jogo é a própria democracia representativa, a qual tem se importado em demasia com as classes dominantes e pouco com as classes subalternas. Em momentos de graves crises, como a atual, sistemas podem ser implodidos por atores não tradicionais.

Quando sistemas políticos e os dominadores por trás deles não souberam se reformar às novas realidades – vide o feudalismo e sua aristocracia-, a história foi letal e não perdoou.

Felipe Costa Lima é formado em Direito pela UFMG; Especialista em Política Internacional pela Faculdade Damásio de Jesus; e Mestrando em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Latino-americano de alma, talvez consiga quebrar visões eurocêntricas sobre os acontecimentos mundiais. Talvez…

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