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Minha Praia, meu sol e minha caipirinha – Uma Tarde na Praia da Estação

Este texto tem trilha sonora. Vai ouvindo junto comigo, dando o play, pra ficar no clima. Beijos e obrigado.

Existem matérias e existem matérias. Tem aquelas que a gente vai com a cara e a coragem, pronto pra conhecer o desconhecido, e o desconhecido conhecer a gente. Essas são boas. Aliás, às vezes são boas, às vezes são ruins. Fazem parte da idiossincrasia do jornalismo. Aliás (2), fazem parte da idiossincrasia de todas as profissões conhecidas pelo homem.

Vamos pegar uma profissão que talvez à primeira vista pareça rotineira. Vamos dizer, trocador de ônibus (de onde eu tirei isso?). É uma profissão de um quê fordista. Você recebe, dá o troco e gira a roleta. Mas pode ser que um passageiro pule a roleta. Ou lhe pergunte um caminho. Etc, etc, a variedade e a felicidade estão nos pequenos momentos de acaso.

Mas voltando ao tema retratado no primeiro parágrafo. Tem matérias que a gente vai conhecer algum tema desconhecido, e tem aquelas que a gente está numa pequena zona de conforto. Nós vamos querer falar sobre algo que a gente já conheça, e que queremos que o mundo todo conheça, e tenha o mesmo prazer que nós outros (ocos) em um mundo de infinito particular.

 

Como eu falei, existem matérias e matérias. E nesta aqui, eu dei uma bebidinha. Nada demais. Foi chup chup de caipirinha, cerveja e catuaba. Mas foi o bastante pra deixar minha apuração mais caótica. Mas que apuração, Deus do céu?

Nesse tremendo calor, sábado eu fui pra praia. Mas praia aonde, nessa cidade que é conhecida pelo ditado “se não tem mar, vamos pro bar”. Acontece que Belo Horizonte tem mar sim. É um mar num oceano de concreto. É a Praia da Estação. Compreende?

Cabe aqui uma pequena explicação. Contrariando um decreto do então prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, em 2010, alguns jovens da esquerda festiva (esse termo é meu!) tiveram uma ideia de fazer uma intervenção urbana de caráter lúdico.

Mídia Ninja

O decreto do prefeito previa uma espécie de proibição (ou burocratização) para a realização de eventos em espaços públicos. Na prática, os eventos em praças e parques teriam que passar por uma análise um tanto kafkiana, para ser aprovados e, assim, poder acontecer. É um processo.

Então, em uma rede orgânica, alguém (quem seria o primeiro autor da ideia?) começou uma corrente nas redes sociais, convidando os convivas para ocupar a Praça da Estação, em um clima praieiro. Era incentivado o uso de canga, biquíni, protetor solar e cerveja. Muita cerveja.

Os primeiros praieiros (não acredito que usei duas vezes essa palavra) eram, claro que não em sua totalidade, da galerinha da cultura. Ativistas, agitadores, músicos, turma do teatro. Era o pessoal do ‘Fora Lacerda’. Que provavam que dava pra fazer política sem ser chato.

A Praia primou desde o inicio pela diversão e pela diversidade. Eram umas quarenta pessoas. Mas o evento foi continuando, se expandindo e se metamorfoseando.

 

Fast forward para o presente. Dia sete de janeiro, ainda na ressaca do fim de ano, estava marcada a primeira Praia da Estação de 2017. Comemorando sete anos de muita liberdade, intervenção urbana (mais uma vez, lúdica) e água. Mesmo com a fonte da praça desligada.

Me encaminhei para a Praça. Lá pelas 15h10 cheguei naquele ponto tão emblemático da cidade, e que já estava apinhado de gente. É interessante notar que a Praia se confunde com a história recente do Carnaval de Belo Horizonte. A ideia é basicamente a mesma. Se apropriar de um espaço, que, de acordo com as diretrizes da lei, é um caminho de apenas locomoção, e transformá-lo em um lugar de festa, de contestação.

Muitos dos primeiros foliões da Praia fundaram seu blocos, e espalharam pela cidade essa onda sem volta. A própria Praia virou o Bloco da Praia, que sai no sábado de Carnaval, agitando em libertas o caos social.

Chegando à Praia, em um calor absurdo, já dá para perceber que o clima pode não ser mais tão combativo, como ela foi nos primórdios, mas em compensação a festa permanece a todo vapor. Conto umas quinhentas pessoas por lá, a maioria em trajes de banho.

O povo sem camisa e, dá logo pra notar, muita bebida. Muita mesmo. Latões de cerveja, copos de caipirinha, e doses de tequila. A fonte está desligada, mas aproximando de um grupo de policiais militares, vejo uma negociação entre algumas ‘lideranças’ do movimento e eles. A polícia fala “vamos tentar ligar a fonte, vamos tentar”.

E muito em clima de Carnaval, a banda dita o som da festa. São umas 20 pessoas, contando o naipe de metais (profissional) e a bateria. Pego um chup chup de caipirinha, geladíssimo, congelado.

