Por Jefferson Lorentz

Da janela de um flat localizado em uma das ruas mais famosas da Savassi, bairro da Zona Sul de Belo Horizonte, é possível ver uma parte da cidade. Ali, no 12º andar, T. trabalha diariamente, até oito horas por dia, inclusive nos fins de semana e feriados, atendendo a clientes em busca de momentos de sexo fora da rotina. O local é bem decorado, com cortinas, tapetes e quadros de pintura abstrata escolhidos por ela mesma, que adora frequentar museus, inclusive fora do país. No quarto, uma cama king size – como são conhecidas as de modelo maior – e toalhas felpudas e brancas para o cliente usar. À disposição dele estão, ainda, sabonete líquido e shampoo para todos os tipos de cabelo.

Garotas que acertam seus programas pela internet atendem em flats alugados  na região mais central de BH (Fotos: Jefferson Lorentz/Bhaz)

Locais de trabalho são ambientes confortáveis e discretos

Locais semelhantes a esse são o ponto de encontro de T. A garota tornou-se acompanhante de luxo aos 24 anos, após ver e vivenciar a decadência financeira dos pais. Para salvar a casa da família de classe média e conseguir colocar alguma comida em casa, T. viu na prostituição uma oportunidade de ter uma vida melhor e também ajudar o pai e a mãe.

Até os 24 anos, T. tinha tido somente dois parceiros sexuais. Foi quando teve o primeiro contato com o mercado de sexo. “Eu não conhecia nada desse mercado. Posso dizer que nem sabia de sua existência. Uma amiga me falou e me apresentou a uma agência que recrutava garotas e as anunciava em sites”, relembra. Na agência, ela ficou, por uma ano, ganhando  experiência, cativando fregueses e construindo uma cartela de clientes fixos. Foi então que T. decidiu fazer voo solo. Ela conta que nesses quase dez anos de estrada,  sempre trabalhou oferecendo seus serviços pela internet. “Tenho credibilidade grande no mercado. Um cliente me indica para o outro e, assim, fui e continuo a construir uma cartela grande e boa de clientes”, ressalta. Segundo ela, o mercado do sexo a atraiu puramente por razões financeiras, como alternativa para enfrentar os problemas pelos quais sua família estava passando.

Neste período, chegou a ser microempresária, mas, há dois anos, com a crise, acabou tendo que fechar a loja. “O que me salvou foi a prostituição. Nela, eu pelo menos nunca senti a crise”, afirma T., que prefere não revelar quantos programas chega a fazer por dia, nem o valor que chega a faturar por mês. Afirma apenas que não fica sem trabalhar um só dia, e que sempre faz mais de um programa por dia.

T. afirma que tem situação financeira estável

Atualmente, toda sua renda vem da prostituição. No site, ela anuncia o programa de uma hora por R$ 400, que inclui sexo vaginal, oral com camisinha (ela também recebe oral). T. atende somente homens. O pernoite chega a custar R$ 1.500. Aviso aos interessados: os valores serão reajustados em breve, após um novo ensaio fotográfico que ela fará em São Paulo, onde também deverá posar para uma revista. “Isso acaba elevando o valor. Dá mais credibilidade e atiça o cliente”, comenta.

Em seu perfil no site “BH Models”, ela faz questão de publicar fotos bem produzidas, informando que oferece banho de língua, roupas eróticas, inversão de papeis e massagens relaxantes. “Ofereço tudo isso com a maior segurança, para mim e para meu cliente. Eu nunca faço nada que me faz sentir mal, que me incomode. Ao contrário do que muitos pensam, não é qualquer coisa por dinheiro. Eu, por exemplo, não saio com mulheres, apesar de receber o chamado delas. Também prefiro que não usem drogas na minha frente, o que, às vezes, acaba acontecendo”, admite.

Dona de um corpo escultural aos 33 anos de idade, sete a mais do que afirma ter no site, ela diz que tem hoje uma boa situação financeira estável. “Ao longo destes anos todos, eu consegui fazer investimentos em fundos, comprar de imóveis”, detalha. Porém, lembra que priorizou ter conhecimento e cultura. Formada em administração e fazendo mestrado na área de negócios, ela afirma que pretende, um dia, parar e retomar à área na qual se formou. “Claro que pretendo parar, mais ainda não sei quando”.

