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[Bhaz em série] New Sagitarius, ícone de uma época – Sexo em BH, parte 6

Por Jefferson Lorentz

Inaugurada com o show da cantora Gretchen, em  23 de outubro de 1978,  pelos irmãos Paulo William Menezes Gesualdi e Rodrigo Otávio Gesualdi, a New Sagitarius foi inspirada na nova Dancing Days, um grande sucesso da TV Globo na época. Dois anos depois, em agosto de 1980, de olho em um mercado ainda incipiente na capital, a danceteria passa a ser uma boate, oferecendo shows variados e strip-tease de mulheres. Ao mesmo tempo, garotas de programa começaram a circular pelo seu amplo salão, que guarda, ainda hoje, as mesmas características de quando foi inaugurada. Toda decorada com espelhos, cortinas e estofados na cor vermelha, a New Sagitarius é um ambiente que convida o cliente ao deleite da carne.

Desde aquele tempo até hoje, segundo Paulo Gesualdi,  uma média de 30 mil mulheres já passaram pela New entre idas e vindas . “Essas mulheres são nômades. Elas vão para onde o vento sopra. No fim de ano e no começo de ano, Belo Horizonte se esvazia. É quando muitas das garotas da New Sagitarius aproveitam e retornam para suas cidades, em busca de uma pausa. Outras vão atrás de cidades litorâneas em busca de turistas e do dinheiro que eles têm. “O turismo em BH é de negócio. Quando não tem negócio, não tem turismo”, explica Paulo Gesualdi.

Segundo ele, o público alvo da boate não é o morador de Belo Horizonte, embora este também a frequente, mas o homem que está em viagem à cidade. “Depois do congresso, da feira de negócio, em vez de ficar no hotel, ele dá uma esticada aqui para beber, ouvir música, esfriar a cabeça, ver mulheres bonitas.”

Paulo afirma que a New Sagitarius viveu o auge nos anos  de 1980 e 1990, quando mulheres que eram capa de revista, como Gretchen, Sula Miranda e Rita  Cadillac, faziam lá shows que lotavam a boate. “Tínhamos que fechar a porta e até a rua, pois ninguém conseguia entrar”, relembra.

Agora, os tempos são outros, como ele mesmo admite. Sem caixa para pagar o cachê de estrelas da mídia, o jeito é convidar as meninas que por lá circulam para fazer apresentações sensuais em roupas provocantes, o que, segundo o empresário, está cada vez mais difícil, já que muitas dizem que isso atrapalha a negociação dos programas.

Com a recessão dos últimos dois anos,  ele conta que o faturamento da casa caiu em cerca de 40%. “Em janeiro e fevereiro, Belo Horizonte é o caos, que se repete em julho, mês de férias. Geralmente o  movimento começa a melhorar a partir de março, com as feiras e congressos. Mas, nestes últimos dois anos, o movimento está atípico, consequência da crise”, afirma.

Pouca luz e muitos espelhos criam o clima para a aproximação entre cliente e garota de programa (New Sagitarius/reprodução site)

Atualmente, trabalham na casa mulheres com faixa etária entre 19 e 37 anos, que não passam por uma seleção propriamente dita. “Nós não descriminamos nenhum tipo de mulher aqui. Não há mulher feia nem bonita.  O importante é que ela esteja bem vestida, apresentável, com cabelos e unhas bem cuidadas e usando salto”, afirma Paulo Gesualdi, ao dar a dica para quem pretende se aventurar nessa profissão. Segundo ele, a seleção é feita pelo cliente, pois é ele que escolhe a companhia. “E cada um tem um gosto bem diferente, imprevisível”, afirma.

A única exigência, explica Paulo, é que a mulher não seja chata, pois, se for, não adianta nada ser bonita. Ele conta que muitas mulheres acabam, por vezes, insistindo em sair com o cliente, mas o que ele quer mesmo é olhar, é apreciar o ambiente, tomar uma bebida, pois nem todo homem que vai ao local deseja sair de lá acompanhado.

A internet mudou o comportamento

Com a chegada da internet, do celular, e, por último, do smartphone, as garotas de programa tornaram-se mais independentes, não necessitando, necessariamente, estar vinculada a uma casa de shows para acertar o programa. “Hoje ela não depende mais de nenhuma casa. Ela faz programa durante o dia  e não vem aqui mais com a frequência de antes. Quando conhece um cliente, ela troca com ele os contatos e a boate deixa de ser o local exclusivo para a intermediação do encontro”, conta Paulo Gesualdi, que enxerga também uma mudança no perfil das garotas de programa. “Anos atrás, as mulheres queriam romance, mas hoje estão mais mercenárias, mais descoladas, querendo é faturar o dinheiro delas”.

Para ele, além da mudança no modo de trabalhar da garota de programa, o cliente mudou nestas três décadas. Ele explica que embora a casa receba homens de todas as idades, o público mais novo está cada vez mais presente.  “Quando inauguramos, quem vinha aqui era somente o cara com a vida financeira estabilizada, pai de família, com conta bancária gorda, e acima dos 40, 50 anos. Hoje, vemos aqui muitos jovens de 30 anos que já têm empresa e algum sucesso financeiro.  É comum virem sozinhos ou em turmas, para aniversário e despedidas de solteiro, coisas que no início não aconteciam”.

