Cena 1 – Belo Horizonte, fevereiro de 1977

*Marcelo Freitas

Em 1977, os belo-horizontinos que desejassem ver um filme tinham à disposição 31 cinemas. Eram 18 no chamado hipercentro e 13 nos bairros. Na época, Belo Horizonte tinha cerca de 1,5 milhão de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A era dos shopping centers ainda não havia chegado. O comércio estava concentrado no hipercentro. Era para lá que a cidade convergia. Até os chamados “cinemas de bairro” não fugiam a essa regra. As salas de exibição mais distantes, como o cine Amazonas, na Barroca, ficavam próximos ao anel delimitado pela avenida do Contorno.

Os cinemas de 40 anos atrás em nada lembram os de hoje. A começar pela localização. Em uma cidade sem shoppings – o primeiro, o BH Shopping, seria inaugurado somente em 1979 – os cinemas eram todos de rua. E eram salas enormes. A maior delas, o cine Brasil, na Praça Sete, no coração da cidade, tinha 1.820 mil lugares. Era um dos maiores cinemas do país.
Mas, uma característica marcante dos cinemas de Belo Horizonte em 1977 era a diversidade da programação. Havia de tudo. Os amantes do cinema, digamos, mais de arte, tinham o cine Pathé, na Savassi, como ponto de encontro. Na segunda semana de fevereiro, lá estava sendo exibido “Compasso de espera”, filme brasileiro de Antunes Filho que tinha como tema o racismo. Os grandes sucessos de Hollywood também tinham lugar cativo nos cinemas de BH. “A batalha de Midway”, que mostra a vingança americana ao ataque dos japoneses a Pear Harbour, na Segunda Guerra Mundial, estava em cartaz no cine Art Palácio, na rua Curitiba.

No cine Amazonas, o filme em cartaz era um grande sucesso de bilheteria daquele ano: “Romeu e Julieta”, um clássico do diretor italiano Franco Zefirelli. Os cinemas de bairro eram para onde os filmes iam depois que cumpriam sua trajetória nas salas do centro da cidade. Era como se fosse uma segunda chance que as pessoas tinham para vê-lo pela primeira vez, ou mesmo revê-lo, antes que deixassem de ser exibidos na cidade.

O cinema brasileiro tinha um espaço generoso. Na segunda semana de fevereiro de 1977, estavam em exibição em Belo Horizonte 12 filmes nacionais. O de maior bilheteria era “Os Trapalhões no planeta dos macacos”, com Renato Aragão. Era também o único filme a estar em mais de um cinema. O filme podia ser visto nos cines Guarani, na rua da Bahia, próximo à avenida Álvares Cabral, onde hoje funciona o museu Inimá de Paula; Roxy – que mais tarde viraria cinema de arte –, na avenida Augusto de Lima, entre ruas Araguari e Mato Grosso, no Barro Preto; e Tamoio, que se localizava no quarteirão da rua de mesmo nome, entre a avenida Amazonas e a rua Curitiba, bem no hipercentro.

Nos anos de 1970, a diversidade era uma característica mais presente nos cinemas de BH do que hoje

Mas, nem só de Trapalhões vivia o cinema brasileiro na época. O “quente” eram as pornochanchadas, ou o cinema erótico, como se dizia. No cine Jaques, que virou o que é hoje o complexo de cinemas do Shopping Cidade, estava em cartaz “Confissões de uma viúva moça”, com José Wilker e Sandra Barsotti; no cine Regina, “Ninguém segura essas mulheres”, com Jece Valadão e Vera Gimenez; e no cine Lafaiete, Tony Vieira e Claudete Joubert era os astros de “Sob o domínio do sexo”, um digno representante de um lado, digamos, mais “trash” do cinema brasileiro na época. Os mais puristas torciam o nariz para Tony Vieira. Porém, eram filmes que tinham público. Por esta razão, estavam nos cinemas de Belo Horizonte. Quem apreciava os filmes de bang-bang também tinha aonde ir. No cine Texas (o nome é sugestivo), estava em cartaz “Eles o chamavam Trinity”. Igualmente, não podiam se queixar os que apreciavam os chamados “filmes de kung fu”, como eram genericamente conhecidos os filmes que tinham como ponto alto as cenas de lutas orientais. No cine Santa Efigênia estava em cartaz “O dragão da morte”. No Progresso, no bairro Padre Eustáquio, o filme em exibição tinha o sugestivo título de “O touro de guerra chinês”. Sem entrar na discussão sobre estilos cinematográficos, que são conceitos subjetivos relacionados ao gosto pessoal, o fato é que em 1977 havia uma maior diversidade de filmes em cartaz do que hoje.


