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‘Baleia Azul’: Minas tem primeira morte relacionada a jogo que incentiva suicídio (e precisamos falar sobre isso)

Se você mantém perfis nas redes sociais ou é amante de séries certamente acompanhou a repercussão relacionada a 13 Reasons Why? (Os 13 Porquês, em tradução livre). Produzido pela Netflix, o seriado conta o drama de uma adolescente que decide se matar após sofrer bullyng na escola. Na ficção, a personagem Hannah deixou gravações para explicar os motivos que a levaram a tirar a própria vida. Desde o início desta semana, fora das telas, a onda de comentários e críticas sobre o enredo passou a dividir a atenção de milhares de pessoas em todo o mundo com um jogo que viralizou em diversos países, principalmente, entre internautas mais jovens.

Chamado de Blue Wale (Baleia Azul, em português), o game que tem a internet como plataforma é uma espécie de desafio em que, como último ato, o jogador é orientado a cometer suicídio. E, por mais assustador que possa parecer, relatos de pessoas que se mataram incentivadas pela proposta começaram a ser noticiados nos últimos dias. Os primeiros dois casos foram registrados na Rússia, onde o jogo da Baleia Azul teria surgido. Nesta quarta-feira (13), o Bhaz obteve acesso a boletins de ocorrência da Polícia Militar (PM) que descrevem a participação de mineiros na iniciativa, entre eles uma belo-horizontina de 13 anos. Já no caso mais grave, um rapaz de 19 anos se matou em Pará de Minas, na região Central do Estado, nessa terça-feira (12).

Jogadores do Baleia azul são orientados a se mutilar para cumprir desafios
Reprodução/Twitter

Segundo a PM, a mulher com quem o jovem morava e mantinha um relacionamento o encontrou inconsciente em uma cama. Ao perceber que não reagia a estímulos, ela resolveu chamar o Corpo de Bombeiros. Os socorristas foram até a casa, constataram que ele estava morto e encontraram caixas de remédio perto do corpo. A mãe do rapaz contou aos militares que ele participava de um grupo no Facebook chamado Baleia Azul e que havia mudado de comportamento desde que começou a participar do jogo. Ele deixou um filho de 1 mês.

A Polícia Civil confirmou que o jogo começou a ser apurado pela Delegacia Especializada de Crimes Cibernéticos, mas que os investigadores ainda precisam de mais dados já que ele é ligado a grupos do Facebook e aplicativos. Segundo a corporação, a morte do rapaz de Pará de Minas está sob responsabilidade da Delegacia de Homicídios da cidade. O artigo 122 do Código Penal define pena de 1 a 3 anos de prisão para quem induzir, instigar ou auxiliar a prática.

O caso de autoextermínio é o segundo confirmado no Brasil. O primeiro deles ocorreu no Mato Grosso do Sul, onde o corpo de uma adolescente de 16 anos foi encontrada dentro de uma represa na cidade de Vila Rica. A Polícia Civil já investiga a causa da morte, mas a principal suspeita é de que ela tenha se afogado para concluir o jogo da Baleia Azul.

Em Vila Rica, moradores se reuniram para acompanhar resgate de corpo de adolescente
Arquivo pessoal/Rafael Trindade

De volta a Minas, a mãe de uma adolescente de 15 anos procurou a Polícia Militar (PM) em Itanhomi, no Vale do Rio Doce, também nessa quarta-feira (12) para relatar que a filha começou a fazer marcas no próprio corpo depois de ter acesso ao jogo da Baleia Azul. A mulher contou que a menina explicou ter visto um site sobre o game há cerca de 20 dias e que temia os rumos do comportamento dela, já que a orientação final seria se matar. No município de Açucena, na mesma região, o diretor de uma escola foi quem procurou as autoridades. Ele contou aos policiais que três alunas, uma do 1º ano do ensino médio e outras duas do 2º ano, se desentenderam em uma discussão na internet sobre o jogo da Baleia Azul e brigaram no colégio.

Segundo o diretor, as estudantes mais velhas são irmãs e não concordam com o jogo. Elas têm 17 anos. Já a mais nova, de 15, saiu em defesa por participar de um grupo sobre Baleia Azul no Facebook. Inconformada, a menina do 1º ano teria ido até um banheiro da escola e cortado os braços diversas vezes. Em seguida, se dirigiu até uma sala onde as alunas estavam e jogou sangue contra elas. Depois disso, um colega de turma precisou intervir para separar a briga entre as três. O diretor procurou a polícia porque as meninas se ameaçaram de morte.

