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[Bhaz em série] O sobe e desce de travestis e homens – Sexo em BH, parte 3

Por Jefferson Lorentz

Muita gente acha que na região da Guaicurus a prostituição é apenas de mulheres. Mas não é. Há também estabelecimentos destinados a travestis e transexuais, que funcionam na avenida Santos Dumont e na rua Curitiba. São quatro os hotéis: Diamante, Monalisa, Rubi e Olho de Tigre. Este último é conhecido pelos frequentadores e trabalhadoras como a “caverna do dragão”, talvez pela luz escura utilizada no local.

Tudo começou quando um hotel localizado na avenida Santos Dumont inovou ao alugar quartos para rapazes, no mesmo estilo do que é feito com mulheres. No local, eles exibem seus corpos aos clientes que passam pelo corredor. “Eu acredito que a zona de boys tem tudo para dar certo. Por que, não? Eles trabalhavam nas ruas e agora têm um local mais seguro para atender”, diz Pandora, a proprietária do estabelecimento, que tem investido em segurança, inclusive com a colocação de câmeras, para inibir assaltos e o uso de drogas no local.

Na fachada do Hotel Pandora o banner mostra somente belas mulheres. Em seu interior, são os garotos de programa que ocupam os quartos (Jefferson Lorentz)

Na porta do hotel, um banner com lindas mulheres não mostra os garotos disponíveis no interior do prédio. “Tenho anunciado essa nova modalidade apenas em jornais em circulação na cidade. Em breve, vamos fazer um reforma na fachada e pensar numa forma de melhorar a divulgação”, diz a empresária, que paga em torno de R$ 13 mil pelo aluguel do imóvel.

Suas acomodações são simples: um colchão, ventilador no teto e um banheiro para higienização. Atualmente, são 15 quartos em funcionamento. O segundo andar está em reforma. Ao final das obras, serão 25 quartos, que poderão ser  utilizados entre 8h e quatro da madrugada. Os programas custam partir de R$ 50.

Garoto de programa aguarda clientes (Jefferson Lorentz)

Jean, 25 anos, trabalha na região do Barro Preto. Ele chegou ao hotel há cerca de uma semana. Paraense, achou muito interessante a ideia de uma zona de boys. “Eu nunca tinha visto nada igual. É uma praticidade, com este frio, passamos a ter um local mais protegido e também mais seguro, já que não precisamos ficar dentro de carro ou mesmo ir com o cliente para o local dele. Estou animado com a ideia”, diz. O colega de hotel, Lucas, de 20 anos, também acredita que a segurança é um dos pontos positivos. “Aqui tem câmera e não há risco de assalto. A gente pode fazer um bom trabalho para satisfazer o cliente”.

Os hoteis de travestis e transexuais seguem o mesmo modelo dos hotéis de mulheres. A diferença fica por conta das luzes escuras usadas no corredores e pela presença da imagem do santo católico São Jorge logo na entrada de cada um. Os hotéis das travestis, assim como o das mulheres, também não exibem identificação externa, o que leva muitos a entrar no local sem saber que são destinados a travestis. “Nós não sabíamos que era de travesti. A gente nem sabia que aqui tinha. Viemos procurar mulher e, quando vimos, entramos no hotel errado”, comentou B., de 18 anos, menor aprendiz, ao lado do colega de trabalho Carlos, da mesma idade.

Nas paredes destes hotéis, os programas de 30 minutos são anunciados a R$ 40 para ativos e R$ 50 para passivos. “O valor é para começarmos. No desenrolar do encontro, os valores mudam porque os pedidos mudam e, consequentemente, os valores aumentam”, comenta a travesti Millena. “Aqui tem todo tipo de homem: casado, novo, velho, o arrumadinho ou o esculhambado. Ele começa, às vezes por certa vergonha, falando que é ativo, mas, quando se fecha a porta, ele se revela. Aí o preço muda de acordo com o pedido”.

Além de travestis, nestes hotéis trabalham também transexuais. Entre elas está Paula, de 22 anos. “Eu comecei aqui há um tempinho. Estou aqui para juntar dinheiro para fazer minha hormonização e minha troca de sexo. Já fiz programas em outras cidades, como Curitiba, e confesso que os mineiros são os mais “pão duros”, quando comparo com os curitibanos e paulistas. Aqui o programa é o mais barato e, mesmo assim, eles pedem desconto”, comenta.


Segurança nos hotéis

Segundo o responsável pelo comando de policiamento da região, tenente Silvano Oliveira Carvalho, da 6ª Companhia da PM, existe uma grande diferença entre as ocorrências registradas nos hotéis de mulheres e nos de travestis. Segundo ele, nos primeiros, as ocorrências mais comuns são os pequenos furtos de carteiras e celulares. “Muitas vezes, o cliente fica extasiado diante das mulheres e se distrai, sendo alvo de oportunistas que estão ali para praticar pequenos furtos”, destaca.

Este tipo de crime corresponde, segundo ele, a 70% das ocorrências; outros 29% seriam pequenas apreensões de drogas utilizadas pelas trabalhadoras do sexo e 1% a agressões contra mulheres praticadas por frequentadores ou por seguranças que colocam para fora do local homens que promovem algazarra no interior dos hotéis. “Acontece de às vezes um cliente querer ir além do combinado e a mulher não aceitar. Então, a confusão se arma, mas não chega a ser nada grave”, explica.

Já nos hotéis utilizados pelas travestis, os casos mais frequentes são de extorsão. “Há pouco tempo, dentro do antigo Rubi, atual Olho de Tigre, o segurança do local, junto com uma travesti, roubou o celular do homem e ameaçou ligar para a esposa dele. Eles pediram que ele fosse ao banco retirar uma quantia. No banco, o gerente percebeu algo de estranho e acionou a PM. Fomos ao local e os autores acabaram presos. É importante destacar que isso não é uma prática de todos que ali trabalham, mas apenas de alguns mal intencionados”, comenta.

Nestes estabelecimentos, a extorsão é responsável por 60% das ocorrências; a apreensão de pequenas porções de drogas, pelos outros 40%. Para preservar a vítima, a Polícia Militar não tem especificado no Registro de Eventos de Defesa Social (Reds), o popular Boletim de Ocorrência, ou B.O, os locais onde ocorrem os crimes. Tudo para que os envolvidos, no caso a vítima, não passe por constrangimentos em casa.

À frente do policiamento na região há um ano, o tenente afirma que não há registro de homicídios dentro dos hotéis desde 2016. O último assassinato teria ocorrido em 2015, quando um cliente sufocou a garota de programa após um desentendimento.

“Temos trabalhado para levar segurança à região e ao interior dos hoteis. Há dois meses, uma operação da Prefeitura e Corpo de Bombeiros foi montada para inspecionar todos os hotéis. A situação pode ser classificada como tranquila”. Ele lembra também que os próprios envolvidos em confusões acabam resolvendo entre eles as pendências sem que seja preciso acionar a PM.

A profissão de prostituta não é regulamentada, apesar de ter sido incluída, em 2002, na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), do Ministério do Trabalho. A CBO reconhece, nomeia e codifica as ocupações existentes no mercado de trabalho brasileiro. Mas, apesar disso, o tenente explica que o não pagamento do programa não corresponde a um crime. “Como não há relação de consumo, não há crime. Se a PM for acionada, os envolvidos são encaminhados a delegacia como vias de fato”.

Veja as outras partes do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH:

Parte 1 – Mistérios da Guaicurus 

Parte 2 – Fantasias e fetiches

Parte 4 – Um mercado também em crise

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

Parte 6 – New Sagitarius, ícone de uma época