Profissão exige investimento constante no instrumento de trabalho: o corpo

Segundo ela, a internet é um veículo excelente, mas que requer um investimento muito grande também em publicidade, produção de fotografias e no próprio instrumento de trabalho: o corpo. “Além disso, quando você se expõe na internet, você tem que ter um gasto com estética, pois ali está seu produto: o corpo. No relógio, é uma hora cravada com valor mais alto, mas que, se o cliente gostar, poderá se tornar um fixo”, comenta ela, que afirma nunca ter feito programas em boates. “Quem trabalha neste locais gosta da noite, da bebida, daquela movimentação. Eu confesso que não é minha praia”, destaca.

T. acostumou-se com o uso da internet, mas admite que muitas profissionais da área não gostam. “Muitas meninas com quem converso dizem quem não curtem internet porque o telefone toca direto. É uma ‘perguntação’ sem fim, pois querem realmente saber se você é a pessoa da foto. Além disso, muitas acham desgastante ficar presa num flat à espera dos clientes o dia todo, do que eu não discordo”, afirma T., que também não gosta de fazer programas em hotéis, apesar de conhecer mulheres que trabalham nestes locais. “Conheço algumas, inclusive bem cuidadas, que me ensinaram muito. Eu não tive essa experiência, mas sei que recebem um volume grande de homens, geralmente de classes mais humildes”, lembra.

Atualmente, T. aluga um flat por R$ 1.800 exclusivamente para atender à clientela, formada, em sua maioria – algo em torno 80% – por homens casados. “Também já atendi casais. Mas não faço bi feminino. A mulher geralmente quer ver o marido dela com outra. Ela só fica olhando. Algumas até dão o marido de presente para essa terceira pessoa. Não é algo raro de acontecer. Apesar de ter encarado, confesso que não dou conta de casal. Eu não curto fazer nada em que eu não fique bem, que me cause incômodo”, revela.

Sobre suas preferências, T. afirma que prefere atender os casados. “Eu não curto atender homem solteiro. O homem casado busca o carinho, a atenção. Eu reparo se ele comprou uma roupa nova, se cortou o cabelo. Tenho o maior prazer. Mas sempre prezo a família. Muitos dos meus clientes falam sobre o casamento e eu dou o maior apoio para ele preservar o casamento, pois dá para ver que o cara gosta da esposa, mas, muitas vezes, não rola sexo. Mas dou a apoio a eles porque sou a favor da família”, afirma. Ela conta, ainda, que muito dos casados que a procuram curtem ser passivos. “Já fiz muito fetiche usando cinturão, me colocando no papel do homem, algo bem suave, pois não curto bizarrice”, adverte ela, que diz estar ficando mais madura e vivenciando o melhor momento desde que iniciou-se na profissão.

Autodefinindo-se com muito reservada, T. diz que não frequenta festas com clientes; tampouco aceita convites que possam criar laços em público. “Eu não faço festa com outras meninas. Se, por acaso, o cliente me chamar para jantar, o encontro deverá ser em local reservado e de forma breve, para partirmos logo para o programa sexual em si”, explica.

T. faz mestrado na área de negócios e não esconde que pretende deixar a profissão; com os programas, já conseguiu fazer uma poupança

Segredo para manter a clientela: tranquilidade e paciência

Para conquistar e manter uma boa carteira de clientes T. afirma que dois ingredientes são fundamentais: tranquilidade e paciência para deixar os clientes bem à vontade. “Tudo começa com uma boa conversa, para deixar o cliente tranqüilo, e procurar satisfazer as vontades dele dentro do que eu me proponho a fazer”, afirma.

Ela comenta que, no início, era muito fria, muito mecânica, sem transparecer carinho pelo cliente . “O atendimento que faço hoje é mais envolvente. Eu beijo, faço massagem relaxante. É algo profissional, mas com um envolvimento entre quatro paredes maior. Mas no começo eu era fria. Eu me aperfeiçoei e acabei só lucrando”, enfatiza ela, que afirma, em seu anúncio, ser a autêntica mineira.