Reprodução/Twitter

Na capital mineira, o pai de uma menina de 13 anos foi até uma delegacia também nessa quarta-feira (13), por volta das 11h, para contar que a filha estava jogando o Baleia Azul e que a levou para fazer tratamento psicológico. O homem disse aos policiais que guardou capturas de tela que identificam usuários do Facebook que estavam incentivando suicídio em um grupo da rede social.

Oportunidade de vida

Apesar de ser tratado como um tabu, o suicídio é considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um problema de saúde pública e, por isso, precisa ser discutido. Em 2015, a entidade divulgou um relatório de prevenção ao autoextermínio com dados alarmantes: mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano em todo o mundo, o que representa uma morte a cada 40 segundos. Cerca de 75% dos casos ocorrem em países de rendas média e baixa e, segundo a OMS, o Brasil é o oitavo país com mais suicídios. Em 2012, foram registrados 11.821 casos no país. No mesmo ano, a Índia aparecia em primeiro lugar com 258 mil casos.

Mas o que leva uma pessoa a tirar a própria vida? As causas são diversas, mas estão relacionadas a um desejo de sanar as dores existenciais, como explica o psicólogo e psicanalista mineiro Eduardo Lucas Andrade. “A pessoa que se mata não sente um desejo de morte em si, mas busca sanar dores existências por meio de um ato auto-agressivo visto como a única saída”, pondera ao Bhaz. “Em muitos casos, essas tendências a tirar a própria vida ganham ares de novidade e descoberta pra novos rumos de vida quando a pessoa passa por uma escuta clínica psicológica. Pessoas de qualquer idade estão sujeitas, os adolescentes em seus embaraços, as crianças nos chamados acidentes e nos adultos com suas perdas a destacar a perda de esperança”, continua.

O psicólogo e psicanalista Eduardo Lucas Andrade
Ele viaja pelo Brasil debatendo temas relacionados ao suicídio
Arquivo pessoal/Eduardo Andrade

Segundo Andrade, que viaja pelo Brasil para debater o assunto em palestras e rodas de conversa, o suicídio deve deixar de ser um tabu. “É um assunto que precisa ser falado, mas falado com responsabilidade. Além de falar, é preciso escutar as pessoas que de alguma forma demonstram tendências a se matar. Não ter preconceito e não menosprezar o que a pessoa sente ou demonstra e oferecer acolhimento pode ser uma nova oportunidade de vida”, explica.

Sobre o Baleia Azul, o especialista considera que o fato de existir uma falsa coletividade entre os participantes do jogo pode dar mais incentivo a pessoas com dores existenciais. “O jogo é perigoso porque dá uma falsa ideia de coletividade, onde as pessoas tendem a se identificar e têm a impressão de que os atos delas não possuem consequências”, afirma. “Os pais, parentes e pessoas próximas devem ficar atentos às mudanças discursivas e comportamentais​, e assim buscar acolher se interessando de forma respeitosa pelo que o outro tem a dizer”, explica.

O especialista conta que mudanças comportamentais drásticas e posicionamentos costumeiramente negativos podem ser indícios de que alguém precisa de ajuda. “Quando alguém muda o comportamento de forma brusca é preciso ficar atento. Existem também indícios por meio de falas características. Se a pessoa pensa e costuma dizer que não presta para nada, que tem vontade de morrer e que nada dá certo tem algo ali que a motiva a falar”, conta. “O suicídio é uma das principais causas de morte na adolescência e geralmente são mortes marcadas pela agressividade”, afirma.

Perfis de russas que se mataram tinha a palavra “fim” como mensagem principal
Reprodução/Twitter

Andrade ainda explica que as dores existências são motivadas por causas específicas para cada pessoa, mas que há geralmente um sentimento relacionado à perda. “No Japão, por exemplo, uma marca do suicídio é perder o emprego. A perda também pode estar associada a uma perda amorosa, a problemas financeiros e principalmente à perda da esperança”, continua. “Não existe um momento certo para que a pessoa com tendências suicidas seja abordada. Deixar para depois pode ser uma decisão equivocada, já que muitas pessoas não conseguem ajuda. É importante buscar a prevenção e falar sobre o tema para ofertar caminhos de tratamentos”, diz.

