Home NotíciasEsportesApós encarar fábricas de gelo, maratonista mineira treinará em sauna para desafio no deserto

Após encarar fábricas de gelo, maratonista mineira treinará em sauna para desafio no deserto

Com Stéfano Bruno

Você já parou para pensar quantos quilômetros já andou em toda sua vida? Bom, certamente não. Agora, você seria capaz de percorrer mais de 100 quilômetros durante uma semana? Pois bem, fique sabendo que tem uma mineira que corre, em média, 280 mil metros toda semana. Trata-se da ultramaratonista Carla Goulart, de 37 anos.

Foto: Eduardo Rocha/Roberto Rocha - RR FOTO
Com uma carga de treinos super puxada, Carla chega a correr 280 quilômetros em uma semana
Foto: Eduardo Rocha/Roberto Rocha – RR FOTO

A distância oficial de uma maratona é 42.195 quilômetros. Já a ultramaratona é uma prova com distância superior a esse índice, porém com um outro critério para definição de resultados: o tempo. Existem disputas em categorias que têm duração 6, 12, 24, 48 horas ou até mais.

Há quatro anos participando de ultramaratonas, Carla Goulart contou ao Bhaz como entrou para esse esporte – que não é popular entre brasileiros. Mais incomum ainda são os treinamentos aos quais ela se submete. A atleta explica que as atividades vão de acordo com a prova que ela vai disputar. A competição pode acontecer na neve, na floresta, em uma montanha ou até mesmo no deserto. Já os treinos podem ser em uma simples academia, em um câmara fria ou até mesmo na sauna.

“O treinamento é pesado e baseado de acordo com a competição que vou fazer. Treino na Five, um centro de treinamento em Belo Horizonte, duas vezes por semana. Corridas eu treino todos os dias, chegando a fazer 280 km por semana. Como te falei, o treinamento é de acordo com a prova. Dependendo da prova tenho que aclimatar em câmara fria ou sauna”, disse a atleta.

Foto: Montagem/Bhaz
Para se adaptar à neve e às baixas temperaturas, Carla treina em uma caixa de areia na academia Five e em câmaras frias
Foto: Montagem/Bhaz

Levando em conta os índices alcançados nos treinos durante os últimos quatro anos, a ultramaratonista pode ter percorrido 44.800 quilômetros somente em suas preparações para as provas. A distância é suficiente para dar uma volta ao mundo (o globo terrestre tem uma circunferência de 40.075,16 km).

Se você é daqueles que reclama dos 35°C registrados durante o verão e está com o ar-condicionado da sala ligado, provavelmente não suportaria correr cerca de 200 quilômetros em um deserto. A proposta pode até ser considerada desafiadora por Carla, mas também não é tarefa de outro mundo. Com o intuito de se preparar para um prova no deserto, a atleta mineira treina em uma sauna. Porém não pense você que correr em uma região árida, sob um sol escaldante de 50°C, é o maior obstáculo para Carla.

“O ambiente mais difícil com certeza é a neve, pois temos que ter cuidado com as extremidades, saindo de uma temperatura positiva e pegar -40°C, com sensação térmica de -50°C. É uma exigência muito grande do nosso corpo e desta prova”, disse Carla, que completou ressaltando o seu amor pelo esporte. “Quando se treina e ama o que faz, estas dificuldades se tornam pequenos desafios que são superados todos os dias”.

Veja a entrevista exclusiva da ultramaratonista Carla Goulart ao Bhaz:

Bhaz: Além de ultramaratonista, você tem outra profissão? Quantos anos você tem, e há quanto tempo você se dedica à corrida/ultramaratona?

Carla Goulart: Sou enfermeira, tenho 37 anos. Corro há 25 anos, exatamente. Este ano completa quatro anos que iniciei na ultramaratona.

Conte-nos sua trajetória no esporte: o que já fez, quantas provas…

Como comecei nova, até aos 17 anos morei no interior de Minas Gerais e corria, mas com a perda da minha mãe, fui morar na Capital. Ali descobri um novo mundo das corridas, que existiam maratonas… Fiquei admirada com a quilometragem, então pedi um profissional de educação física para me treinar. Em cinco meses fiz a primeira maratona com tempo de 3h54; minha segunda completei com em 3h18. Tenho mais de 30 maratonas completadas. Eu terminava a prova e queria correr mais, chegava muito inteira. (Risos). Já perdi as contas de quantas provas de ruas que participei. Eu cheguei a participar de algumas corridas de aventura, mas não gosto!

Eu me descobri no mundo das ultras e cada dia quero correr mais ultras novas, com maiores quilometragens. Conheci uma ultra aqui nos Estados Unidos 350 milhas (563.27 km) e outra de 1.100 milhas (1.770,3 km). Meu olhos estão brilhando para fazê-las.