Para ela qualquer mulher pode se tornar uma acompanhante. “Tem mercado para todas: para a gordinha, para magra, para maravilhosa, para a feia ou a bonita. O que manda é a disposição da mulher em encarar isso com profissionalismo. Mas, tem que saber lidar com o preconceito que existe. É preciso ter cabeça. Você tem que ter discernimento, um objetivo, e ser, acima de tudo, profissional”.

Nascida e criada em Belo Horizonte, T. já revelou aos familiares, incluindo mãe e tias, sua profissão. Afirma que ganhou deles o apoio. “Minha família me respeita e não fica com aquele interrogatório. Tenho uma família maravilhosa e não tenho do que reclamar”, acentua.

Segundo ela, nestes anos de trabalho, nunca chegou a se envolver com clientes. Mas, recentemente, acabou se envolvendo com um deles, um rapaz solteiro, de 40 anos, e “bom partido”, com quem mantém um relacionamento sério. “Estamos em fase de teste. Eu sou muito desconfiada. Estou com prazo estipulado para parar. Mas vamos ver”, diz ela, de forma evasiva e sem entrar em detalhes.

Prática e sem deixar transparecer sentimentos, T. diz que não está mais na fase de acreditar em paixões, nem mesmo pelo atual namorado. “Não acredito nessa coisa de paixão. Ele é uma pessoa que tem objetivos parecidos com os meus. Eu sou bem racional. Assim sendo, terei que dar um ponto final a T. se quiser levar este relacionamento adiante”, revela. Para isso, garante que já tem uma estrutura financeira sólida, não precisando contar com a ajuda financeira do ex-cliente e agora namorado. “Será uma dor deixar T. para trás, ‘tadinha’, já que tudo que tenho e conquistei foi graças à profissional de sexo que me tornei. Mas a vida tem que seguir”, diz ela, que reafirma viver o melhor momento de sua carreira.

Uma mulher com padrões de beleza que fogem aos estereótipos

Com 1,63m e pesando 98 quilos, O. é uma mulher que quebra padrões das altas, loiras e magras. O. é, digamos, a mulher dos novos e inclusivos padrões estéticos. Formada em administração e natural do Sul do Brasil, ela trocou a rotina do setor administrativo de uma clínica odontológica, onde era responsável por olerites, folhas de pagamento e cobrança de clientes, por momentos em que pode “dominar, ter uma pegada forte, gemer, fazer amor, carinho, receber sexo oral, fazer sexo oral, ficar por cima, ficar de quatro e falar sacanagem”, nas palavras dela própria publicadas em seu anúncio na internet.  “Só saio com homens. Não dou conta de mulher de jeito nenhum”, conta ela, aos risos. No site em que anuncia, BHModels, os clientes a classificam em primeiro lugar usando a hashtag “anal guloso”, seguido por “garganta profunda” e “seios fartos”.

Aos 32 anos – no site, ela diz que tem 27 –, O. comenta  que chegou ao universo do sexo pago há sete  anos, também por razões financeiras e por se considerar uma ninfomaníaca. “Quem me apresentou esse mundo foi uma colega de faculdade que fazia direito e era acompanhante. Pra mim, garota de programa era aquela de rua ou da casa da luz vermelha, essas casas de beira de estrada de que a gente ouve falar. Agora, juntei o útil ao agradável”,  afirma.

Com passagens por todos os estados do Sul, O. presta serviços em BH desde julho de 2015.  “Eu era uma das que criticavam essa profissão. Mas, como diz a minha mãe, ‘língua não tem osso. Então, morda’”, completa ela, que diz adorar a capital dos mineiros e os mineiros. “Estou com um cartela de clientes grande e amando cada momento aqui”.  Antes de vir para BH, ela chegou a cogitou de morar no Rio de Janeiro, onde afirma que a concorrência é bem maior, e os custos também.

Mesmo com medidas que destoam um pouco dos padrões de beleza, O. tem clientela de homens que preferem as mais gordinhas

Maior procura é no horário do almoço ou no meio da tarde

Segundo ela, o público que a procura é o cliente que fugiu do escritório no meio da tarde, ou na hora do almoço. “Deixou de ir almoçar pra vir namorar, ou antes de ir pra casa no fim do expediente dá uma passadinha aqui. Geralmente, são casados ou têm namoradas”, conta ela. O. afirma que muitos homens não admitem que têm tesão por gordinhas. Por isso, têm como oficial uma magra, mas, por debaixo dos panos, buscam uma mulher como ela, no estilo BBW, que significa em inglês “Big Beautiful Woman”.

