Era noite de terça-feira, Suely estava em casa enquanto seu filho se divertia ao lado da companheira e de um casal de amigos em um tradicional bar do centro de Contagem. Seria apenas mais um dia normal na vida da dona de casa. Ela dormiria, acordaria e, logo no dia seguinte, teria Davidson de volta à pequena residência no bairro Novo Eldorado. No entanto, desde o dia 23 de abril de 2013, a mãe do rapaz vive a angústia da espera: o filho saiu pela porta e até hoje, 4 anos depois, ainda não voltou.

“Você cuida de um filho com amor e de uma hora pra outra ele desaparece, vira fumaça”, é como Suely Dutra, 53, tenta explicar a ausência de notícias do primogênito, que, à época, tinha 28 anos. No Brasil, aproximadamente 250 mil pessoas desaparecem todos os anos e, a cada uma hora, cerca de 25 pessoas somem em Minas Gerais. Segundo dados da Polícia Civil, no Estado, só no ano passado, foram contabilizados 8,2 mil desaparecidos e, entre todas as cidades, Belo Horizonte é a que tem o maior índice. Os números, porém, não chegam perto da realidade. A maioria dos casos não são registrados oficialmente e as estatísticas também não se aproximam, nem de longe, da dor das mães que vivem sem saber por onde os filhos andam.

Os últimos momentos de Davidson foram contados pela moça com quem ele se relacionava na época. Segundo ela, o jovem teria ficado na porta de casa por volta de meia-noite e no dia seguinte não deu nenhuma notícia. Preocupada, ela ligou para a mãe do rapaz em busca de informações. Suely, porém, estranhou, já que o filho não havia entrado em casa. “Ela me perguntou se eu sabia onde o Davidson estava, mas a última vez que vi meu filho, ele estava com ela”, conta. Já na quinta-feira, outra versão surgiu: a companheira do rapaz contou que ele teria saído para atender um telefonema, ainda quando estavam no restaurante, e não voltou mais à mesa.

As versões contraditórias assustam e a incerteza toma conta da vida da mãe que, de uma hora para outra, perdeu o sentido. “É muito ruim viver sem saber onde que um filho está, o que aconteceu com ele. A vida da mãe não é mais a mesma… eu não saio de casa, não vou a festas, nada sem meu filho tem mais graça”, desabafa.

A incerteza traz angústia e as suspeitas, por sua vez, pioram o sofrimento de mulheres como Jaqueline Gomes. Ela é mãe de um jovem de 19 anos que desapareceu há um mês e acredita que o filho possa ser vítima de uma quadrilha de tráfico de pessoas. Em um de seus últimos contatos com conhecidos, Daniel informou a uma amiga por mensagem que tinha ido ao Rio de Janeiro buscar um passaporte e de lá seguiria para a Espanha.

Daniel, 19 anos, desaparecido desde 3 de abril (Arquivo Pessoal)

Na rodoviária, a confirmação: no dia 15 de abril, Daniel embarcou para o Rio de Janeiro. “Ele nunca saiu de Lagoa Santa sozinho e do nada vai para o Rio? Ele não tinha dinheiro para pagar passagem nem passaporte”, conta. “A Espanha é um dos países com maior número de tráfico de pessoas e para ir pra lá não precisa de visto. Eles levaram meu filho… eu tô com muito medo”, desabafa a mãe, que perdeu o emprego de atendente de caixa após duvidarem que o motivo das faltas ao trabalho eram realmente a busca pelo filho.

Buscas sem sucesso

Em contato com a Polícia Federal, Jaqueline solicitou o bloqueio do passaporte de Daniel, caso ele ainda não o tenha retirado. Mas as investigações lentas e a impotência diante da situação deixam a mãe aflita. “Estou dependendo da polícia para descobrir se ele já saiu do Rio, mas eu não sei o que fazer. Não tenho dinheiro, não tenho emprego e eu não aguento mais esperar”, revela, sem conseguir conter o choro.

Impotência é também o que Suely sente depois de fazer tantas buscas por Davidson. Ela esteve em abrigos, hospitais e até no IML (Instituto Médico Legal). “Toda vez que eu saía para procurar e não achava nada, voltava ainda pior. É muito triste não saber onde um filho está, quando faço almoço penso ‘oh meu filho, aqui tem comida e eu não sei nem se você está comendo, se você está com fome'”, conta.

Ela já espalhou a foto do filho pelas ruas, fez panfletos e colocou as imagens do rapaz em diversas contas de água e luz, mas nunca teve resposta.”Se está vivo, por que ninguém viu? Se está morto, cadê o corpo? Eu nunca tive nenhuma pista”, comenta.