Cena 2 – Belo Horizonte, fevereiro de 2017

Em comparação com 1977, Belo Horizonte praticamente dobrou de tamanho em 40 anos. A cidade tem hoje 2,5 milhões de habitantes. O número de cinemas mais que dobrou: passou de 31 para 89. Hoje, a cidade tem uma sala de cinema para cada 28 mil habitantes. Em 1977, era uma para cada 48 mil. Em tese, avançamos no acesso à sétima arte. Entre estes dois momentos, ocorreu também uma significativa mudança na forma como os cinemas se inseriram na cidade. Em 1977, quando ainda não havia os shoppings, todos os cinemas eram “de rua”. Hoje, no chamado “circuito comercial”, da era dos cinemas de rua, restam apenas três salas, as do complexo Belas Artes, localizado próximo à Praça da Liberdade. Todos os outros cinemas de Belo Horizonte funcionam em shoppings centers.

Em quatro décadas, mudou também a forma como o “negócio” cinema estava organizado em Belo Horizonte. Em 1977, havia um quase monopólio, já que todas as principais salas de exibição pertenciam a um único dono, o empresário Antônio Luciano Pereira Filho, cuja fortuna quando de sua morte, em 1990, era calculada em US 3 bilhões. Antônio Luciano foi um empresário polêmico. Era o maior proprietário de lotes em Belo Horizonte, boa parte deles, segundo se dizia quando ainda estava vivo, fruto de ocupações que eram depois regularizadas. Antônio Luciano foi também um grande “namorador”. Tanto que após seu falecimento, aos três filhos que teve durante o casamento, juntaram-se outros 27, fruto de suas “puladas de cerca”.

Antonio Luciano dominou o mercado cinematográfico de Belo Horizonte por cerca de meio século

Em vida, Antônio Luciano cuidava muito bem de seu monopólio na área cinematográfica. Tanto que, durante os quase 50 anos em que a Cinemas e Teatros Minas Gerais S/A esteve sob seu comando, até seu falecimento, somente uma outra rede de cinemas conseguiu fincar pé em Belo Horizonte. A essa outra rede pertenciam os cines Candelária, na praça Raul Soares;  Regina, na rua da Bahia; e Nazaré, na rua Guajajaras. Hoje, nenhum dos três cinemas existe mais. O problema foi que na migração dos cinemas, da rua para os shoppings, ocorreu um acidente de percurso: o rompimento do monopólio da Cinemas e Teatros.

Hoje, a Cineart, que sucedeu o império de Antônio Luciano na área de exibição cinematográfica e é administrada por um neto dele, ainda é a maior exibidora em Belo Horizonte. A diferença é que esse espaço agora é dividido com outras quatro redes. A Cineart tem 47 salas, das 89 que existem em Belo Horizonte. Só não está presente nos shoppings Diamond, Pátio e BH Shopping. Nestes, as salas pertencem à rede americana Cinemark, a primeira no ranking nacional, com 610 cinemas em todo o país e 23 na capital mineira. As outras salas pertencem à mexicana Cinépolis, a segunda no ranking nacional, com 359 salas, das quais seis em Belo Horizonte; à Cinecercla (cinco salas) e à Cine TJ, também com cinco salas. A Cinecercla e o Cine TJ são empresas mineiras. O Belas Artes corre por fora, com três salas.

Também em tese, os apreciadores do cinema saíram ganham com a quebra do monopólio da Cinemas e Teatros. São raros os casos em que isso não ocorre. Porém, quando se chega ao ponto central – os filmes em cartaz – é que vem a surpresa. O número de salas praticamente triplicou, mas, entre 1977 e 2017, o número de filmes em cartaz diminuiu, passando de 32 para 26. Se fosse feita uma regra de três, apenas para se manter a proporção entre um período e outro, em fevereiro último deveriam estar em exibição nos cinemas de Belo Horizonte 94 filmes, ou seja, 68 a mais.