“O tratamento psicológico com psicanalista e psicólogo é indicado para possibilitar o resgate do desejo de viver. Em alguns casos o medicamento passado pelo médico psiquiatra se faz necessário para que o sujeito resgate sua capacidade de dar conta do excesso de sofrimento e assim volte a falar para elaborar a vida. A família pode buscar orientações. No Brasil existe o CVV, Centro de Valorização da Vida, 24 horas, gratuito e pronto à escuta respeitosa”, finaliza.

Centro de Valorização da Vida

O Ministério da Saúde e o Centro de Valorização da Vida (CVV) assinaram no mês passado um acordo de cooperação técnica que permitirá o acesso gratuito ao serviço prestado pelo número de telefone 188. Por meio desse número, pessoas que sofrem de ansiedade, depressão ou aquelas que estão correndo risco de cometer suicídio conversam com voluntários da instituição e são aconselhados. Antes, o serviço era cobrado e prestado apenas por meio do 141.

Com o acordo, o CVV vai alterar ou implantar o 188 em todos os Estados brasileiros até abril de 2020. Entretanto, o 141 continuará sendo usado até que a implantação esteja completa. “O trabalho dos 2 mil voluntários que dedicam seu tempo à instituição é muito importante. É um voluntariado muito efetivo, com resultados muito positivos. O Ministério da Saúde vai continuar apoiando o CVV para que possa ampliar de forma significativa o acesso de pessoas a esse apoio emocional em momentos de angústia”, disse o ministro da Saúde Ricardo Barros.

Centro de Valorização da Vida acolhe pessoas com tendências suicidas
Divulgação/EBC

O CVV existe há 55 anos e tem mais de 2 mil voluntários atuando na prevenção ao suicídio. Os únicos Estados onde não há postos de atendimento são Roraima, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Rondônia. A assistência também é prestada pessoalmente, por e-mail ou chat.

O Brasil está entre os 28 países, de 160 analisados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que têm estratégias para prevenção ao suicídio. No país foram registrados, no Sistema de Informação de Mortalidade em 2014, 10.653 óbitos por suicídio, o que corresponde à taxa média de 5,2 por 100 mil habitantes. O índice de suicídios entre os homens (8,8) foi quatro vezes maior do que entre as mulheres (2,2). A faixa com maior incidência é a de 30 a 39 anos para os dois sexos. A meta global da OMS é reduzir as taxas em 10% até 2020.

13 Reasons Why? Assistir ou não assistir?

O crítico cinematográfico Pablo Villaça e o psiquiatra Luis Fernando Tófoli são os principais críticos da série produzida pela Netflix no Brasil. Ambos divulgaram textos nas redes sociais para discutir e fazer considerações o seriado. As publicações têm milhares de compartilhamentos.

Em “13 parágrafos de alerta sobre Os 13 Porquês”, Tófoli faz um alerta. “Meu ponto principal neste texto não é estragar a série ou dar spoiler, e sim de que pais, educadores e adolescentes estejam cientes de que o programa tem o potencial de causar danos a pessoas que estão emocionalmente fragilizadas e que poderão, sim, ser influenciadas negativamente. Não é absurdo inclusive considerar que, para algumas pessoas, a série possa induzir ao suicídio. Portanto, pessoas em situações de risco deveriam ser desencorajadas a assistir a série”, diz Tófoli em um trecho da postagem.

Já Villaça conta ter aberto uma exceção em 23 anos de carreira para não recomendar a série. “Irresponsável em sua abordagem (de novo: discuto na crítica) e ao encenar com detalhes o suicídio de Hannah, a série vai de encontro a várias das recomendações feitas pela própria OMS quanto à forma com que o suicídio deve ser tratado pela mídia. E, infelizmente, os efeitos negativos do projeto já podem ser inferidos na prática”, escreveu. “(…) A ideação suicida já é, por si só, suficientemente nociva; reforçá-la com narrativas maniqueístas e irresponsáveis é algo não só desaconselhável, mas também perigoso”, continua o jornalista ao defender a crítica.

Com Agência Brasil

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Roberth Costa

Roberth Costa é publicitário e redator de cidades no Bhaz.

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