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Motoristas do Uber ‘mofam’ por 8h em posto desativado à procura da corrida dos sonhos

Fabrício joga conversa fora com os colegas quando, de repente, sai em disparada rumo ao carro estacionado a poucos metros dali. A correria é para alcançar o celular que, afixado ao painel do sedan preto, emite um alerta. Pela reação brusca, um desavisado imaginaria o pior. Mas seus companheiros são diretos: “Aceita logo!”, diz um deles. A cena faz parte da rotina de centenas de “parceiros” da Uber que esperam por até 8 horas para tentar conseguir a “corrida dos sonhos” no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins.

O motorista Fabrício Grossi, de 36 anos, alcança o celular, aceita o chamado e, rapidamente, segue em direção ao terminal. “Será?”, dispara. Tudo sob os olhos da reportagem do Bhaz no estacionamento de um posto de gasolina desativado que virou uma espécie de base de apoio improvisada dos condutores. O espaço fica na entrada de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Enquanto aguardam na longa fila virtual, os motoristas especulam sobre conseguir uma corrida perfeita. Quem sobrevive ao teste de resistência e às constantes falhas de sinal espera tirar a sorte grande na “loteria” de passageiros do aeroporto de Confins.

“Já peguei uma corrida para Curvelo e tirei R$ 195. Mas também já fiquei aqui esperando por 8 horas e acabei pegando uma para Lagoa Santa. Saí com R$ 18”, lamenta Marcelo Oliveira, de 38 anos. “É um bilhete de loteria”, completa um dos colegas.

Há quem diga que até existem táticas adotadas por alguns motoristas – apontados como desonestos – para evitar o prejuízo causado por uma “corrida ruim”. A abordagem é bem direta. Se aceitam o chamado e constatam que se trata de um trajeto curto, já falam com o passageiro que não têm interesse em levá-lo. “Os parceiros irresponsáveis chegam lá e negociam com o cliente. Leva até de graça, mas deixa o celular para trás para não sair da fila”, revela um dos condutores que pediu anonimato.

Tudo ou nada

Às 3h30, o engenheiro civil – e agora motorista do Uber – Fabrício Grossi encostou no posto de gasolina desativado e ativou o aplicativo. No entanto, somente com o sol a pino, às 11h, é que teve a chance de aceitar (ou arriscar) uma corrida. Diante de todo esse cenário, o resultado não foi dos melhores: uma curta viagem para Pampulha.

“Não valeu a pena. Apesar de ter pego um ótimo passageiro”, revela o condutor ao conversar com a reportagem por telefone. “Amanhã, chego a Confins às 3h30 de novo”.

Posto de gasolina desativado virou base improvisada para motoristas do Uber (Yuran Khan/Bhaz)

Quando o aplicativo apita, como explica Grossi, é um tudo ou nada. O motorista que não aceitar a corrida acaba voltando para o final da fila. Além do tempo perdido, ele ainda corre o risco de ser desativado na plataforma caso o episódio se repita várias vezes.

Com o céu ainda escuro, às 5h, Neuber Rodrigues, de 29 anos, chegou ao posto. Ativou o aplicativo e dormiu no banco do carro. “Cheguei de madrugada e apenas complementei o sono. Às 6h30, quando o sol começou a pegar, eu já estava acordado”, diz ao mostrar sua posição na fila virtual: 30º lugar entre 150 “parceiros”.

“Eu fico aqui por ser liberado. Não significa que isso vai continuar, porque, hoje, o posto está desativado. Mas a condição que a gente tem de trabalhar é essa”, diz Rodrigues, apontando para um amontoado de lixo na calçada. “Aqui, estamos mais seguros, porque, se ficarmos lá na frente do aeroporto, somos multados. Tem que sair correndo da polícia”.

Neuber esperou até o meio-dia. Pegou uma corrida para Belo Horizonte e faturou R$ 55. Se valeu a pena a espera de 7 horas? “Valeu sim”, respondeu lacônico.

Parou por quê?

E por que ficar tanto tempo parado apostando na sorte? A justificativa da maioria dos motoristas é simples. Trabalhar nas ruas e encarar uma série de corridas consideradas ruins é sinônimo de gastos com gasolina e manutenção.

