Escadaria que dá acesso a um dos hotéis de sexo

Por Jefferson Lorentz

Sobe-se um, dois, três lances de escada e, quando você vê, está em um labirinto de corredores e quartos. No local,  um cheiro característico pode ser sentido. É uma mistura de aromas, como o da fumaça dos incensos que saem de alguns quartos com portas entreabertas; dos cigarros acesos no local e do perfume de lavanda e eucalipto utilizado na limpeza dos corredores. Uma experiência sensorial que vai além dos cheiros, passando também pelas imagens, e, por que não dizer, cinematográficas, percebidas pelos olhares mais atentos.

Na música, predominam o funk e o sertanejo. A trilha sonora que vaza de alguns quartos  também ajuda a compor a atmosfera das mais de duas dezenas de hotéis destinados ao comércio do sexo situados na zona boêmia de Belo Horizonte. A área tem como eixo principal a rua Guaicurus, nas proximidades da rodoviária, mas é composta, também, pela avenida Santos Dumont, por parte das ruas São Paulo, Curitiba e Caetés, e pela rua 21 de Abril, localizada próximo ao shopping Oiapoque.

Do interior dos quartos, surgem mulheres que, nuas ou seminuas, exibem-se  sob uma luz colorida, ora vermelha, ora de muitas cores, transformando o local numa micro boate. Nesse ambiente de sedução, vale tudo. Usando uma micro calcinha, uma mulher exibe o número 69 onde guarda seu sexo, atraindo a atenção de alguns homens que param em frente à sua porta. A poucos metros dali, uma outra  mulher exibe, voluptuosamente, em direção à porta, que está entreaberta, seus 106 centímetros de quadris para uma plateia de homens sedentos de sexo.

O rosto, ela o mantém escondido atrás de uma máscara da Batgirl. Tantas outras mulheres, sem se preocupar em seduzir os homens, passam horas ao celular acessando as redes sociais, por onde chegam as notícias do mundo que está por trás das janelas agora fechadas. Algumas assistem vídeos no YouTube ou filmes no Netflix. Alguns quartos têm TV, onde um filme pornô, no melhor estilo clichê, reforça a imaginação dos visitantes.


Vamos fazer um gostosinho

Escrito no lenço pregado na porta: Márcia, paulista e meiga

Para facilitar a identificação, muitas mulheres colocam na porta do quarto uma toalhinha bordada. Nela se lê o codinome da mulher e a cidade de onde vem. O Brasil está ali representado. Tem baianas, paulistas, paraenses, goianas, cariocas, gaúchas, amazonenses. Outras, menos preocupadas em se apresentar, escrevem com giz nas portas ou apenas usam uma identificação feita no computador.  Pelos corredores, não é raro encontrar visitantes que colam o ouvido na porta para tentar escutar os gemidos vindos dos quartos. Na negociação do serviço, tocar o corpo delas até pode, mas calma lá, afirmam algumas.

Tão famosa quanto a tradicional família mineira ou o pão de queijo ou a Igreja da Pampulha, a rua Guaicurus também é um símbolo de Belo Horizonte. A capital do mineiros, tão famosa pela quantidade de bares, ganha fama também pelo número de hotéis destinados à prostituição no velho estilo sobe e desce ou entra e sai, como preferir o cliente. O local, que atravessa décadas, continua em forma, atraindo pessoas do país inteiro interessadas em disputar o rendoso mercado do sexo. Na rodoviária, as prestadoras de serviço chegam a todo instante. Malas e malas são acomodadas nos cantos do quartos. Quem ali trabalha, busca renda que possa garantir moradia, alimentação, criação dos filhos ou a realização de sonhos, como ter uma casa, ou um carro.

Normalmente, as mulheres que aportam na Guaicurus não trazem muitos pertences. Nem mantêm uma relação de maior envolvimento com a cidade. Muitas não conhecem nada além do trajeto entre a rodoviária e o hotel. “Eu estou aqui há uns oito anos. Além da rodoviária e do hotel, só conheço um banco aqui perto e o mercado onde faço minhas compras”, conta a alagoana S., que dorme no próprio local onde trabalha.

