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[Bhaz em série] Um mercado também em crise – Sexo em BH, parte 4

Por Jefferson Lorentz

O valor dos programas, que não ultrapassa R$ 40 nos hotéis considerados como os melhores da região, é uma marca da Guaicurus. Mas, mesmo com o valor, quem por lá trabalha não nega que a crise afetou os negócios. “Eu tinha cliente que vinha três vezes na semana. Agora vem uma vez por semana. Isso trouxe prejuízo. Se antes fazíamos um turno, agora fazemos até um dia inteiro para conseguir o mesmo faturamento”, comenta a gaúcha G, que passa temporadas em BH, após descansar em sua cidade natal, no interior do Rio Grande de Sul.

Nos hotéis, as diárias são cobradas por turno. As mulheres podem trabalhar das 8h às 16h, e das 16h às 23h. Ou o dia inteiro, se preferirem. Os hotéis ainda oferecem os chamados bicos, voltado para as  trabalhadoras do sexo que querem fazer um tempo menor ocupando o quarto por cerca de três horas ou menos.

Em 2012, antes da crise, a Associação dos Amigos da Rua Guaicurus (AARG)  estimou que eram realizadas um milhão e 200 mil relações sexuais por mês nos hotéis da região. Mas, com o atual cenário de estagnação econômica, elas não passam de 600 a 700 mil.  Segundo o vice-presidente da associação, Edson Cruz, a crise e o desemprego afetaram diretamente o principal cliente da Guaicurus, que é o trabalhador da construção civil, da indústria automobilística, da siderurgia, da mineração. “É o peão. É ele quem mais está sofrendo com o desemprego. Se ele perdeu o emprego ou se recolocou em uma situação em que ganha menos, ele gasta menos. Se ele está em crise, os corredores da Guaicurus também estão em crise. Com isso, as mulheres daqui também estão em crise”, afirma.

Cruz conta que, em tempos melhores, os hoteis operavam quase que com ocupação plena, em percentual próximo acima de 90%. Hoje, não passa de 60%. Os melhores dias são os que ficam próximos do dia do pagamento ou do vale. O presidente da AARG não é muito otimista quanto ao futuro. “Só Deus sabe quando essa situação vai melhorar. Tem dono de hotel falindo”, finaliza Edson Cruz, que rejeita o uso da palavr “zona” para definir os hotéis da Guaicurus. “Somos credenciados e fazemos parte do Sindicato de Hoteleiros de Minas Gerais. Isso aqui não é zona”.

Ampliação da jornada para manter a renda

Para tentar contornar os efeitos da crise, muitas mulheres, que só trabalhavam em um turno agora estão esticando a jornada, fazendo dois ou até três.  Ficam o dia inteiro. Afinal, além antes de faturar o valor que delas mesmo, têm que garantir o necessário para o pagamento da diária do quarto, cujo valor varia de hotel para hotel. A diária de menor valor está na casa de R$ 50; as mais caras podem chegar a R$ 150 e são pagos pela manhã, logo na entrada ou acertados antes do último cliente sair do quarto.

Segundo a presidente da associação da Prostitutas de Minas Gerais (Aspromig), Cida Vieira, aproximadamente duas mil mulheres passam pelos quartos da Guaicurus diariamente. “Em um dia de trabalho produtivo, elas  chegam a fazer 50 programas, mas, atualmente, muita dizem fazer apenas a metade”.

A despeito disso, os donos dos hoteis se recusam a reduzir os valores da diária. Mas estão fazendo investimentos para manter a clientela. No Hotel Crystal, na rua 21 de abril, uma moto 300 cilindradas fica exposta no corredor. “Aqui, cada um que faz um programa ganha da garota um cupom para participar do sorteio, que será realizado no final do ano”, conta um funcionário do hotel, que pede para não ser identificado. Este é o segundo ano do sorteio. “Eu fico pensado se homem casado ganhar, como vai fazer para justificar que ganhou na zona”, brinca.

