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Vladimir Putin quer o retorno do Império Russo?

A mídia ocidental, principalmente fontes jornalísticas como o El País (Frear o expansionismo russo na região e mostrar seu compromisso com a OTAN [1]); o Le Monde (A expansão russa continuará se o Ocidente não se manter firme, tradução nossa [2]); o The Guardian (Expansionismo russo pode estabelecer perigo existencial, afirma general da OTAN, tradução nossa [3]); e o The New York Times (Jogando com o medo: A guerra como “carta na manga” da Rússia, tradução nossa [4]), repetem insistentemente essa fábula expansionista. Porém, as análises não são assim tão unânimes e simples.

A História compartilhada da Rússia e da Ucrânia

A história dos povos eslavos ucranianos e russos está intimamente interligada, desde meados do século IX, quando o chamado Estado Rus de Kiev foi fundado, o qual durou até aproximadamente o século XIII. Não somente a nação russa teve sua origem na cidade de Kiev, mas também a cristianização dos eslavos (etnia predominante no leste europeu), a qual ocorreu após o ano de 988. Os povos modernos da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia reivindicam a Rus de Kiev como seu ancestral cultural.

Russos de Kiev (Reprodução: http://www.artlib.ru)

Durantes os séculos XIV, XV, e XVI, após ser dominada primeiramente pelo Grão-Ducado da Lituânia e posteriormente pela Comunidade Polaco-Lituana, a Ucrânia foi transferida para o Império Russo, no século XVII. A partir disso, as autoridades militares e eclesiásticas dominaram a capital ucraniana, estendendo suas influências na região.

Além disso, um processo de russificação da Ucrânia, durante os séculos XIX e XX, liderado pelo Império Russo e pela União Soviética, respectivamente, atrelaram ainda mais essas duas sociedades. Percebe-se, assim, que a Ucrânia possui uma história política, econômica e social intensamente relacionada à Rússia, tendo inclusive ambos os territórios feito parte do mesmo Estado por séculos.

Entretanto, um evento inesperado e surpreendente separou essas sociedades: a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, no início dos anos 1990, que, nas palavras do atual presidente Vladimir Putin, foi “a maior catástrofe geopolítica do século XX”

A queda da URSS e o expansionismo do Ocidente

Mapa da ex-URSS e da Federação Russa atual: (Reprodução: http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/paradoxo-russo-aqzgon438enc8m1berttejo7i)

Só para se ter uma ideia da profundidade da crise da Rússia após a desintegração da URSS, a variação do PIB russo foi negativa por cerca de 8 anos, atingindo quase -15%, em 1992, e -12,5%, em 1994.  Devido tanto ao seu desmembramento – particularmente com a autonomia da Ucrânia que detinha a melhor agricultura e importantes segmentos da indústria pesada soviética – quanto à contração econômica, a Rússia perdeu 45% do seu PIB entre 1989 e 1998.

Além disso, o PIB per capita, em 1988 e 2003, possui valores relativamente próximos, ou seja, por aproximadamente 15 anos, essa variável teve níveis menores do que aqueles existentes antes da queda da ex-URSS, para, somente a partir de 2003, superar esse valor passado.

Portanto, nesse momento de crise profunda durante a década de 1990, o Ocidente se viu livre para se expandir para o leste, o que não pôde ser impedido pela nova Federação Russa, já que esse país enfrentava uma crise política, econômica e social sem precedentes na sua história, prejudicando assim sua capacidade de conter o avanço europeu e norte-americano.

As principais armas de expansão do Ocidente para a Europa Oriental (antiga área de influência soviética) e até mesmo para os antigos territórios que faziam parte da ex-União Soviética foram a União Europeia (UE) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

A expansão da OTAN (Reprodução: http://geopoliticalreview.org/2015/12/rethinking-natos-post-cold-war-enlargement-part-ii/)

Para a OTAN, impedir que a Rússia restabelecesse proeminência sobre sua antiga área de influência, após a desintegração soviética, seria o melhor resultado, podendo, dessa forma, impedir qualquer intervenção militar russa nesses antigos territórios.

Essa Organização, em 2004, incorporou de uma só vez 4 países pertencentes à antiga área de influência soviética – Romênia, Bulgária, Eslováquia (parte da antiga Tchecoslováquia) e Eslovênia (parte da antiga Iugoslávia) – e 3 países que pertenciam ao Estado soviético – Lituânia, Letônia e Estônia (países bálticos). A partir disso, a OTAN passou a fazer fronteira direta com a Federação Russa, por meio dos países bálticos.

O mapa abaixo demonstra, a partir de uma perspectiva comparativa, os membros da OTAN antes da queda da URSS (1990) e sua expansão até o ano de 2009. Torna-se importante perceber que a Ucrânia, a partir de 2008, começou a buscar sua integração à OTAN, o que enfureceu os dirigentes russos.

A OTAN em 1990 e sua expansão até 2009 (Reprodução: Der Spiegel)

A UE, da mesma forma, se expandiu profundamente no ano de 2004, quando incorporou 10 novos países ao projeto de integração: Polônia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia (todos da antiga área de influência soviética), Lituânia, Letônia, Estônia (partes do antigo território soviético), Malta e Chipre.

Assim como no caso da OTAN, a UE passou a fazer fronteira com a Rússia, a partir dos territórios dos países bálticos, antes parte do território soviético. Somado a isso, em 2007, esse processo de integração incorporou Bulgária e Romênia e, por último, a Croácia, em 2013, sendo os três também antigas áreas de influência soviética.

