Home Colunas A Autêntica Artista ativista, Negociante voraz

Artista ativista, Negociante voraz

Meus posts recentes sobre a relação entre artistas e produtores de eventos suscitaram algumas interessantes discussões abertas nas redes, mas geraram também algumas conversas ainda mais interessantes em mensagens inbox, e até em bate-papos presenciais aqui na Autêntica. A atual baixa nos incentivos públicos à cultura obrigou os agentes do meio musical a encararem a realidade nua e crua do mercado. Se, por um lado, essa escassez de recursos inviabiliza uma série de iniciativas importantes, por outro, ela expõe certos vícios e distorções nas relações dos artistas e produtores com suas próprias carreiras. Distorções essas que contrariam a própria intenção de “incentivo” dos mecanismos estatais, tornando-os muletas, e desestimulando iniciativas não-apoiadas, enfraquecendo assim o próprio mercado que supostamente visam aquecer. Começo essa reflexão narrando algumas situações reais que me foram contadas por profissionais atuantes no meio.

1- Um artista é convidado para participar de um festival com recursos de lei de incentivo. Cachê cheio, 15 mil Reais, despesas todas pagas. Meses depois, produtores, os mesmos do festival, entram em contato com o artista para realizar um show, sem recursos de lei de incentivo, em um espaço fechado, com cobrança de ingressos. A proposta: garantia dos custos de transporte, alimentação e hospedagem, mais 80% da bilheteria excedente. Proposta recusada com direito a respostinha malcriada de email dizendo que o valor de 15 mil era inegociável, pois se o show seria o mesmo do festival, o cachê também seria o mesmo.

2- Um artista é contratado para um show, sem lei de incentivo. Depois do evento anunciado, os produtores são surpreendidos com uma lista de exigências, incluindo quartos individuais no hotel (eram 5 pessoas, então de duas diárias, uma dupla e uma tripla, passou pra 5 diárias), uma série de acréscimos aos equipamentos de som e luz disponibilizados pelo evento, e aluguel de instrumentos específicos. Os custos do evento chegaram ao ponto de prejuízo certo para a produtora, mesmo que esgotassem os ingressos. Deu meia lotação, com o requinte de crueldade de os equipamentos alugados, exigidos pelo artista, não terem sequer sido utilizados.

3- Um artista faz um evento na cidade, no esquema custos garantidos mais porcentagem de bilheteria. Casa cheia, todo mundo feliz. Meses depois os produtores sondam o artista para um festival na rua, com verba de lei de incentivo. O valor cobrado de cachê é pouco acima do que o artista tinha levado na divisão de bilheteria do evento anterior, e ele aproveita pra já fechar um outro evento posterior, nas mesmas condições de antes.

É óbvio que das três situações descritas, é o artista 3 o que tem plena consciência do seu real tamanho. Ele está cultivando uma relação de parceria com os produtores, onde ambas as partes se beneficiam. Ele aproveita a garantia proporcionada pelo evento apoiado pela lei de incentivo para ampliar seu público, estabelecer uma regularidade de apresentações naquela cidade, e alavancar sua carreira. Mas entende que o cachê fixo de lei de incentivo é uma situação de exceção.

O artista da situação 1 é o oposto. Ele pega um cachê artificial, que só é possível com recursos de lei de incentivo, e usa isso como base pra estabelecer o seu preço. O que me incomoda muito nesse tipo de artista é que geralmente eles só produzem quando apoiados por verba pública. E normalmente se escondem atrás de um discurso de vitimização que, em um país onde de fato há uma desvalorização sistemática da cultura, encontra certa ressonância. A culpa de fazer poucos shows é atribuída a terceiros, a contratantes que não querem pagar cachês, pois supostamente vêem nos artistas uma oportunidade de exploração.

O da situação 2, é um caso que eu atribuo a um ranço de um modelo antigo, quando muita grana rolava, e os caprichos de diva de certos artistas eram atendidos, e até incentivados. Fazia parte do mise-en-scéne, contribuía para o distanciamento místico entre os artistas e o público. Quem nunca ouviu as histórias de exigências de camarim de grandes artistas internacionais? As famosas mil toalhas brancas. Claro que as exigências específicas desse caso 2 são até modestas, comparadas aos chiliques nababescos de Axl Rose e cia, mas a total falta de consciência do tamanho do evento, e desconsideração absoluta com o lado do contratante, demonstram uma certa postura com relação ao meio. É uma visão de tentar espremer o máximo possível do contratante, e foda-se se este tiver prejuízo. O que me impressiona é que os casos recentes que ouvi de atitudes desse tipo, vieram justamente de artistas especialmente ativistas em seus discursos e suas obras. Sinceramente, não vejo vantagem em fechar uma porta só pra botar uma banca de pop star. Fazer exigências não é demonstração de profissionalismo. É comum atribuírem esse tipo de conduta, não ao artista, mas ao seu empresário, ou produtor. Mas, cá pra nós, se o artista chama um escroto para representá-lo isso se reflete nele também.

As leis de incentivo à cultura têm muitos problemas, alguns seríssimos, que envolvem mal uso de verbas, superfaturamento de serviços, notas frias, e outras falcatruas. Esses são casos de polícia, e ministério público. Mas os problemas que mais me preocupam são os que dizem respeito à atuação de produtores e artistas, até honestos e bem intencionados, mas que, a meu ver, não compreendem o real propósito desses mecanismos. Mudanças na lei se fazem necessárias para coibir certas posturas, como por exemplo a estipulação de tetos realistas para cachês e outros serviços, a exigência de comprovação por parte de artistas e produtores, de uma agenda minimamente ativa, fora dos eventos patrocinados, e várias outras. É preciso incentivar quem faz, e coibir quem só faz quando tem projeto de lei. Mas, independente disso, já percebo uma mudança de postura por parte dos produtores de festivais e eventos. Normalmente esse produtores são os mesmos que ao longo do ano promovem shows sem incentivo, e que têm em seus festivais a cereja do bolo. Alguns comentaram que já incluem nos critérios de curadoria a postura do artista em contatos para eventos não patrocinados. Eu acho isso muito positivo. Acho que cada vez mais serão restritos os espaços para os artistas tipo 1 e 2, e cada vez mais para os tipo 3. Quem está junto no dia-a-dia é que deve ser lembrado na hora do cachezão de lei de incentivo. Se quer comer o filé, tem que ajudar a roer o osso também.

Comentários

Carregar mais em A Autêntica