“Eu recebo todo tipo de homem, desde que ele tenha entre R$ 250 a R$ 300 por uma horinha. Não recebo claro, menores de idade”, comenta ela, que diz já ter pedido a carteira de identidade de um garoto que apareceu na porta de seu apartamento. “Pelo telefone, a conversa não levantou dúvidas, mas, quando vi a cara dele, tive que pedir a identidade. Menor de 18 anos eu não atendo”, revelou ela, que afirma ter uma cartela de clientes com idade diversificada, variando entre 20 e 60 anos.

O investimento em estética é mínimo. Fica mais por conta de cabelos, unhas. Para manter-se peso pesado, faz apenas natação e hidroginástica, não se preocupando em fazer dietas.  “Pelo meu estilo e biotipo, acabo atraindo quem gosta de fofinhas, peitudas e bundudas.  Então, não temo concorrência”. Por causa deste biotipo, ela recebeu um cliente nas faixa dos 48 a 50 anos  que passou uma hora mamando em seus seios igual a um recém-nascido e pedindo a ela que falasse com ele como se fosse a mãe dele.

Bem humorada – um dos atributos pelos quais acredita manter clientes –, ela lembra que não atende casais nem mulheres. “Tenho horror a mulher. Elas até me ligam. Mas não rola. Nem pagando”.

O. recebe os clientes em um apartamento que divide com duas amigas, também acompanhantes, na região Oeste da capital. No local, que em nada lembra um quarto de motel ou prostíbulo, ela oferece cerveja, água com e sem gás e refrigerante. “Se o cliente quiser trazer alguma bebida, como whisky ou vinho, eu não me importo”. O. também vai a hotéis atender clientes que estão de passagem pela cidade. Uma das restrições de O. é não ir à casa dos clientes, por achar perigoso. “Vai que eu estou lá e ele usa algum tipo de droga ou aconteça alguma coisa. Eu sou a parte mais frágil desse cenário”.

Entre as atividades que O. oferece estão sexo vaginal em várias posições, beijo na boca, sexo oral sem camisinha, com finalização, mas sem engolir, além de anal, massagem e beijo grego.  Para quem não sabe, beijo grego é uma chupadinha ou lambidinha no ânus do cliente.

Entre os campeões de pedido dos clientes, a inversão de papéis é o grande destaque. Para isso, O. tem no quarto um vibrador tamanho G, pênis de borracha com três tamanhos (M, G e GG), além de uma cinta com sustento para os variados tamanhos de pênis de borracha. “Além dos consolos, uso muito, também, os dedos encapados com camisinha”, finaliza.

Família não sabe que é garota de programa

Nesses sete anos como acompanhante de luxo, O. comenta que seu recorde foi atender a 14 clientes durante um dia inteiro de trabalho, experiência que não quer repetir nunca mais, pois no outro dia estava “morta, cansada e muito assada, devido ao atrito da camisinha com a vagina”, explica.

O. afirma que até dois anos atrás, conseguia tirar por mês de R$ 18 a R$ 20 mil. Com a crise, hoje fatura algo entre R$ 10 e R$ 12 mil mensais. “Isso trabalhando muito. Tem dia que não tem cliente. Tem dia que tem cinco. Outro dia tem três e assim vamos levando”, diz ela, aos risos. No universo do sexo contratado via internet, quem mostra o rosto acaba tendo mais possibilidade de ser escolhida, como é o caso de O. Mas ela também confessa que teme que os familiares a vejam, já que ninguém sabe de sua real profissão em Belo Horizonte.

“Para a minha família, eu falo que trabalho na filial da empresa aqui. Morro de medo de descobrirem. Mas é um risco que corro”, comenta ela, que encarna, nas fotos do site, uma professora de sexo com malícia e muito fogosa. “Minha família é descente de italianos e da roça. Acho pouco provável que entrem em sites como esses”, argumenta. Por ter uma vida dupla, ela diz que não pretende namorar nem mesmo ter filhos. “Para que eu vou arrumar mais mentiras. Já basta mentir para a família”, afirma O., que atende a clientes de longa data que, além de sexo, querem, em grande parte, conversar, namorar. Não é só gozar e ir embora. “Rola um carinho, um papo”, detalha ela, que, ao contrário de muitas garotas, sempre recebe o seu cachê ao final de cada programa. “Acertamos tudo por telefone. Aí o pagamento acaba ficando para o final. Mas eu nunca tive problema”.