A perda não foi apenas numérica. Nesse período, ocorreu também uma redução da diversidade dos filmes em cartaz. Hoje, diferentemente, do cenário de 1977, o mercado exibidor de Belo Horizonte é dominado pelos filmes produzidos pelos grandes estúdios americanos. Em fevereiro último, dos 26 filmes em exibição, 15 eram de lá; outros três eram co-produções de estúdios americanos com outros países. Os estúdios franceses estavam por trás de apenas duas co-produções, com belgas e canadenses. Os filmes brasileiros eram seis, dos quais apenas dois podia-se dizer que tinham um razoável espaço na rede exibidora: “Minha mãe é uma peça 2”, com Paulo Gustavo, estava em 12 salas, mesmo número de salas de “TOC – transtornada, obsessiva, compulsiva”, estrelada por Tatá Werneck”. Os dois filmes são produções da Globo Filmes. Os outros quatro filmes brasileiros – “Eu fico loko”, “Axé, canto do povo de um lugar”, “Redemoinho” e “Os penetras”– estavam relegados a somente uma sala cada.

Na comparação com os filmes brasileiros, as produções americanas tiveram, em fevereiro último, um espaço de exibição muito maior. “Resident evil 6 – o capítulo final”, que foi divulgado como sendo o filme de encerramento da franquia, estava em 21 salas; “Moama, um mar de aventuras”, uma animação dos Estúdios Disney, podia ser visto em 15 salas. Apenas a título de comparação, os dois filmes ocuparam um quarto a mais de salas que a soma dos seis títulos brasileiros.

Cine Metrópole ficava na esquina das ruas Bahia com Goiás; quando fechou as portas, nos anos de 1990, Roxy era um cinema de arte

Exibição concentrada – Esse cenário é reflexo da forma como está organizado o sistema de exibição de filmes no Brasil. De acordo dados da publicação “Filme B”, especializada na análise do mercado cinematográfico nacional, o Brasil tem hoje 2.960 salas de cinema. Destas, 2.228, ou seja, 75%, estão localizadas em shoppings centers. Trata-se de um mercado altamente concentrado, no qual 1.516 salas (68% do total) pertencem a somente cinco empresas exibidoras: a americana Cinemark, a mexicana Cinépolis, a brasileira Kinoplex (252 salas), a inglesa americana UCI Cinemas International (196 salas) e a brasileira Moviecom (103 salas).

Se acrescentarmos a mineira Cineart (70 salas) e a Cinesercla (80 salas), que também estão entre as maiores redes, esse percentual sobe 74%. Tal concentração se dá não apenas em termos físicos. Quem tiver a curiosidade de comparar a programação destas redes verá que os filmes em exibição são mais ou menos os mesmos, com uma ou outra variação. Em sua maioria, são filmes americanos. Não importa muito se em cinemas do Nordeste, do Sudeste ou do Sul, a receita é uma só.

Este é um cenário que, na avaliação do diretor da Filme B, Paulo Sérgio Almeida, não tende a ser muito promissor para quem não aprecia apenas os filmes dos grande estúdios americanos. “Se mudar, será para pior”, afirma Paulo Sérgio. A seu ver, são vários os fatores que contribuem para esse cenário. O primeiro é que os estúdios americanos controlam o mercado distribuidor e estão cada vez mais exigentes no sentido de garantir que seus filmes sejam exibidos no maior número possível de salas. Outro fator é o reduzido número de salas de cinema que o país tem hoje, o que, no seu entendimento, tornará a disputa por espaço cada vez mais acirrada.

Paulo Sérgio Almeida, da Filme B, considera que o quadro atual é irreversível

Em razão disso, o cenário que ele prevê para os próximos anos é de consolidação da divisão do mercado exibidor em dois segmentos, que não irão se misturar. Um é o dos “blockbusters”, como são popularmente conhecidos os filmes “arrasa quarteirão” dos estúdios de Hollywood. O outro segmento é o dos filmes autorais vindos de países outros que não apenas os Estados Unidos e que são genericamente definidos como “filmes de arte”.

