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[Panorama Mundial] O que significa a vitória de Macron?

As eleições francesas (7 de maio de 2017) representam “uma luz no fim do túnel” para a União Europeia e para o mundo. O centrista Emmanuel Macron derrotou a candidata de extrema-direita Marine Le Pen, colocando um freio na expansão do populismo pelo globo terrestre; esse resultado, contudo, já era esperado, uma vez que a França possui um sistema político que permite aos grandes partidos frear potenciais vitórias de candidatos extremistas. No artigo “a União Europeia e seu “Ano D”, essa possibilidade já era prevista:

(…) percebe-se que o modelo eleitoral francês permitirá, caso Le Pen vá para o segundo turno, que Republicanos e Socialistas se juntem novamente contra o perigo dos xenófobos tomarem o poder na França (A União Europeia e seu “Ano D”, Coluna Panorama Mundial, 2017)

Macron x Le Pen (Reprodução: L’Express)

A mobilização a favor do candidato do “Em Marcha” foi um dos fatos mais notórios durante a campanha, já que houve a formação de uma verdadeira frente ampla republicana, que abrangeu a esquerda, o centro e a direita contra a extrema-direita. Evitar a vitória da Frente Nacional era primordial, e esse objetivo foi alcançado. Porém, o segundo turno das eleições francesas e essa frente republicana eleitoral são sintomas de uma profunda “doença” da globalização; essa enfermidade, portanto, deve ser desvendada para que não somente a França e a União Europeia (UE), mas também todo o mundo possa extirpar de uma vez por todas a onda de extrema-direita que nos assola.

O que as eleições francesas nos ensinaram?

O impulso à globalização, especialmente a partir da década de 1970, teve como resultado uma verdadeira cisão mundial entre aqueles que foram beneficiados por esse movimento e aqueles que foram prejudicados. Isso provocou uma quebra social e uma separação profunda entre as grandes cidades, de um lado, e as periferias e os pequenos povoados rurais, de outro, pois o Estado do Bem-Estar Social do pós-Segunda Guerra Mundial havia sido, de alguma maneira, rompido. É fundamental afirmar que essa separação ocorreu em grande parte dos países desenvolvidos e se configura numa das causas dos resultados das eleições nos EUA, na França e no Brexit.

Resultado do Primeiro Turno da eleição presidencial francesa por regiões (Reprodução: Le Parisien)

Enquanto a parte mais urbana e mais conectada à globalização vota em candidatos e projetos que possuem características mais liberais e cosmopolitas (Emmanuel Macron, na França; Hilary Clinton, nos EUA; e a permanência na UE, no Reino Unido), as periferias e os pequenos povoados rurais apostam em candidatos e projetos mais nacionalistas que “protejam” seus interesses (Marine Le Pen, na França; Donald Trump, nos EUA; e a saída da UE, no Reino Unido).

Verdadeiramente, as grandes cidades vivem cada vez mais afastadas das periferias e das zonas rurais; isso se reflete, consequentemente, nas posições políticas.

As consequências de Macron para a França

O segundo turno da eleição presidencial francesa deixou de fora os dois grandes partidos da política francesa – o socialista e o republicano – pela primeira vez na história da V República Francesa, que se iniciou em 1958. Portanto, um novo sistema político pode ser desenhado, a partir da superação do bipartidarismo da antiga socialdemocracia. Em determinado sentido, tal bipartidarismo ainda existente é um anacronismo na política europeia, na medida em que a globalização já tinha rompido esse equilíbrio de “opostos” remanescente do pós-Segunda Guerra. As novas forças na Espanha (o Podemos) e na Grécia (o Syriza) já demonstravam essa tendência.

Da esquerda para a direita, Alexis Tsipras e Pablo Iglesias, representantes do Syriza e do Podemos, respectivamente (Reprodução: The Guardian)

Macron, mais do que ninguém, pode conseguir um equilíbrio político, uma vez que, embora seja um ex-banqueiro do banco de investimentos Rothschild, foi ministro da Economia de Hollande (socialista). Somado a isso, adota uma posição mais centrista, o que pode ser um trunfo na obtenção de uma maioria parlamentar. Porém, isso só resolve o problema no curto-prazo.

No longo-prazo, Macron certamente não conseguirá atingir a raiz do problema, que consiste na separação entre os beneficiados e os prejudicados pela globalização. Como consequência, a Frente Nacional, de extrema-direita, que possui um discurso atraente para esses prejudicados (principalmente para a classe média), continuará sendo uma grande força e, eventualmente, conseguirá maiores ganhos políticos.

