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[Bhaz em série] Fantasias e fetiches – Sexo em BH, parte 2

Experiência em prazeres ocultos

Por Jefferson Lorentz

Com valores para programas bem abaixo dos que são divulgados em sites ou praticados em boates da cidade, os hotéis da região da Guaicurus são o destino certo dos que querem praticar ou mesmo descobrir algo além do sexo trivial, feito entre quatro paredes. Na Guiacurus, os clientes costumam ir além do que fazem em uma transa convencional, no melhor estilo papai e mamãe, optando por momentos de prazer que incluem dominação, inversão de papeis, e muito mais. Tudo a preços módicos.

A carioca M. começou aos 22 anos, na Vila Mimosa, reduto famoso da prostituição no Rio de Janeiro. Hoje, aos 50 anos, atende na Guaicurus. Além de descrever práticas sexuais que dariam nojo aos mais conservadores, ela dispara: “Não posso deixar de falar que muitos, algo em torno de 90% dos meus clientes, curtem ser passivos e pedem que usem neles os maiores consolos que tiver”. Para quem não sabe, “consolo” é uma réplica do órgão sexual masculino, geralmente feita de material emborrachado.

No quarto de M., os consolos ficam expostos sobre uma mesinha, ao pé da cama. Ao lado, uma colega dela conta que, certa vez, um cliente que estava acima de qualquer “suspeita” foi entrando no quarto e, sem a menor cerimônia, abriu a mochila, e, de lá, tirou uma cenoura pedindo que fosse, com ela, penetrado. Com sotaque carregado do interior de São Paulo, K. Paulistinha afirma que já se acostumou com este tipo de pedido. “Tem um cliente que vem aqui que é um homem bonito. Ele tem dinheiro, mas aqui se torna uma boneca”, diz.


Vidas em segredo

Ainda que tenham vindo “ganhar a vida” por aqui, as mulheres da Guiacurus nem sempre cortam os laços com a cidade de origem. De quatro em quatro meses, a catarinense S. faz questão de retornar à cidade onde nasceu, permanecendo lá por iguais quatro meses. “Eu fico quatro meses aqui e quatro meses lá. Nesse vai e vem, eu construí minha casa e criei minhas filhas”. S. está há 30 anos em Belo Horizonte, atendendo sempre no mesmo local, o Hotel Lírio, que fica na rua São Paulo. Hoje, ela já se aposentou pelo INSS, mas, mesmo assim, mantém-se na ativa e diz que, quando pensa no número de homens que já atendeu, perde a conta. Aos familiares, afirma apenas que trabalha como camareira.

Quem também faz segredo da atividade que exerce é a paulistana D.. Antes de tornar-se garota de programa, ela trabalhava no setor administrativo de uma empresa, onde ganhava R$ 4 mil por mês. Depois que sua mãe teve problemas de saúde, acabou optando por ser prostituta. “Minha família não sabe. Minha mãe acha que estou com homem casado aqui em Minas”, afirma D., dando a entender que a prostituição não é algo bem resolvido para ela. “O que é pior: ser puta ou amante de homem casado?”, indaga ela.

D. atende no hotel Concord e parece não estar muito satisfeita com sua condição de prostituta, nem com os valores pagos pelo programa na região da Guaicurus. “Eu nunca vi local barato assim. Eu fico puta. Às vezes o cara quer o completo, mas quer me pagar só 50 pratas”, diz ela, revoltada. O último caso de sucesso dela foi com um cliente que a chamou para um “rolê”. Ele a pegou no hotel e saíram para beber. Depois, foram para o quarto e, mesmo o cliente não tendo chegado ao “finalmente”, D. recebeu R$ 450 pelo programa. “Eu tenho horror de atender aqui. Eu sou de casa de massagem lá em São Paulo. Por cliente, ganho R$ 300 ou mais. Mas aqui é essa merreca”, desabafa ela.

Na Guaicurus, o dia começa às 8h, quando os hotéis abrem suas portas e tem início o sobe-e-desce. (Reprodução/StreetView)

As “novinhas”

Entre as prostitutas da Guaicurus existem as especializadas. Há as “novinhas”, que preferem atender os jovens. Mas há também as que têm preferência pelos clientes de mais idade. As mais jovens, caso não façam muita exigência na hora de escolher os clientes, nem fechem a porta do quarto, chegam a ter de 50 a 60 clientes por dia, como afirma V., que também trabalha na Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aspromig). A entidade funciona, de forma improvisada, nos fundos de um estacionamento localizado próximo ao Hotel Brilhante.