Para Paulo Sérgio, o cenário que se desenha é muito claro. “O circuitão exibe os filmes do circuitão. Os cinemas de arte exibem a diversidade e dificilmente irão se misturar. A tendência é acabar com o café com leite”, afirma o diretor da Filme B. A mesma regra vale, segundo ele, para o cinema nacional. “Se o filme nacional for um ‘blockbuster’, ele entra no circuito grande. Se for um filme nacional de arte, entra no circuito de arte”. Nesse caso, o fato de ser uma produção nacional irá, segundo Paulo Sérgio Almeida, importar pouco.

O fato de um filme estar presente em um número grande de salas de um mesmo complexo exibidor preocupa a Agência Nacional de Cinema (Ancine) que, em 2014, estabeleceu regras para evitar a redução da diversidade de títulos. De acordo com a norma em vigor, um único filme não poderá ocupar mais que seis salas de exibição, como é o caso dos complexos de maior porte, que têm 20 cinemas ou mais. O mesmo decreto é o que estabelece a Cota de Tela reservada aos filmes nacionais. De acordo com a norma em vigor para 2017, cada sala é obrigada a exibir o filme nacional em pelo menos 28 dias do ano. De acordo com a Ancine, se a empresa exibidora descumpre a regra que estabelece limite para a ocupação de salas por um único título, a penalidade é o aumento dos dias de exibição do filme nacional. Segundo a agência, as empresas que extrapolaram o limite estão sendo notificadas e terão que cumprir a cota adicional.


Redes silenciam – Durante todo o mês de março, BHAZ tentou ouvir Lúcio Otoni, que, além de gerente-geral da Cineart, é o presidente do Sindicato das Empresas Cinematográficas de Belo Horizonte, instituição que representa as empresas que são donas das salas de cinema da capital. O primeiro contato foi feito no dia 8 de março, por meio da empresa que presta assessoria de imprensa à Cineart. Na ocasião, foi solicitado o envio das perguntas por e-mail, o que foi feito.

No dia seguinte, recebi o recado de que era para ligar para Lúcio Otoni em um determinado horário, naquele dia. Na mensagem, havia a informação de que ele iria dar a entrevista, mas que discordava de alguns pontos da pauta. Ocorreu, porém, que por um desencontro de horários, a leitura do e-mail informando sobre a entrevista se deu após o horário no qual ele havia informado que estaria à disposição da reportagem.

No dia seguinte, foi feito novo contato. Em resposta, a secretária de Lúcio Otoni informou que ele ligaria dando retorno, o que, porém, não aconteceu. Novo contato com a secretária solicitando a entrevista foi feito dia 15 de março. Ela pediu que enviasse as perguntas novamente, por e-mail, o que foi feito. Nesse mesmo dia, liguei também para a assessoria de imprensa da Cineart. Expliquei que era importante ter a fala de Lúcio Otoni, especialmente tendo em vista que ele discordava de alguns pontos da pauta. Foi pedido que enviasse novamente as perguntas. A jornalista da assessoria de imprensa disse que iria ver um novo horário da entrevista. Mas, não houve retorno. Finalmente, no dia 7 de abril, fiz a última tentativa de ter a palavra do gerente-geral da Cineart. Mas foi infrutífera.

A americana Cinemark, proprietária do segundo maior número de salas de cinema em Belo Horizonte, também foi contatada pelo BHAZ. O contato inicial foi feito no dia 14 de março, via empresa que presta assessoria de comunicação para a rede. A jornalista responsável pelo atendimento informou que iria contatar o porta-voz da empresa e daria um retorno, que foi dado dois dias depois, em 16 de março. A resposta foi de que a solicitação não pôde ser atendida, porque ainda não tinha sido possível contatar o porta-voz da Cinemark. Diante disso, foi informado à empresa que a reportagem estava com o dia de fechamento em aberto para que fosse, assim, possível ter a palavra da Cinemark. Mesmo diante disso, o contato não evoluiu para a entrevista. Por e-mail, a jornalista responsável pelo atendimento informou que não podia precisar quando iria ter um retorno do porta-voz da Cinemark. No dia 28 de março, foi feita nova tentativa. A resposta dada foi a mesma. O último esforço foi no dia 7 de abril. Mas, a exemplo da Cineart, também não houve retorno por parte da Cinemark.