Mas o fato é que, mesmo em tempos de crise, o setor segue firme. Na Guaicurus, os piores dias são domingo e quarta-feira. “Dia de jogo, homem prefere ver macho correndo atrás de bola. Alguém pode me explicar isso?”, afirma, indignada, N., que trabalha no hotel Onda Livre. A baixa frequência aos domingos é explicada pelo fato de que parte da clientela da Guaicurus é formada por homens que trabalham no centro e que, nos domingos, estão de folga. No entanto, há, entre as mulheres da Guaicurus algumas que enxergam nos frequentadores do final de semana um público especial, que não está presente lá de segunda a sábado mas reserva o domingo para “tirar uma”, como elas costumam dizer.

Em um dos últimos domingos, do quarto 206 do Hotel Catete, alguns gemidos podiam ser ouvidos do estreito de onde saem os quartos. A brincadeira lá dentro acabou interrompida por um entregador de pizza que regularmente faz entregar por lá e sempre para a mesma pessoa. “É uma argentina que atende pelo nome de S. e que pede pizza à moda praticamente todo domingo. Eu chego e ela está aí com os peitos para fora, muitas vezes com cliente no quarto. Ela não me dá tesão, mas é divertido interromper o trabalho dela”, conta Tiago, o entregador.

Veja o mapa ampliado

A Guaicurus que inspira o Carnaval de BH

E a Guaicurus, essa entidade tão marginalizada no coração da cidade, segue inspirando. É  lá que um dos blocos mais famosos e queridos dos belo-horizontinos, o Então, Brilha! faz a sua concentração. A ideia surgiu no carnaval de 2010,  quando um grupo de 15 amigos saiu de BH para desfilar pelas ruas do Rio de Janeiro com seu estandarte. Já percebendo o renascimento do Carnaval na capital, no ano seguinte, eles decidiram ficar por aqui e não pararam mais.

“Em busca de lugares e ideias para levantarmos nosso estandarte, em meio a um café, um amigo, Manuel Bylaardt, em tom de brincadeira disse: ‘Se o bloco chama-se Então, Brilha!, sai na Brilhante!’ Muitos desconheciam o lugar, bem como o nome, Hotel Brilhante, situado na histórica zona boêmia de Belo Horizonte.  Aquilo que em 2011 era apenas um trocadilho entre o espaço e o nome do bloco, ao longo dos anos ganhou outros contornos, sobretudo políticos, característica marcante do movimento carnavalesco de Belo Horizonte”, explica um dos idealizadores do bloco, Geison de Almeida Bezerra da Silva, sobre como o bloco nasceu.

No sábado de Carnaval, bloco Então Brilha! presta uma homenagem às mulheres da Guaicurus. É de lá que sai o seu desfilhe, que toma conta do centro de BH

Desde então, a aproximação com a rua Guaicurus só foi aumentando. No ano de 2013, o bloco aproximou-se da Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Asprosmig) e da  presidenta da associação, Cida Vieira. Em  2016,o bloco convidou Cida para declamar em cima do trio o trecho do poema do  russo Vladimir Maiakóvski  (Brilhar para sempre/brilhar como um farol/brilhar com brilho eterno/gente é para brilhar/que tudo mais vá para o inferno/este é o meu slogan e o do sol), que inspirou tanto o nome quanto as ideologias do bloco.

Este ano, o bloco também ousou, ao dar visibilidade ao tema LGBTIQ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transgêneros, Intersexuais e Queers) que, segundo Silva, também é associado ao histórico da região. “Apesar desses contatos, reconhecemos que há distâncias muito grandes entre bloco, prostitutas e a comunidade Guaicurus”. Segundo ele, muito ainda precisa ser construído entre o bloco e a comunidade Guaicurus, a fim de que haja uma construção cultural que parta, sobretudo, daquelas pessoas. “O Então, Brilha! seria apenas um catalisador”, afirma Silva ao Bhaz. Ele destaca a região como  um local de riqueza ainda inexplorada e  invisível ao poder público e também à opinião pública, isso em grande parte por causa da violência e do preconceito que ronda a área.

Veja as outras partes do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH:

Parte 1 – Mistérios da Guaicurus 

Parte 2 – Fantasias e fetiches

Parte  3 – O sobe e desce de travestis e homens

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

Parte 6 – New Sagitarius, ícone de uma época