Expansão da União Europeia, 1989-2014 (Reprodução: ROAF et al., 2014)

A Rússia, desde a década de 1990, vem condenando o constante reforço das capacidades ofensivas da OTAN em direção às suas fronteiras. Além disso, esse país questiona as medidas tomadas para a implementação de um sistema de defesa antimíssil global na Europa Central, que foi aprovado em 2010 [5], e o posicionamento de tropas nos países-membros da aliança, como na Polônia e nos países bálticos.

A aproximação OTAN-Ucrânia e UE-Ucrânia, principalmente a partir de 2008, e os desdobramentos posteriores foram essenciais para a atual guerra civil nesse país, a partir dos embates entre Ocidente e Federação Russa. Além da importância histórica, por quê a Rússia se importa tanto com o território ucraniano? A geopolítica pode ajudar a explicar isso.

A geopolítica russa

“Não importa se a ideologia daqueles no controle é czarista, comunista ou capitalismo oligárquico – os portos (russos) continuam congelados, e a planície do norte europeu continua plana” (MARSHALL, 2016. p. 25, tradução nossa)

A Rússia historicamente possui duas fraquezas geopolíticas profundas, desde o Império Russo, passando pela URSS e chegando à Federação Russa atual. Primeiramente, a parte mais importante da Rússia (parte europeia) tem terrenos predominante planos, o que aumenta a chance de invasão desse território.

Em decorrência disso, um dos principais objetivos históricos da Rússia foi expandir-se para o oeste, pois barreiras físicas importantes estão presentes, como o Mar Báltico. Quanto mais a Rússia se expande para o oeste, portanto, menos vulnerável ela se sente; quanto mais ela é comprimida, em contrapartida, mais vulnerável ela se sente.

Segundo, outra fraqueza histórica consiste na falta de portos quentes que proporcionem acesso direto aos oceanos. Embora o porto de Sevastopol (Crimeia) seja o maior porto quente que a Rússia domina, ele não tem acesso direto a nenhum oceano.

Desse modo, a perda do porto desse porto para o Ocidente seria impensável para a Rússia, o que explica relativamente a anexação da Crimeia a esse país, em decorrência da possibilidade do acesso da OTAN a esse porto numa eventual incorporação da Ucrânia à UE.

Conclusão

O conflito na Ucrânia, a presença da OTAN nos países bálticos e o sistema de defesa de mísseis na Polônia são problemas que não terão um fim no curto-prazo provavelmente. A superpotência da Guerra Fria se desintegrou, o que proporcionou enorme vantagem do Ocidente, diminuindo profundamente a influência da nova Federação Russa nos antigos territórios soviéticos.

A reação russa somente foi possível com a recuperação da estabilidade política, econômica e social a partir de 1999, principalmente com a chegada de Vladimir Putin ao poder.

“Abrir mão” da Ucrânia é impensável para a Federação Russa, tanto pela história compartilhada como por necessidades geopolíticas. Portanto, a retórica utilizada pela mídia ocidental a respeito de um expansionismo russo não apenas é equivocada, como também é uma arma para influenciar a opinião pública contra o atual “inimigo do Ocidente”.

Chicken Little, animação feita pela Walt Dysney, durante a Segunda Guerra Mundial (1943), mostra bem como o lobo mau busca contar uma boa mentira:

“Se tiveres de contar uma mentira, não conte uma mentira pequena, conte uma mentira grande”

Comprar essa fábula a respeito de um suposto expansionismo russo é extremamente ingênuo, já que o principal ator expansionista, neste caso, é o próprio Ocidente. Desse modo, a Rússia de Vladimir Putin não teve até o momento pretensões expansionistas, mas sim tem se defendido dos desejos expansionistas da OTAN e da UE. Esse jogo de forças parece estar longe de um término.


Felipe Costa Lima é formado em Direito pela UFMG; Especialista em Política Internacional pela Faculdade Damásio de Jesus; e Mestrando em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Latino-americano de alma, talvez consiga quebrar visões eurocêntricas sobre os acontecimentos mundiais. Talvez…

Referências Bibliográficas

[1] EUA preparam sua maior operação militar na Europa desde a Guerra Fria: país tenta frear o expansionismo russo na região e mostra seu compromisso com a OTAN.01 jan. 2017.  El País. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/29/internacional/1483016483_911626.html. Acesso em: 10 jan. 2017

[2] L’expansion russe se poursuivra si l’Occident ne fait pas preuve de fermeté. 04 mar. 2014. Le Monde. Disponível em: http://www.lemonde.fr/idees/article/2014/03/04/l-expansion-russe-se-poursuivra-si-l-occident-ne-fait-pas-preuve-de-fermete_4377036_3232.html. Acesso em: 10 jan. 2017

[3] Russian expansionism may pose existential threat, says Nato general. 20 fev. 2015. The Guardian. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2015/feb/20/russia-existential-threat-british-nato-general. Acesso em: 10 jan. 2017

[4] Playing with fear: Russia’s War Card. 26 out. 2016. The NY Times. Disponível em: https://www.nytimes.com/2016/10/27/opinion/playing-with-fear-russias-war-card.html?_r=0. Acesso em: 10 jan. 2017

[5] Sistema de defesa antimíssil na Romênia aumentará potencial bélico da OTAN. 12 mai. 2016. Sputinik. Disponível em: https://br.sputniknews.com/defesa/201605124565659-romenia-defesa-antimissil/. Acesso em: 10 jan. 2017

 

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