Cinemark é a maior rede exibidora do país, com 610 salas

Ainda que a Cineart e a Cinemark tenham optado pelo silêncio, os representantes da Cinesercla e do cine TJ falaram ao BHAZ. A Cinesercla está presente em nove estados, com 80 salas. Porém, em Belo Horizonte, sua presença é pequena. Tem apenas cinco salas no Shopping Norte, em Venda Nova. Mas sua programação não é muito diferente da que é exibida nos cinemas da Cineart ou da Cinemark. Segundo Ricardo Morgan, gerente de Marketing da empresa, a redução do número de filmes em exibição em Belo Horizonte entre 1977 e 2017 é culpa dos distribuidores, pois são estes – não as redes exibidoras – os responsáveis pela programação das salas.

Para ele, a predominância dos “blockbusters” na programação dos cinemas das grandes redes reflete a mudança no perfil do público freqüentador, que segundo Ricardo Morgan, pode ser dividido em dois grupos. O das classes A e B dão preferência a filmes alternativos, legendados e com menos apelo comercial. O frequentadores que pertencem às classes C, D e E preferem o circuito comercial, dos shoppings, e os filmes dublados. Para Ricardo Morgan, a redução do número de filmes brasileiros nos cinemas entre o período e outro pesquisado reflete a realidade do setor. Segundo ele, a Lei das Cotas, que obriga a exibição de filmes nacionais em um número mínimo de dias do ano, apenas facilita, mas não resolve o problema, porque são poucos os filmes que atendem ao perfil do público da maioria das salas.

O cine TJ tem apenas sete salas de exibição, todas no shopping Pampulha Mall, localizado na avenida Antônio Carlos, próximo à barragem da Pampulha. O nome da empresa é formado pelas iniciais dos dois sócios: Tiago e Joseane. A programação da sala é feita pela Cinemagic, uma empresa exibidora com salas em Vitória, no Espírito Santo, e nas cidades de Araruama e Rio das Ostras, no interior do Rio de Janeiro.

Sua programação é a mesma das outras redes, baseada nos “blockbusters”, com pouca diversidade em relação a outros gêneros. Não seria diferente, segundo Joseane Arcanjo Batista, uma das sócias da empresa, porque é este o tipo de filme que os freqüentadores do Cine TJ gostam de assistir. “A gente quer são os grandes lançamentos. São eles que chamam os freqüentadores. Sem eles, nós teríamos grandes dificuldades”. Ela reconhece que existem outros tipos de filmes que não apenas os que exibe em suas sete salas, mas no Cine TJ, não há espaço para eles. Por uma razão muito simples, segundo Joseane: não atraem público. “Se exibirmos, não vai ter procura”.


O outro lado do circuito comercial

Em Belo Horizonte, a redução da diversidade dos filmes em cartaz no circuito comercial é compensada pelo chamado “circuito alternativo”, que é formado pelo Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes; pelo MIS Cine Santa Tereza; pelo Cine Sesc Palladium e pelo Cine 104. O Humberto Mauro é o mais antigo. Está em atividade há 40 anos e é bem equipado. Tem projetores que rodam o velho celulóide em 16 e 35 milímetros e também o digital com resolução 4k. Tem 136 lugares, apenas 14 a mais que o MIS Cine Santa Tereza. Este último pertencia à Cinemas e Teatros e estava fechado, enquanto cinema, desde os anos 1980. Foi reinaugurado há pouco menos de um ano.

O Humberto Mauro e o Santa Tereza são cinemas públicos. Pertencem ao governo de Minas e à prefeitura de Belo Horizonte. O Sesc Palladium (82 lugares) e o 104 (85 lugares) são cinemas privados. Em comum às salas, está o fato de terem uma programação muito diferente daquela que é oferecida pelo circuito comercial, dedicando-se, prioritariamente, a mostras temáticas e de diretores consagrados. Neste circuito, foram exibidas, este ano, entre outras, mostras do cinema italiano e de filmes de western. Entre os diretores que, recentemente, tiveram suas obras levadas às telas alternativas, estão o russo Andre Tarkowski, o sérvio Emir Kusturica e os norte-americanos Joel e Ethan Coen, artisticamente conhecidos como os Irmãos Coen.