A estrutura da globalização tem condicionado até mesmo projetos mais destoantes, como aqueles da esquerda e da extrema-esquerda europeia, principalmente quando estas tentam de alguma forma romper com o atual sistema.

Por exemplo, o Syriza, partido da extrema-esquerda grega, buscou romper com a política de austeridade imposta pela burocracia europeia; esse partido, contudo, mesmo obtendo apoio eleitoral do povo grego, foi “engolido” pela força e pelo poder dos credores e de outros países (como a Alemanha).

Além disso, outro exemplo interessante é o do atual presidente da França, François Hollande, membro do partido socialista francês, que adotou diversas medidas que não condizem com as políticas históricas desse partido, como a reforma trabalhista que prejudicava frontalmente os trabalhadores franceses, a qual foi aprovada em 2016.

Manifestações contra a Reforma Trabalhistas de Hollande

A globalização, desse modo, tem possibilitado cada vez mais a cisão entre os anseios das populações e as imposições proporcionadas por essa variante do capitalismo mundial.

E a União Europeia, como fica?

A eleição de Macron é um verdadeiro alívio para a burocracia europeia, já que ele é europeísta, favorável à globalização e apoiado pelo establishment francês e europeu. Em contrapartida, Le Pen é favorável à saída da França da UE e do euro, além de defender o fechamento das fronteiras para a imigração, que são posições opostas às premissas europeias. Sem uma França engajada, a existência de uma Europa Unida estaria fadada ao fracasso:

“[…] a UE não tem nenhuma chance de sobreviver sem um engajamento profundo de França e Alemanha, uma vez que esses países são os principais expoentes do bloco nos mais diversos âmbitos. Além disso, esses dois países formam a base fundadora do bloco europeu, juntamente com Itália e Benelux (Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo), a chamada “Europa dos Seis” (A União Europeia e seu “Ano D”, Coluna Panorama Mundial, 2017)

No longo prazo, entretanto, a vitória de Macron não significará muito para o bloco europeu, já que ele faz parte do atual establishment da Europa. É difícil visualizar qualquer tendência do novo presidente francês em apoiar as reformas necessárias para possibilitar uma maior aproximação entre os anseios das populações dos Estados-membros e a burocracia da União Europeia. Um sintoma dessa distância foram as eleições ao Parlamento Europeu, ocorridas em 2014, nas quais somente 42,54% dos europeus foram às urnas escolher seus representantes, a mais baixa participação da história.

População diz: “Nós existimos”; burocratas respondem: o que vocês estão dizendo? (Reprodução: Contrelacour)

De maneira sucinta, a UE sofre de um profundo déficit democrático, pois, das instituições mais importantes desse bloco, somente o Parlamento Europeu é eleito pela população. Ainda que esse parlamento tenha experimentado um aumento das suas atribuições a partir da década de 1990, grande parte das decisões não passa por essa instituição. Dessa maneira, os europeus sentem cada vez mais um afastamento entre a burocracia e a vontade da população, o que diminui o apoio ao bloco europeu. As grandes votações de candidatos antieuropeístas pela Europa demonstra o descrédito que o bloco europeu experimenta com relação ao seu povo.

Conclusão

O segundo turno da eleição presidencial francesa é sintoma de uma tendência geral proporcionada pela globalização e pelo neoliberalismo, que consiste na cisão entre beneficiados e prejudicados, refletindo diretamente no processo político. A escolha de um membro do establishment para se tornar presidente da França só pode ser entendida quando visualizamos que a oponente, embora seja antiestablishment, é de extrema-direita, o que provoca repulsa em grande parte da população.

A escolha de Macron foi apenas uma solução temporária, já que a cisão entre o povo francês tende a continuar e até a se aprofundar, porquanto as bases do problema continuarão a existir. Além disso, no contexto europeu, mudanças significativas para proporcionar uma maior democratização da UE não parecem reais no curto-prazo, na medida em que Macron faz parte do atual círculo de poder da Europa.

Portanto, se mudanças profundas na globalização não ocorrerem no curto-prazo, tanto no que se refere ao contexto interno quanto ao regional, eventualmente um forte candidato antieuropeu e de extrema-direita pode chegar ao poder em algum Estado-chave do bloco europeu, especialmente na França, na Alemanha e na Itália. Sempre bom lembrar que a saída de um país pode desencadear um efeito dominó que colocará fim ao projeto de integração mais ambicioso da história da humanidade.

Felipe Costa Lima é formado em Direito pela UFMG; Especialista em Política Internacional pela Faculdade Damásio de Jesus; e Mestre em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Latino-americano de alma, talvez consiga quebrar visões eurocêntricas sobre os acontecimentos mundiais. Talvez…

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