Boto meu bloquinho de anotações no bolso. Não sei aonde está minha caneta, depois tenho que achá-la. Mas, por enquanto, fico só me mexendo ao som da chanson. E começam os acordes de uma das minhas preferidas. Frevo Mulher. É quando o vento sacode a cabeleira. A trança toda vermelha. E Carnaval. Como eu te amo.

 

Vou andando e tropeçando naquele calor dos infernos. Peço uns óculos escuros emprestados (feminino, poxa vida) pra me proteger os olhos azuis, meio que indispostos a toda aquela claridade. Vou tateando no claro, procurando rostos conhecidos, afinal, preciso fazer a matéria, e queria ouvir os pioneiros da Praia. E, não sei se por ignorância minha, mas não os reconheço. Será que eu estou ficando meio tio?

Usando o termo ‘clima’ pela vigésima vez no texto, o clima que se sente é totalmente de pré-Carnaval. Aquela ansiedade suada, de beijo molhado com gosto de catuaba. Risadas e tossidas, com um aroma de cigarro vagabundo. A banda do bloco toca, e o povo acompanha ‘fui me banhar na Praia da Estação. Mas esqueci o meu filtro solar. Agora eu saio no bloco do Chá Chá, fantasiado de camarão’. E queimando pelando daquele sol todo, penso que, no dia seguinte, vou estar derretido.

Uma coisa interessante demais da Praia é o caráter horizontal da mesma. Não existem chefes, não existem os donos do rolê. Claro que um ou outro tenta sentar na janela, e dar entrevista, falando ser pioneiro dela. E “a ideia é minha” ou coisa assim.

Eu mesmo, no auge da minha loucura, penso que eu tinha a ideia, em 2009, de fazer uma festinha no quarteirão dos bares de temática baiana na Savassi, e ficar lá jogando um frescobol de sunga. Achava que seria um choque interessante. Mas claro que o projeto não saiu do papel, e perdi a chance de inventar uma praia no concreto.

Refletindo, a ideia não era tão boa.

Como eu estava dizendo, o legal da Praia é justamente esse estado em que todos constroem ela. E ouvindo Rudy, tomando meu terceiro chup chup (foram 5 no total), uma mocinha passa de chapéu na mão para levantar dinheiro para o caminhão pipa. Que é o grande momento da Praia, o clímax.

Passa uma meia hora, são cerca de 16h30 e ele (o caminhão) estaciona na Avenida dos Andradas, em frente a estátua do másculo homem nu. Nunca vou entender aquele peladão de bronze, uns três metros de altura, segurando uma bandeira.

A água chega, e uma pequena multidão se aglomera em frente a ele. Como o humano gosta de brincar com água! Levantam os braços, esticam um sorriso e ficam lá, esperando o jato da mangueira. Fico com vergonha de ir até lá, colocar meu barrigão ao Deus dará. Enquanto eu espero godot, olho para os meus lados e fico feliz.

O público da Praia é realmente outro. Ainda tem lá a esquerda festiva e a direita hipster. Mas tem famílias lá. Sei não se meu julgamento de aparência é um termômetro digno de nota, mas vejo jovens de periferia, e alunos da Fafich, lado a lado.

Ouso dizer que a Praia da Estação, assim como tantas praias do Brasil, é um lugar democrático. Ao menos tão democrático quanto um país de extrema desigualdade pode ser.

Mídia Ninja

Fico lá perdido em sei lá quantas análises burras, já atordoado pelos efeitos da cana, e então eu percebo que quase não tinha fumado. Meu inseparável companheiro de aventuras, o tubinho de câncer. Acendo um Minister (os tempos estão difíceis!) e dou uma baforada. Na primeira eu encho o pulmão com aquela fumaça quente e avessa.

Me esqueci de comentar. Quando eu fui comprar o cigarro, passei num botequim, na esquina da Rua Aarão Reis, com Andradas, e lá estava tocando alto alto e alto uma música eletrônica. Fiz que não com a cabeça. Meneando, fugi rápido daquela balburdia. Gosto da minha bagunça com duas pedrinhas de gelo.

E finalmente, me deixa voltar ao cigarro na praça. Estava lá, fumando com vergonha, quando uma moça que eu havia conhecido no dia me fala: “vamos entrar na água”. E eu pensei ora, carambola, em Roma, como os romanos. E me liberto também, que nem em propaganda de cerveja.

Abro os braços, estico a coluna. O moço responsável pela mangueira do caminhão pipa não é dos mais habilidosos. Mas tomo um jato d’água bem na frente da cara. E rio como uma criança. Volto ao meu lugar de poder, meu ponto de segurança. E a banda está tocando ‘Egito. Egito E’. Fico com a música desde então na cabeça.

 

Que sorte, passar uma tarde de sábado, tão feliz, rindo tanto, escutando tanta música. Penso que a vida é boa. Que um momento de felicidade a gente encontra no desassossego. Comemoro, pegando um cigarro no bolso.

Que dó! A água encharcou meu maço!

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