Para Bruno Hilário, coordenador do Cine Humberto Mauro, a grande surpresa deste ano foi a mostra Tarkowski, cujos filmes têm como marca registrada a lentidão do ritmo, extremamente o oposto dos filmes exibidos no circuito comercial. Em todos os dias da mostra, a sala operou com 100% de ocupação. Tal fato comprova, segundo ele, que existe na cidade demanda por um tipo de filme que não apenas o do cinema comercial norte-americano. “O que talvez falta ao circuito comercial é a compreensão de que é preciso ofertar outras possibilidades”, afirma o coordenador do Cine Humberto Mauro, sala que ano passado recebeu, nas mostras principais, cerca de 70 mil pessoas. Tal desempenho é, a seu ver, a prova da existência desse mercado por ser explorado.

Para ele, isso não acontece por puro protecionismo de mercado, que se dá porque os grandes estúdios estão conectados às distribuidoras e estas às redes exibidoras. “É uma relação de perversidade, de proteção comercial das produções norte-americanas”. Segundo Bruno, essa relação é tão perversa que muitas vezes as redes são obrigadas a exibir filmes que não são de seu interesse apenas para que possam ter direito aos “blockbusters”. O resultado disso, segundo Bruno, é que não sobra, no circuito comercial, espaço para o cinema brasileiro ou mesmo para filmes mais autorais. Ele, entretanto, não chega a afirmar que os cinemas são reféns das distribuidoras. Prefere a palavra “coligados”.

Quem conhece de perto o mercado distribuidor de filmes é Francesca Azzi, diretora da Zeta Filmes, uma distribuidora com sede em Belo Horizonte especializada em filmes que compõem o chamado “cinema de arte”. Ela afirma que chegou a fazer algumas tentativas de exibir seus filmes junto às grandes redes de cinemas. Hoje, porém, não faz mais isso, porque constatou que as grandes redes não têm interesse nos filmes que distribui. “Já desisti de estabelecer uma relação com eles”. Francesca se queixa da falta de salas para a exibição de filmes autorais no Brasil pelo circuito comercial. Quando isso acontece, o filme autoral divide horários na mesma sala com outro filme. Porém, ao filme autoral ficam reservados sempre, segundo ela, os piores horários de exibição.

A diretora da Zeta Filmes afirma não ter muita ilusão quanto à possibilidade de haver uma reversão desse cenário. “A situação não é animadora. Nosso espaço, o espaço da diversidade, tem encolhido ano após ano no circuito comercial”. Além da falta de salas, outro problema que as distribuidoras que não trabalham com “blockbusters” enfrentam é o pagamento da taxa, cobrada pela rede exibidora, para a realização da cópia digital dos filmes, que vigora até a terceira semana de exibição. O problema, de acordo com a diretora da Zeta filmes, é que os filmes autorais têm um público menor e nem sempre conseguem romper a terceira semana, quando essa taxa deixaria de ser cobrada.

Francesca Azzi tem opinião idêntica à de Bruno Hilário, do Cine Humberto Mauro quanto ao papel dos cinemas na formação de público. Para ela, as grandes redes de cinema não contribuem para isso. “O que eles querem é que as pessoas gostem apenas dos filmes que eles vendem”. Para ela, a situação de hoje, em termos de diversidade, é pior que a de 40 anos atrás, quando, lembra ela, todos os grandes diretores, e não apenas os norte-americanos, tinham espaço assegurado nos cinemas. “O Pathé era um cinema de arte que exibia filmes de um sem número de países e diretores”, afirma Francesca Azzi.

Quem também conhece muito a história do cine Pathé é a doutora em sociologia Celina Albano, ex-secretária de Cultura de Belo Horizonte. Nascida e criada no bairro de Funcionários, ela era uma de suas assíduas freqüentadoras. Além de cinéfila, foi crítica de cinema do jornal “Estado de Minas” e integrante do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC). Nessa condição, Celina Albano pôde testemunhar a parceria que havia, nos anos de 1960, entre o CEC e a Cinemas e Teatros. No livro “Cine Pathé”, que integra a coleção de livros “BH. A cidade de cada um”, Celina Albano conta que o filme da sessão de arte, como era denominado o horário de sexta-feira às 22h, era programado pelo CEC, fruto de uma parceria entre a instituição e o diretor-comercial da Cinemas e Teatros, Vitor Márcio Pereira Campos. “Havia diálogo com a Cinemas e Teatros”, afirma Celina Albano. Para ela, a ida dos cinemas para os shoppings contribuiu para empobrecer a programação, na medida em que ocorreu uma inversão da lógica que predominava antes, quando as pessoas iam “ao” cinema. Hoje, na definição de Celina Albano, elas vão ao shopping e aproveitam para ver um filme. A compensação, segundo ela, é que hoje as pessoas dispõem de muitos outros meios de assistir um filme, inclusive em casa, em TVs de alta definição.