Os milhares de clientes que passam para dar um “rolê” pelos corredores dos hotéis da região da Guaicurus são de vários tipos. Há os que trabalham pelo centro ou que estão apenas de passagem pela região. Muitos querem só observar as mulheres; outros querem, como dizem por lá, “quebrar a rotina”. “Aqui dá de tudo. Do cara todo arrumadinho ao todo bagunçado; tem playboy e também peão; ‘ZN’ e Zona Sul, todos se encontram aqui. Muitos gostam de ficar rodando de porta em porta. São os conhecidos piolhos de zona”, conta C., paulista do interior, que atende no local desde 2006.


A história


A história da ocupação da região da Guaicurus remonta ao início do século 20, quando da fundação de Belo Horizonte. Mas, em seus mais de cem anos de existência, a rua ganhou destaque também graças a personagens famosos, como Hilda Furacão e suas amigas, a travesti Cintura Fina e a Maria Tomba Homem, retratadas nas páginas do livro de Roberto Drummond, em uma mistura de ficção e realidade. O local ainda serviu de cenário para produções de TV, filmes e peças de teatro.

Na atualidade, a região serve de palco para duas lutas: a primeira é pelo enfrentamento da violência contra a mulher; a segunda é garantia da livre expressão da sexualidade. No passado, a Guaicurus foi o destino de estrelas como Roberto Carlos, que fez no Hotel Montanhês, na década de 60, sua primeira apresentação em Belo Horizonte, como conta o assessor jurídico da ONG Amigos da Rua Guaicurus (AARG), o advogado  Orlando Januário dos Santos. No passado, era no Montanhês que o ex-presidente Juscelino Kubitschek, conhecido por ser um exímio pé-de-valsa, gostava de dançar.


Sexo barato

Corredores escuros e cheiro característico

Hoje, já sem o glamour do passado, o endereço  é sinônimo de sexo barato.  Os valores variam de acordo com o hotel. Mas é possível dar uma “aliviada”, como falam os frequentadores, por apenas R$ 10, que incluem três posições e uma “chupadinha”. Tudo em apenas 15 minutos, tempo mais que suficiente para uma “rapidinha”, afirmam elas.

No Brilhante e no Pérola Negra, segundo apurado com frequentadores e trabalhadores da região, estariam as mulheres mais bonitas e jovens, que também cobram o programa mais caro: R$ 40 pelos mesmos 15 minutos. Na outra ponta, estão hotéis com mulheres mais experientes, como o Magnífico e o Novo América, que cobram valores menores para o cliente apenas começar a brincadeira.

Este é o caso, por exemplo, de L. A., de 60 anos, que falou com o Bhaz após atender, ao mesmo tempo, um rapaz de 23 anos e um senhor de 58 anos. O programa inicial dela por 15 minutos sai a R$ 15. Mas, no dia em que a reportagem esteve no local, ela ganhou R$ 100 por apenas 20 minutos. “O cara queria ver o novinho em ação. Então, fomos lá”, conta L. A., aos risos.

Na Guaicurus e adjacências, o dia começa às 8h, quando os hotéis abrem suas portas e tem início o sobe-e-desce, que ficou famoso no livro “Hilda Furação” de Roberto Drummond. Logo pela manhã, o local recebe pessoas que estão deixando o trabalho ou indo para o emprego, como relata a paraibana Soraia, que se prostitui há sete anos no Novo América. “Tem gente que bate ponto cedo aqui. É normal, pela manhã, receber um cliente que só quer uma rapidinha. Muitas vezes a ‘patroa’ negou fogo e ele acaba passando aqui antes do trabalho, para desestressar”.

Também é pela manhã que, muitas mulheres aproveitam para desestressar de uma noite de trabalho, dando uma passada pelos bares e comércios da região. Na esquina da rua São Paulo com rua Guaicurus, M., de 63 anos é referência em boa refeição há 25 anos. Ela trabalhou como prostituta, no hotel Miragem, até os 35 anos, quando trocou a prostituição pelo comércio. Acostumada ao dia-a-dia da Guaicurus e seus personagens, ela afirma que nada mais a surpreende. “Meu amigo, aqui depois que fecha os hotéis, é cada entidade que aparece, que só Deus para nos defender”, conta ela.

Veja as outras partes do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH:

Parte 2 – Fantasias e fetiches

Parte  3 – O sobe e desce de travestis e homens

Parte 4 – Um mercado também em crise

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

Parte 6 – New Sagitarius, ícone de uma época

 

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Jefferson Lorentz

Jefferson Lorentz

Jeff Lorentz é jornalista e trabalhou como repórter de pautas especiais para o portal Bhaz.