Porém, segundo Paulo Gesualdi, uma coisa não mudou: os mais velhos continuam sendo os mais generosos na hora de gastar. “Os mais novos acham que levam no papo, na lábia. Tudo para não pagar o programa, afirma Paulo  Gesualdi.

Não há perfil definido

A New Sagitarius está localizada próximo a uma faculdade, na região Centro-Sul da cidade. Por isso, é destino de muitas alunas após a aula. “Aqui a gente recebe mulher de todo tipo. Algumas ligam durante o dia. Outras aparecem à noite. Na verdade, não há um perfil de mulher que trabalha aqui. Ela tem que ter uma cultura ampla para poder conversar com o cliente”, explica. Ele afirma que não costumam levantar a ficha da mulher que quer trabalhar no local. “Se você for à Guaicurus, vai encontrar muita mulher bonita. Acontece que muitas chegam à cidade, descem na rodoviária e já ficam por ali. Mas algumas, mais espertas, seis meses depois, com uma grana já levantada, se produzem e vêm bater aqui na porta, o que acredito ser bem possível. Afinal, se lá ela faz dez programa para ganhar R$ 300, aqui ela ganha este mesmo valor com um só”, explica o empresário, que acredita não ser possível o fluxo em sentido contrário. “É algo inimaginável. Afinal, aqui a mulher acaba ganhando uma grana boa, que investe, quando não casa e vai até embora do país”.

De caixa de supermercado para a New Sagitarius

Trabalhando na casa desde de 2013, com paradas apenas pontuais, J., de 26 anos,  prefere não ser tratada como garota de programa. Gosta de ser chamada de “garota de luxo”. “Acho o termo pejorativo, assim como prostituta, que é muitas vezes associado a uma mulher doente, que usa drogas. Acho garota de luxo, mais leve”. Como prova de que é mesmo uma garota “de luxo”, ela cita a própria roupa que usa. “Estou vestindo aqui uma roupa de R$ 600. Me ajude ai”, diz ela, apontando para o vestido colado ao corpo comprado em um shopping da zona sul da cidade que usava quando da entrevista.

Antes de começar na New Sagitarius J. era caixa de supermercado. Ela chegou à boate após um cliente a  convidar, de forma insistente, para conhecer a casa. “Ele dizia que eu era bonita. Que eu ganharia muito mais do que eu ganhava naquele trabalho ficando sentada ali oito horas por dia. Com muito medo, um dia resolvi vir e estou aqui até hoje”.

Nestes quatro anos na prostituição, ela conta ter vivenciado muitas situações curiosas com clientes da política nacional e estadual e cantores em turnê pela cidade. Ela revela que estes clientes nunca vão à boate, mas enviam recrutadores, que selecionam as mulheres e as levam para o local de encontro. “Eu já saí daqui sem saber com quem ia encontrar. Quando entrei no hotel ou em casas afastadas de Belo Horizonte, era uma pessoa famosa”, conta ela, que prefere não citar os nomes para não criar problemas.

Entre os clientes, J. conta atendeu até um padre, que não fez sexo com ela. “Ele somente pediu para que eu dançasse para ele. E ele ficava pedindo perdão a Deus a todo instante, dizendo que não estava tocando no meu corpo, mas só olhando. Mas, o que me impressionou mesmo foi que ele chegou a gozar sem mesmo se masturbar”, revela

Na New Sagitarius, convite ao erotismo está presente em tudo, até na tonalidade da carta de vinhos (Jefferson Lorentz)

Dinheiro na mão, calcinha no chão, dinheiro sumiu, calcinha subiu

Para manter-se em forma, J. gasta, em  cabelo, unhas e procedimentos estéticos, algo em torno de R$ 2 mil a R$ 3 mil por mês. Ela investe no corpo para garantir a clientela. “Eu fiz um retoque no bumbum e coloquei 350ml de silicone nos seios. A gente tem que estar impecável. O homem não vem aqui para buscar uma mulher que não seja top. Por isso, boa parte do dinheiro que ganho é para investir em meu material de trabalho, no caso o corpo”, explica ela.

Pelo programa,  J. cobra R$ 800, que devem ser pagos antes. “Eu  sou bem rigorosa com relação a isso. Já fui a programas em que o cara broxou e não quis pagar ou mesmo fez o programa, mas se recusou a pagar. Então, hoje já cobro antes de entrar no motel, já que também não frequento casa de cliente”.

Sobre o futuro ela ainda não sabe dizer como será. Mãe de um menino de 11 anos, J. afirma  que pretende continuar a trabalhar como garota “de luxo” até conseguir fazer um bom pé de meia.”Eu tenho filho, quero dar o melhor para ele e para mim também. É um modo de ganhar dinheiro rápido, para o que eu tracei para minha vida”, conta ela, que afirma travar uma verdadeira corrida contra o tempo. “O fato é que o tempo passa e, com a idade, a mulher mais velha vai perdendo espaço, já que o cara que vem aqui quer uma novinha. Tenho que aproveitar agora”, afirma.

Amanhã, o Bhaz vai mostrar estudo feito pela UFMG sobre as garotas de programa de BH

Leia as outras reportagens do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH

Parte 1 – Mistérios da Guaicurus 

Parte 2 – Fantasias e fetiches

Parte  3 – O sobe e desce de travestis e homens

Parte 4 – Um mercado também em crise

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

 

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Jefferson Lorentz

Jefferson Lorentz

Jeff Lorentz é jornalista e trabalhou como repórter de pautas especiais para o portal Bhaz.

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