Home Colunas [Panorama Mundial] Os 100 anos da Revolução que abalou o mundo

[Panorama Mundial] Os 100 anos da Revolução que abalou o mundo

“Os estrangeiros, os norte –americanos em  particular, insistem frequentemente em falar na ignorância dos trabalhadores russos. É exato que eles não possuíam a experiência política dos povos ocidentais, mas também é fato que eles estavam perfeitamente preparados, no que concerne à organização das massas. Em 1917, as cooperativas de consumo contavam mais de doze milhões de adeptos […] O próprio sistema dos sovietes é um admirável exemplo de seu gênio organizador. […] não há, provavelmente outro povo, neste mundo, tão familiarizado com a teoria do socialismo e com a sua aplicação prática.” (John Reed, 10 dias que abalaram o mundo, prefácio,  1919)

A Revolução Russa de 1917 sempre foi tratada como um tabu, já que existe normalmente uma mescla fatal de preconceito e desconhecimento na sua compreensão. Seus acontecimentos espetaculares são quase sempre analisados superficialmente, como se fosse um movimento qualquer (no meu livro do ensino fundamental, esse movimento ocupava apenas 4 páginas). A realidade, contudo, não é tão simples, uma vez que, sem medo de errar, a Revolução Russa foi um dos movimentos mais importantes (talvez o mais importante) da história da humanidade. Para criticá-la ou para adorá-la, necessitamos minimamente compreender suas aspirações, seu desenvolvimento e, obviamente, seus resultados. A fim de se aprofundar nessa questão, a obra de John Reed, 10 dias que abalaram o mundo, é a “chave-mestra” para tal entendimento.

Antecedentes

Embora a Rússia estivesse imersa numa profunda instabilidade política e socioeconômica, esse país participou da Primeira Guerra Mundial, o que aprofundou ainda mais sua crise. Em 1915, por exemplo, durante esse conflito, era comum a falta de armas e de alimentos nas frentes de batalha russas. Além disso, constantes paralisações da produção e dos transportes impulsionavam ainda mais os problemas e aumentava o descontentamento da população com o regime czarista.

Exército Russo durante a Primeira Guerra Mundial (Reprodução: bolshevik.info)

Por meio de um grande movimento revolucionário em março de 1917, 160 milhões de pessoas se libertaram do regime do Czar Nicolau II. A economia melhorou e a força combativa do exército aumentou; porém, a “Lua de Mel” da população com o movimento durou pouco. Os socialistas moderados (maioria do movimento) tomaram o poder na Revolução de Março, mas não o exercem efetivamente, pois insistiam na participação das classes possuidoras no governo. Entretanto, enquanto os socialistas moderados necessitavam da burguesia para governar, a burguesia não necessitava dos socialistas moderados para tal tarefa. Consequentemente, ainda que formalmente os socialistas governassem a Rússia, a queda do czarismo passou o poder efetivamente para as mãos burguesas, as quais desejavam somente uma Revolução Constitucionalista nos moldes da França e dos EUA.  Interessante notar que esse “etapismo” (Revolução Burguesa e, posteriormente, Revolução Socialista) era tido como necessária pelo próprio Karl Marx. Mas a realidade e as oportunidades que ela oferece nem sempre podem ser traduzidas teoricamente.

Desse modo, em decorrência das pressões das classes dominantes, o governo de Kerenski deixou de lado quase a totalidade do seu programa revolucionário.

Pão, Terra e Paz

Pão – comida para todos; Terra – Reforma agrária; Paz – saída da Primeira Guerra Mundial. As teses de Abril de Vladimir Lenin soavam como uma bela canção utópica em meio a tamanha devastação política e socioeconômica na Rússia. Nessas teses, Lenin demonstrava que o proletariado não conseguiu tomar o poder na Revolução de Março porque não estava suficientemente organizado, enquanto a burguesia estava consciente e preparada. Somado a isso, ele explicitava o caráter burguês do governo provisório socialista; os bolcheviques, a partir disso, não deveriam apoiar o governo provisório, visto que o povo teria o direito de dirigir a revolução com as próprias mãos.

De acordo com Reed, Lenin tinha “o dom poderoso de expor as ideias mais complexas com as palavras mais simples, e de fazer uma análise profunda de uma situação concreta, aliando a agilidade e a penetração à elevação do pensamento. Todas essas qualidades repousavam nas ligações estreitas que o grande Lenin mantinha com as massas populares, nas quais ele via os criadores da história, as forças criadoras em que depositava uma confiança ilimitada” (Reed, 1919, prefácio).