Contemporâneo de Celina Albano no CEC, Victor de Almeida, jornalista e atual diretor-executivo da instituição, considera que em 40 anos, além da redução da diversidade, houve uma regreção do diálogo que havia entre os exibidores e o setor da indústria cinematográfica que não produz só os “blockbusters”. “Não existem brechas de negociação. O negócio ficou profissional. Você não trata mais com o dono do cinema, mas com um executivo. A programação é feita fora do Estado. As cadeias de exibição são nacionais”, afirma Victor de Almeida. Ele afirma que há pouco tempo, o cineasta mineiro Oswaldo Caldeira quis exibir seu último filme, “Histórias de Alice”, em parte produzido em Portugal, mas não conseguiu horário em nenhum cinema de Belo Horizonte. Outro diretor, Neville d’Almeida, cujos filmes já foram grandes sucessos de bilheteria nos anos de 1980, como “A dama do lotação” e “Os sete gatinhos”, conseguiu exibir seu último filme – “A frente fria que a chuva traz” – apenas no último horário do dia e, mesmo assim, quase que pedindo “por favor”.


Quebra do monopólio

Se na década de 60, a relação entre a Cinemas e Teatros era amigável, o mesmo não se pode dizer do cenário no início dos anos de 1980, quando da fundação do Savassi Cine Clube, que seria a primeira tentativa mais estruturada de se criar uma alternativa ao quase monopólio da Cinemas e Teatros em Belo Horizonte. Mônica Cerqueira, uma das fundadoras do Savassi, conta que para ter acesso aos filmes, teve que procurar Vitor Márcio. Ela afirma que foi para a reunião esperando pelo pior. “Todo mundo dizia que ele ia acabar comigo. Era uma lenda na cidade”. Para surpresa sua, foi muito bem recebida. “Ele foi super gentil”. Só que a gentileza não se traduziu na cessão de filmes. Um mês depois de inaugurada a sala, por pressão dos distribuidores, ela não conseguia alugar mais nenhum filme. Então, passou a buscar outros meios, projetando filmes de acervos particulares, como os de embaixadas. Ou filmes que estavam com o certificado de exibição vencidos e deveriam ser incinerados mas eram clandestinamente guardados. De acordo com Mônica Cerqueira, o bloqueio da Cinemas e Teatros não durou muito. Terminou alguns meses depois, coincidindo com o surgimento de várias distribuidoras independentes e o início da migração dos cinemas para os shoppings, quando, aí, outras empresas exibidoras entraram em Belo Horizonte.

Como ex-empresária do setor de exibição, mas uma eterna apaixonada pelo cinema, ela afirma que o chamado “cinema de arte” deve buscar meios próprios – e auto-sustentáveis – para ter seus espaços de exibição. Isso é importante porque, para ela, o circuito comercial não irá mudar sua lógica, privilegiando os “blockbusters”, em detrimento de outros gêneros de filmes. Ela afirma que o circuito alternativo é, em número de assentos, “uma gota no oceano”, mas, nem por isso, deve ser desconsiderado. No entender de Mônica Cerqueira, trata-se de um instrumento importante para a formação de público, já que o circuito comercial não tem essa preocupação. “Não acho que exista uma parede entre o cinema comercial e o cinema de arte. Tem gente que nunca viu um filme de arte, mas se visse, talvez fosse tocada por outro tipo de filme. Talvez, com isso, se habituasse a procurar mais a diversidade”.

Assim, comparando-se a situação de hoje com a de 1977, os números mostram que na era dos cinemas de Antônio Luciano, a diversidade era maior. Porém, durante o tempo em que, a ferro e fogo, ele tentava controlar o mercado exibidor de Belo Horizonte, Antônio Luciano era um personagem muito criticado, justamente por tentar restringir a concorrência. O que ninguém imaginava é que um dia haveria, como hoje, quem sentisse saudades dos tempos dos “cinemas do Luciano”, como na época se dizia.

*Marcelo Freitas é redador-chefe do Bhaz

Comentários

Marcelo

Marcelo

Marcelo Freitas é redador-chefe do Bhaz