Alguns clientes chegam a ficar entre duas e três horas e costumam pedir descontos. “Eu dou uns R$ 50 somente, pois choram demais”, diz ela, de forma engraçada. Ela revela que em BH, alguns hotéis de luxo chegam a promover um sobe e desce no melhor estilo Guaicurus, mas de luxo. “Tem muita menina que vai para o hotel cedo, paga a diária e recebe ali mesmo os clientes com quem acerta o programa via internet. “Você nem imagina que no hotel tal está rolando o sobe e desce”, revela O., preferindo não citar nomes, para não ter problemas com  colegas e estabelecimentos que permitem a prática.

O. responde com tranquilidade quando questionada sobre o preconceito que envolve as profissionais do sexo. “Acho que é um trabalho como qualquer outro, desde que se tenha respeito e educação. E não vejo dificuldade nenhuma quanto ao meu trabalho. Estou no cômodo da minha casa e recebo os clientes tranquilamente. Faço meu trabalho. Eles agradecem, pagam e vão embora. O bom da profissão, além de ganhar um bom salário, é que você acaba conhecendo pessoas maravilhosas”, conta ela, ao afirmar não sentir nenhum sofrimento pela profissão que exerce. “Eu trabalho assim para juntar dinheiro. Meu sonho é abrir uma padaria”, diz ela, ao falar sobre seus planos futuros.

Ardente Quarentona entrou para a prostituição aos 41 anos; sua preferência é pelos homens com idade entre 45 a 50 anos

Quarentona que desafia o tempo

Em um mercado onde o corpo é a “arma” do negócio, Ardente Quarentona desafia, assim como O., os padrões da beleza feminina e afirma que hoje, ao contrário do que muitos pensam, as mulheres mais vividas atraem, não só os rapazes mais jovens, mas também os homens mais maduros.

“Estou atendendo, cada vez mais, homens mais velhos, na faixa dos 45 a 50 anos, quando não mais”, revela. Ela entrou para o universo da prostituição aos 41 anos. De volta a BH, depois de anos morando no Espírito Santo, onde trabalhava acompanhando idosos, ela conta que chegou a procurar trabalho aqui, mas o resultado acabou surpreendendo. “Eu anunciei meu interesse em ser acompanhante de idosos aqui na capital. Mas quem me procurava sempre vinha com um papo sobre sexo. Me lembro de um rapaz que estava fazendo tratamento para ereção e me ligou para saber se eu poderia atendê-lo. Ele procurava uma mulher para chutá-lo na região genital, humilhá-lo. Outro estava indo operar as duas pernas e também disse que precisava de uma acompanhante no pós-cirúrgico. Outro me chamou para ir à casa dele, enquanto a esposa viajava. Tinha fetiche por transar na cama deles”, conta ela.

Segundo, relatou, o currículo anunciado junto com o pedido de trabalho nada tinha de cunho sexual. Sem arrumar uma vaga de acompanhante de idosos e acamados, e com as propostas sexuais acontecendo, ela decidiu procurar outro site para, então, fazer o anúncio, dessa vez como garota de programa. “Comecei cobrando R$ 150. A gente marcava em local público, como shoppings, praças públicas, e ai decidíamos para onde ir, já que, naquele tempo, eu não tinha local de atendimento”, relembra.

Quarentona chegou a trabalhar em um casa alugada de uma mulher, que cobrava R$ 50 a cada programa realizado no local. Após sete meses, preferiu procurar um local para ter mais privacidade. “Com o tempo, achei que estava ficando muito desorganizado, com muitas meninas se revezando. Não tinha muita discrição, o que para mim e para meu público, é fundamental. Então, com uma colega, decidi montar um privê no bairro Gutierrez”.