“Já cheguei a fazer 30 viagens em Belo Horizonte para arrancar R$ 150”, conta um dos motoristas que, temendo “retaliação”, pediu para não ter o nome revelado. “Já tive corrida que deu R$ 260, fiquei com R$ 195, gastei R$ 45 com combustível e sobrou R$ 150 pra mim”, calcula Marcelo Oliveira, de 38 anos. Ele explica que a Uber retém 25% do valor total de cada trajeto.

“Nossa vida aqui não é fácil”, emenda Neuber. “Nós estamos falando de ser humano e não tem como questionar a índole de cada um. Alguns parceiros bebem água e jogam a garrafinha fora na lixeira. Outros não: bebem água e jogam aqui mesmo. Às vezes, o cara almoça e já deixa a sacolinha aqui mesmo, o cachorro vem, pega e rasga”, devaneia.

O desleixo dos “parceiros” com a limpeza do local contrasta com a obsessão em manter limpos os carros que carregam passageiros. Neuber, por exemplo, não parou de lustrar a lateria do impecável Renault Sandeiro nem para falar com a reportagem.

“Além de cuidar dos carros, de vez enquanto os meninos jogam baralho aqui e passamos o tempo conversando, tentando buscar alguns feedbacks entre a gente mesmo”, conta.

Neuber passa parte do tempo no posto encerando o carro (Yuran Khan/Bhaz)

De acordo com Marcelo, porém, há quem utiliza de outras estratégias para passar o tempo na fila. “O cara que vem pra cá e sabe que vai ficar cinco ou seis horas, ele traz o ‘tenizinho’ dele, vai fazer uma caminhada aqui nas ruas próximas. Tem Uber que eu sei que está fazendo academia aqui também”, conta.

De shorts, chinelos e com as barrigas à mostra, muitos dos motoristas deixam para vestir a roupa social somente quando acionados para uma corrida. “São seis horas parado, você tem seis horas de vida social. É o tempo que você não está no volante e que tem para fazer alguma coisa”, desabafa Neuber.

Em nota, a Uber informou que orienta os motoristas a não aguardarem por muito tempo na fila, pois, na avaliação da própria empresa, existe o risco de não conseguir corridas longas.

“Nossa sugestão aos motoristas parceiros é a de que ficar na fila por horas a fio não vale a pena. Isso é informado no próprio app, no momento em que o parceiro chega no Aeroporto. Nós também sugerimos este comportamento em nossas sessões informativas no centro de atendimento”, diz um trecho do comunicado.

Sem sinal

“Nessas seis horas que eu estou aqui, eu não falo com minha mãe, com meu filho, com minha esposa, eu não falo com ninguém”. O relato de Neuber Rodrigues retrata o pavor de ser alçado ao final da fila após uma simples – e recorrente – queda de sinal. Ele sempre leva dois carregadores móveis de celular no carro para afastar o risco de ficar sem o aparelho.

“Uma vez eu estava na frente do aeroporto, esperando debaixo de um ‘solão’ já tinha quatro horas. Eu estava entre um e dez numa fila de 150. O celular esquentou e caiu. Voltei para o início da fila”, conta Marcelo.

De olho nos celulares, primeiros motoristas da fila virtual não podem deixar corrida passar (Yuran Khan/Bhaz)

Para os “parceiros” da Uber, o sistema de fila virtual deveria adotar um tempo de tolerância para que pudessem restabelecer a conexão antes perder o lugar na fila. “O cara está esperando sete horas e vai desligar o celular simplesmente porque ele quer?”, ironizou Neuber. “A Uber deveria ver esse lado nosso também. Deveria ter um ‘prazinho’ de dois ou três minutos para gente ligar de novo e voltar para o lugar que estávamos”, endossa Romy Raiberger, de 45 anos.

Questionada, a Uber preferiu não se manifestar sobre a fragilidade do sistema de fila virtual apontada pelos motoristas. A empresa se limitou apenas a esclarecer que “não influencia no tempo de espera” da fila. “O que influencia é o equilíbrio entre oferta e demanda, ou seja, mais usuários pedindo um carro, menos tempo de espera”, diz um trecho da nota enviada ao Bhaz.

“Dia desses”, começou Marcelo, “estava armando uma chuva e caiu um pingo d’agua na tela do celular de um parceiro. Ele foi passar o dedo para limpar a tela e acabou desativando o aplicativo. Resultado: foi para o final da fila”. A turma caiu na risada… riram para não chorar.

Atualizada às 07:00 do dia 18/03/2017

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Guilherme Scarpellini

Guilherme Scarpellini é redator de política e cidades no Portal Bhaz.

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