Discurso de Lênin para o proletariado revolucionário (Reprodução: memoria-mundi,fr)

Enquanto isso, outros líderes do partido, como Leon Trótski, não acreditavam na possibilidade de sucesso da Revolução na Rússia somente, já que acreditava que o movimento seria esmagado pelas potências ocidentais. A provável falta de apoio do campesinato ao proletário revolucionário seria outro empecilho ao sucesso desse movimento. Portanto, percebe-se que Lenin tomou quase que sozinho as rédeas do movimento, apoiando-se na força das massas das classes subalternas. Ideologicamente, o movimento já tinha o seu norte; faltavam, entretanto, as condições materiais para a sua efetivação, o que não demorou muito.

“Nós, Marxistas, dizemos que os trabalhadores devem abrir os olhos das pessoas para os métodos enganosos praticados pelos políticos burgueses, ensiná-las a não acreditar apenas em promessas, a depender inteiramente da sua própria força, da sua própria organização, da sua própria unidade, e dos seus próprios armamentos” (Vladimir Lenin) (Reprodução: wsws.org/1917)

À medida que os problemas se aprofundavam, os soldados e as massas proletárias e campesinas se tornavam mais radicais, tomando atitudes desesperadas, já que o governo de Kerenski não resolvia os problemas mais urgentes. Ao mesmo tempo, as campanhas difamatórias da imprensa burguesa aumentavam, pois se percebia a tendência da população em apoiar as pautas revolucionárias bolcheviques. Foi nesse contexto caótico que, a partir da participação decisiva de Lenin, o Partido Bolchevique iniciou o processo revolucionário.

A Guerra Civil

O assalto ao Palácio de Inverno, Novembro de 1917 (Reprodução: The NYtimes)

De um lado o Comitê Militar Revolucionário (bolcheviques, massa operária, parte do campesinato e soldados); do outro o Comitê para a Salvação do País e da Revolução (burguesia, quase todos os partidos socialistas, oficiais, classe média, alguns sindicatos, com apoio das potências ocidentais). Essa luta se reproduziu por todo o país, a partir do levante do soviete da cidade de Petrogrado (capital russa nesse período), de acordo com John Reed:

“Imagine-se a mesma luta em todos os quartéis da cidade, em todos os distritos, em toda a frente, na Rússia inteira. Imagine-se, em todos os quartéis, os Krilenkos, caindo de cansaço, correndo de um lugar para outro, discutindo, ameaçando, suplicando.  Imagine-se, finalmente,  as  mesmas cenas em todos os sindicatos, nas fábricas, nas aldeias, em todos os navios da esquadra espalhados pelos mais longínquos mares. Imagine-se, em todo o país, centenas de milhares de russos, de operários, camponeses, marinheiros, com os olhos cravados nos oradores, esforçando-se intensamente para compreender e em seguida resolver, pensando com todas as suas forças […] para, afinal, com a mesma unanimidade, tomarem idêntica decisão. Eis o que foi a Revolução Russa” (Reed, 1919, p. 149).

Revolução Russa se espalha pelo território ucraniano (Reprodução: robertgraham.wordpress.com)

Ainda de acordo com esse autor, enquanto as lutas se intensificavam pelo país, a consciência de classe do exército subalterno impressionava:

“Vocês, estrangeiros, desprezam-nos porque suportamos durante muito tempo uma monarquia medieval. Mas hoje já se sabe que o czar não era o único tirano do mundo… Hoje, já se sabe que o capitalismo europeu  é também uma tirania talvez pior que o czarismo, porque em todos os países do mundo o capitalismo é imperador! A tática da Revolução Russa mostra ao mundo inteiro o caminho, o verdadeiro caminho da libertação” (Reed, 1919, p. 216).

Nesse conflito entre Davi e Golias, os bolcheviques e as massas vencem o conflito militar de maneira impressionante, contrariando todas as perspectivas. Porém, a revolução só estava começando…

A luta em outras frentes

Os desafios dos bolcheviques eram imensos, uma vez que os derrotados na guerra civil russa eram os senhores da vida econômica do país. Os vencedores não conseguiam nem mesmo encontrar mão de obra qualificada para a realização dos serviços públicos essenciais, em decorrência dos diversos boicotes realizados. Um exemplo espetacular ocorreu quando Trotski tomou posse no Ministério das Relações Exteriores. Os funcionários desse órgão não o reconheceram como ministro e fecharam as portas da sede, tendo sido necessário o arrombamento do prédio. Além disso, o Ministro das Relações Exteriores do governo provisório levou consigo todos os tratados secretos firmados pela Rússia, o que provocou a ira dos revolucionários. Posteriormente, ao recuperar esses tratados, Trotski os publica na íntegra, o que provocou um escândalo mundial por causa do teor desses acordos. Além disso, o desaparecimento de enormes quantidades de dinheiro dos bancos públicos e depósitos clandestinos de comida foram outras maneiras encontradas pela burguesia para provocar o descrédito da revolução.