No local já mobiliado, cada uma tem seu quarto. Para que os clientes não se encontrem pelo corredor, elas acertam os horários e quando tem um próximo ao horário da outra, pedem ao cliente mais cinco a 10 minutos. Na locação, o corretor foi informado a que se destinaria o local. “Nós falamos para ele que seria um local para massagem. Para quem sabe ler, um pingo é letra. Acredito, inclusive, que ele, por sua vez, deve ter comunicado isso ao porteiro, pois este é bem discreto quando os clientes se identificam para subir ao apartamento”, conta.

Neste dois anos trabalhando como acompanhante, ela afirma que dividir o espaço está sendo  uma boa alternativa, já que os rendimentos caíram bastante com a crise. “Este ano está sendo o pior, pois há muitos feriados prolongados, o que atrapalha a marcação de encontros. Uma forma de aliviar as contas é compartilhar o apartamento para atendimento”, afirma. Mostrando muita naturalidade, ela conta que a primeira vez foi bem tranquila, pois nunca teve tabus em relação ao seu corpo ou a sexo. “Na conversa, a gente já pega um pouco de intimidade e, na hora, acaba sendo até bem gostoso”, conta.

Apenas o filho mais novo sabe que ela é garota de programa

Mãe de dois rapazes, Quarentona conta que já revelou ao filho de 18 anos a profissão, ganhando apoio do rapaz. “Ele disse: ‘Mãe, para mim, puta é aquela que fica por aí dando para todos os caras, só gastando a buceta. Isso é uma profissão'”, relata ela, utilizando as mesmas palavras de apoio recebidas do filho, que, segundo Quarentona, teve uma educação bem liberal e sem preconceitos.

O mais velho ainda não sabe de sua profissão, mas ela afirma que, se for preciso, um dia também contará a ele. Aos familiares, ela “justifica” sua renda como sendo proveniente da profissão de acompanhante de idosos e acamados.  De segunda a sexta-feira, ela fica no apartamento. Nos fins de semana, retorna para casa, onde mora com o filho mais novo. “Vou aproveitar o shopping, o cinema, com meus filhos e suas namoradas”.

Com 99% da clientela formada por homens casados, ela diz que o maior volume de trabalho acontece durante o horário do almoço, das 11h às 14h, embora ela esteja sempre disponível no horário comercial, das 8h às 17h. Por isso, sempre oferece aos clientes água, suco, refrigerante e, caso eles precisem, um bom banho. “Certa vez, recebi um cara no final do expediente. Ele estava todo suado. Eu sugeri que ele tomasse um banho. Ele se recusou e eu devolvi o dinheiro”, conta.

Divorciada após 26 anos de casamento, Quarentona conta que casou-se com seu primeiro namorado, embora no final do casamento, já em crise, vivenciasse experiências sexuais fora da relação matrimonial.  Sobre os clientes casados, ela conta que grande parte, embora viva com a esposa, não faz mais sexo  regularmente, mas apenas esporadicamente, uma ou duas vezes ao mês. “O homem tem isso – o sexo por instinto. Ele vai procurar, então, na rua”, diz ela, que também recusa clientes que expõem a esposa ou chegam a falar mal da mulher para ela. “Uma vez um cliente veio dizendo que eu tinha que ser muito boa com ele, porque feijão e arroz ele já tinha em casa. Não dei margem para ele continuar porque para mim isso é desrespeito referir-se assim à esposa”, conta, indignada, ao recusar o cliente.

Leia amanhã sobre como é a rotina dos sites que fazem o agenciamento de garotas de programa.

Veja as outras partes do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH:

Parte 1 – Mistérios da Guaicurus 

Parte 2 – Fantasias e fetiches

Parte  3 – O sobe e desce de travestis e homens

Parte 4 – Um mercado também em crise

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

Parte 6 – New Sagitarius, ícone de uma época

Parte 7 – Guaicurus não é só sexo, diz pesquisadora da UFMG

Parte 8 – O sobe e desce a céu aberto na Afonso Pena

Parte 9 – Os ‘donos’ da Afonso Pena, uma puta virgem e mais

Parte 10 – Internet: o mercado livre do prazer, para todos os gostos 

Parte 11 – Internet: a Guaicurus do século 21 

Jefferson Lorentz

Jefferson Lorentz

Jeff Lorentz é jornalista e trabalhou como repórter de pautas especiais para o portal Bhaz.

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