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É possível apreciar a obra de arte de um estuprador?

Bill Cosby, um dos comediantes stand up mais famosos da história, foi acusado de estupro por 46 mulheres. Há dois anos, quando os testemunhos das vítimas vieram a público, ele praticamente confessou o crime.

O humorista admitiu que colocava a droga Quaaluudes (um sedativo potente) no drink das vítimas antes de transar com elas, mas alegou que tanto o uso da droga quanto o sexo eram consensuais – também me pergunto como. Das 46, 35 mulheres tiveram seus relatos publicados na revista New York.

Recentemente foi publicada uma lista dos “50 melhores comediantes stand up de todos os tempos” no site Rolling Stone. Claro que a ideia de criar uma lista que pretende determinar categoricamente um ranking da história da comédia já é algo que essencialmente não faz sentido.

Apesar disso, é inegável que uma publicação deste tipo consegue causar bastante impacto em um site tão influente. Cosby – que estuprou 46 mulheres – ficou em oitavo lugar na lista.

Bill Cosby é um humorista que ficou famoso por ter o texto limpo, abominar palavrões e abordar temas como “família”. Com sua linha de humor, encaixou perfeitamente na televisão com um sitcom que fez muito sucesso. Além disso, sempre foi uma forte influência para vários comediantes e reconhecido por apresentar um timing impecável e muito domínio de técnica na entrega de piada no palco (delivery).

E aí, como fica? Dá pra rir de um monstro?

Eu acredito na separação entre o artista e sua obra. Acho que a arte produzida está acima de quem a criou, tendo importância e significado próprios. Por outro lado, há quem defenda que a arte representa e é uma extensão do artista, e vice-versa.

Para além deste debate, ainda há o seguinte questionamento: Ainda que seja possível separar a importância e qualidade da obra produzida de quem a produziu, é possível enaltecer a obra sem fazer o mesmo com o autor?

A pergunta título é quase como uma armadilha. Mas, mesmo sabendo não ter a resposta, eu diria que infelizmente sim, é possível apreciar a arte de qualquer pessoa. Antes de tudo, porque a horrível verdade que nos dói engolir é que não existem monstros, tanto a obra de arte quanto a violência foram obras de um homem.

A violência não é executada por pessoas isoladas da sociedade que não fazem, sentem, ou não conquistam nada. Ela está do nosso lado, no diretor que fez filmes fantásticos e no humorista que fazia todo mundo rir e representava os “bons costumes”.

Eu não conseguiria negar a qualidade das obras de Van Gogh se um dia descobrisse que ele assassinou alguém, mas suas obras não seriam mais as mesmas, passariam a carregar uma horrível verdade sobre ele – talvez sobre o ser humano.

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Comentários

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