A classe proletária puxava o carro revolucionário de maneira implacável; sem o apoio do campesinato, contudo, a revolução estava fadada ao fracasso, já que mais de 80% da população do país se encontrava no campo. Os camponeses não compartilhavam o mesmo ardor revolucionário do proletariado russo, sendo muitas vezes mais conservadores que a própria classe dominante, já que, por exemplo, eram contrários ao fechamento de jornais burgueses e queriam um governo de coalizão com todos os outros partidos socialistas. Somado a isso, os bolcheviques não eram influentes no campo, sendo o Partido Socialista Revolucionário aquele que realmente determinava os rumos dessa parcela da população.

Durante o Congresso Camponês, o qual decidiria os rumos que essa parcela da população tomaria face à revolução, Lênin novamente foi fundamental:

Companheiros! Desejo que os camponeses aqui representados respondam com a maior franqueza a uma pergunta: depois de já termos confiscado as terras dos senhores, depois de já termos dividido as terras entre os camponeses, serão agora capazes de impedir que o proletariado industrial tome conta das fábricas? A guerra atual é uma guerra entre classes. Os camponeses lutam contra os proprietários das terras e os operários contra os capitalistas industriais. Os camponeses desejam, porventura, dividir as forças do proletariado? Que posição este congresso, onde estão representados os camponeses de toda a Rússia, irá tomar em face dessa situação? O Partido Bolchevique é o partido do proletariado. É o partido do proletariado rural e do proletariado industrial (Reed, 1919, p. 246).

Após várias discussões, o Congresso dos Camponeses se une ao Soviete dos Deputados Operários e Soldados, formando finalmente o governo revolucionário russo. O delegado do Partido Operário dos EUA, Boris Reinstein, buscou exprimir em palavras o sentimento sublime que sentia:

O dia em que o Congresso dos Camponeses se une ao Soviete dos Deputados Operários e Soldados, é um dos maiores dias da revolução. Em Paris, em Londres, no mundo inteiro e além do oceano, em Nova York, estes acontecimentos irão ecoar profundamente. A união que se acaba de celebrar vai encher de alegria o coração de todos os oprimidos. Uma grande ideia venceu (Reinstein apud  Reed, 1919, p. 254)

Celebrações durante a Revolução (Reprodução: Dailymail)

Nacionalização dos bancos e dos meios de produção, reforma agrária profunda, reorganização democrática do Exército, direitos iguais a todos os povos (fim de privilégios por nacionalidade e religião), emancipação feminina… Essas são algumas medidas que transformaram a Rússia e posteriormente a União Soviética num dos países mais importantes do mundo no século XX. Embora inúmeras críticas ao novo regime sejam notórias, principalmente durante o período stalinista, elas não podem destruir o legado da revolução para a humanidade, na medida em que a Revolução Russa foi a primeira pela qual a classe subalterna tomou o poder político e destruiu a herança burguesa da sociedade. Por séculos o capitalismo foi a única alternativa considerada viável para a humanidade; a implantação do socialismo na Rússia, porém, colocou e ainda coloca um grande desafio a esse sistema, mesmo após a implosão da URSS. Nada melhor do que finalizar este artigo com as próprias palavras de 10 dias que abalaram o mundo:

Creio que nunca houve na história coisa alguma que se possa comparar aos acontecimentos dessa revolução. De um lado, um punhado de operários e soldados, de armas na mão, representando a insurreição vitoriosa, sereno, mas com aspecto miserável; do outro, uma multidão furiosa, formada pela mesma espécie de indivíduos que se aglomeravam ao meio-dia nas esquinas da Fifth Avenue, de Nova York, rindo,  injuriando,  vociferando:  — Traidores! Provocadores! (Reed, 1919, p. 140).

 

Felipe Costa Lima é formado em Direito pela UFMG; Especialista em Política Internacional pela Faculdade Damásio de Jesus; Mestre em Relações Internacionais pela PUC-Minas; e Mestrando em Direito Internacional pela Universidade de Estrasburgo (França). Latino-americano de alma, talvez consiga quebrar visões eurocêntricas sobre os acontecimentos mundiais. Talvez…

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