Banner de Davidson fixado no quarto onde Suely dorme (Yuran Khan/Bhaz)

Dia das Mães: uma data que dói

Se no dia a dia a ausência do filho já enche o peito de saudade, no Dia das Mães, a falta do abraço faz doer a alma. Suely passa a data longe de Davidson há 3 anos e à mesa sentam-se somente ela e os outros dois filhos. “No Dias das Mães, eu sempre fico esperando. Meus outros meninos sempre estão comigo, mas continua faltando ele, meu coração nunca fica completo”, diz a dona de casa, deixando transparecer nos olhos a falta que faz o filho mais velho.

“Não existe Dia das Mães sem um filho”, reflete Jaqueline, mãe de Daniel. O garoto morava em Lagoa Santa, enquanto ela em BH, e os dois sempre mantiveram uma relação saudável. Eles costumavam trocar mensagens diárias pelas redes sociais. No entanto, ela lembra que, dias antes do sumiço, as conversas estavam estranhas. “Ele só respondia o básico, acho que já estava sendo vigiado por essas pessoas”, conta.

O desespero da perda do único filho deixa Jaqueline sem chão e a vontade é de encontrá-lo de qualquer jeito. “Se ele estiver morto, eu não sei quando vou achar o corpo e se ele estiver traficado, talvez nunca mais o veja. Mas eu tenho que encontrar meu filho. Ele vivo, morto, machucado, no hospital… eu só tenho ele”, diz ao telefone, com a voz embargada.

Jaqueline e Daniel durante viagem (Arquivo Pessoal)

Ivanise Esperidião, fundadora do Mães da Sé, entidade que ajuda mães a encontrarem filhos desaparecidos, também vive o drama de um Dia das Mães sem sentido. Há 21 anos, Fabiana desapareceu ao sair para o aniversário da vizinha. Desde aquele 23 de dezembro é que ela espera ansiosa pela volta da filha. “No Dia das Mães a gente alimenta a expectativa que nosso filho vai estar conosco. Mas chega o dia, ele não está. Chega o próximo, também não e assim vai passando ano por ano”, comenta entristecida.

E o passar do tempo não é capaz de amenizar a saudade. “Tem dia que eu acordo e sinto o cheiro dela, a lembrança, a sensação de que tô vendo ela ali. Não é porque passaram 21 anos que eu esqueci. As pessoas vão esquecendo mas uma mãe não esquece nunca”, finaliza.

Mães que ajudam mães

A dor de perder a filha sem notícias despertou no coração de Ivanise a vontade de ajudar outras mães que passavam pela mesma situação. Para isso, ela criou a “Mães da Sé”, ONG de São Paulo que atua em todo o Brasil. A ideia de criar a associação surgiu após uma viagem ao Rio de Janeiro para participar da novela “Explode Coração”. Lá, ela conheceu o projeto “Mães da Cinelândia”, um grupo de mulheres que reivindicavam seus direitos e os de seus filhos desaparecidos.

Desde o dia 31 de março de 1996, a fundadora da iniciativa se reúne com dezenas de outras mães que buscam seus filhos nas escadarias da Catedral da Sé. Junto a órgãos públicos, a “Mães da Sé” realiza cadastro dos desaparecidos, fomenta as buscas e fornece assistência e atendimento às mães que necessitam de ajuda.

“Transformei minha dor em uma luta”, categoriza Ivanise. A ONG, segundo a presidenta, é, além de um mecanismo de busca, uma forma das mães se ajudarem e se fortalecerem. Um bom exemplo são os grupos de terapia, nos quais essas mulheres contam um pouco da história e conversam sobre o dia a dia. “Essas terapias ajudam a conviver de forma mais amena com essa dor. Temos que estar bem pra continuar buscando”, conta.

Esperança

Para lidar com a falta do filho, o que resta a essas mulheres é a esperança de tê-los de volta. A “Mães da Sé”, ao longo desses 20 anos, tem promovido diversos reencontros e, de acordo com a fundadora, das mais de 10 mil mães que já se cadastraram em busca do filho quase 5 mil os tiveram de volta.

Segundo dados da Polícia Civil, o número de encontrados em Minas Gerais tem aumentado. Em 2012, o índice era de 26%, mas, até 2015, essa taxa aumentou para 46%, ou seja, quase metade das pessoas registradas como desaparecidas.

Os dados provam que as buscas contínuas têm resultado e enchem ainda mais o coração dessas tantas mães de esperança. “Eu tenho expectativa de que ela volte, mesmo depois de 21 anos”, comenta Ivanise. “Somos várias passando por isso e estamos unidas pela mesma dor da perda, o mesmo amor de mãe e a esperança de encontrar nossos filhos”, reflete ela.

“Quem sabe nesse Dia das Mães Deus não manda meu filho de presente, né? Eu ainda vou ter vitória”, deseja Suely, que, apesar das lágrimas nos olhos, estampa um sorriso de espera no rosto.

Letícia Almeida

Letícia Almeida é redatora no Portal Bhaz

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