Porém, segundo ela, o simples fato de ser jovem não é condição absoluta para se ter uma boa clientela. “Muitas vezes, elas não deixam o cara gozar, xingam, gritam e nem tocam no corpo do cliente. Nessa condição, segundo V., as novinhas passam a depender dos “homens de corredor”, como são conhecidos os frequentadores dos hotéis da região que ficam na porta dos quartos apenas observando as mulheres. “Aqui vem muito homem folgado. Eles querem fazer tudo completo (o que inclui sexo anal) por apenas R$ 40. Eu não tenho paciência com esses folgados, secadores de “b.” ou punheteiros do corredor”, desabafa a paranaense C., de 25 anos.

Sejam quais forem os problemas, ou o gosto dos clientes, o fato é que as garotas da Guaicurus desenvolveram seus códigos e suas estratégias de defesa. Nesse ponto, elas se entendem e passam, umas às outras, as dicas e as estratégias de sobrevivência. “Não adianta você levantar um dia e querer ser puta. Nem toda mulher aguenta. É uma loucura. Tem todo um jeito. Há técnicas para seduzir,  conta A., que faz programa na Guaicurus desde os anos de 1980.

A opção pelos mais idosos

No oposto à velocidade com que as “novinhas” atendem os clientes, estão as prostitutas de mais idade, que, embora não tendo a exuberância das que estão começando agora, também têm seus dotes. “A mulher mais velha sabe seduzir; é mais paciente e já tem seus clientes fixos. Muitas sabem da história de vida do cara, do casamento, dos filhos. Eles chegam dizendo que dona patroa os colocou para dormir no sofá. Muitas vezes querem papear e cafuné. Vira amizade”, explica a capixaba D., que está na faixa dos quase 60 anos.

A Guaicurus serve de palco para duas lutas: a primeira é pelo enfrentamento da violência contra a mulher; a segunda é garantia da livre expressão da sexualidade (Reprodução/StreetView)

Foi nesse aprendizado diário, que algumas, como a capixaba M., escolheram atender um público especial: os homens com mais de 65, 70 anos, chegando até os de 85 anos. “Eu sou especializada em nos meus velhinhos”, conta. Ela diz que optou pelos de mais idade por uma única razão: quando começou a trabalhar na Guaicurus, em 1979, estava achando os jovens “muito abusados”. Afirma ainda que alguns jovens até a procuram, mas que os descarta. “Me dá um desânimo. Prefiro os idosos. Eles são uma graça. Tomam suas azulzinhas – como são conhecidos popularmente os medicamentos utilizados no tratamento da disfunção erétil -, que podem ser compradas, despistadamente, pelos corredores ou até mesmo nos arredores dos hotéis.

De tempos em tempos, M. vai à sua terra natal, onde passa uma temporada. Para não perder a clientela para outras mulheres, ela tem até estratégia. Quando retorna, manda uma mensagem, por torpedo ou WhatsApp, avisando a cada um deles que está de volta. “No outro dia, eles fazem fila aqui esperando para serem atendidos. Rola até ciúmes”, diz ela, sorrindo. Na porta do quarto, ela ainda deixa o número visível para que os clientes fixos saibam que ela está na cidade.

Instalada em um dos maiores hotéis da região, M. faz do pequeno quarto uma microcasa. Nele, tem área de cozinha; outra, destinada à lavagem de roupa, além do espaço para atender os clientes e dormir. Sobre um criado mudo, ela mantém um caderno onde anota todos os programas e os respectivos valores recebidos. “Eu já estou numa idade avançada. Espero em breve me tornar empresária lá na minha terra. Então, economizo o máximo que posso, trabalho o máximo que dou conta, pois quero parar”, afirma M..

A capixaba M. anota em um caderno ao lado da cama todo o dinheiro que entra com o sonho de um dia se tornar empresária em sua cidade natal no Espírito Santo.

Veja as outras partes do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH:

Parte 1 – Mistérios da Guaicurus 

Parte  3 – O sobe e desce de travestis e homens

Parte 4 – Um mercado também em crise

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

Parte 6 – New Sagitarius, ícone de uma época