E as suas maiores conquistas…

Minhas maiores conquistas são Jungle Marathon, prova na Floresta Amazônica (Carla é bicampeã deste evento); campeã da Ultra dos Anjos, em 2012, chegando em segundo lugar geral; 100 milhas em Portugal –  fui a primeira brasileira a ganhar uma prova de 100 milhas (160,93 km) em Portugal. Isso se tornou um grande marco em terras portuguesas.

Quanto tempo durou a maior prova que você completou?

42 horas – 235 km –, em 2012. Campeã, chegando em segundo geral.

Sua família te incentiva no esporte? Como é a relação deles com você?

Venho de uma família brasileira comum, pois meus pais não incentivavam para o esporte. Por minha vontade comecei a praticar alguns esportes na aula de educação física e fui tomando gosto, principalmente pelas corridas de rua. Então pedi para correr em vez de jogar vôlei e outras modalidades, pois minha estatura não ajudava muito. Na época meus pais não impediam de eu participar das corridas de rua, porém nunca estiveram presentes em uma prova. Hoje somente com meu pai. Ele acha o que todo pai poderia achar: uma doideira correr e participar de provas de alto rendimento. Tenho duas irmãs que não têm nenhuma identificação com um esporte competitivo. Desta forma, não recebo motivação da família para minhas provas, mas com certeza estão – no fundo – torcendo por mim.

Com quantos anos você começou a praticar corridas? Como surgiu o interesse por este esporte e qual era sua finalidade?

Comecei aos 12 anos de idade, na aula de Educação Física. Nunca gostei dos outros esportes. Primeiro porque eu não tinha altura; segundo: eu sempre gostei de esportes que envolvia corrida e já despertava em mim um espírito competitivo. Queria correr igual os meninos, quando eu ganhava do melhor menino eu achava o máximo! (Risos). Após deixar o colégio, mantive contato com a turma e corria na equipe deles. Treinava sozinha, mas sempre que tinha uma prova, me destacava entre os cinco primeiros geral. Minha finalidade era correr e destacar entre os melhores.

Foto: Reprodução/Facebook
Foto: Reprodução/Facebook

E a ultramaratona, quando você começou a praticar e quais as maiores dificuldades que você encontrou no início?

Tem quatro anos que estou no mundo das ultras. Carrego uma boa bagagem das corridas de rua e de endurece. Tive uma boa base, meu atual treinador vem me lapidando a cada dia. Minha primeira prova foi no Pico do Bandeira: 186 km (percorridos). Foi uma ótima experiência. Conheci pessoas que me incentivaram a vir para a ultra de vez. Fiquei em segundo lugar no feminino, foi uma prova duro, mas conseguir superar todos meus obstaculos. Minha determinação em chegar foi maior que minha vontade de vencer.

As maiores dificuldades era ir a uma prova, pois não tinha patrocínio. Mas nunca desistia.  Sempre na última hora eu conseguia.

O Brasil realmente tem fama de não auxiliar muito quem pratica esportes especializados. Você encontra dificuldades em relação a apoio? 

Como todos sabem, ninguém ganha patrocina, conquistamos patrocínio. Já encontrei muitas dificuldades para ir a uma prova, vendi rifa, vendi quilômetros… Levei muito ‘não’, mas sempre fui atrás do ‘sim’. Hoje tenho apoio da FIVE em BH, onde faço reforço muscular.

Sobre 10ª edição da Patagônia Expedition Race, você atingiu seu objetivo? Como foi essa prova para você? Quais foram às maiores dificuldades?

Não atingimos o objetivo maior da equipe, que era concluir toda a prova. Dizem que uma aventura é quando você realiza uma atividade e ela termina bem, caso contrário, ela se torna uma tragédia, e quase que a nossa se tornou uma. Enfrentamos (toda a equipe) medo e superação quando ficamos à deriva por cinco horas em caiaques inundados pelas ondas fortes da Patagônia. Vi a morte de perto. A única coisa que eu fazia era rezar, lembrava da minha mamãe. O frio era uma coisa terrível, estava sem luvas. De acordo com os fuzileiros navais, uma pessoa com roupas normais sobreviveria a essa temperatura da água de quatro a sete minutos apenas. Com as roupas que usávamos, não poderíamos ter sobrevivido mais de 15 minutos! O ser humano é realmente capaz de proezas inimagináveis. Nosso grande condicionamento físico ajudou muito, mas o que nos salvou foi a nossa mente e o nosso vínculo de sermos resgatados juntos.

As maiores dificuldades eram o frio e o fato de eu não saber nadar, mas em nenhum momento eu demonstrei medo para equipe.

Carla Goulart
Na imagem, Carla aparece presa em um buraco escondido pelo gelo
Foto: Montagem/Bhaz

Para qual prova você está se preparando agora em janeiro? Qual seu grande objetivo nessa prova? O que você deseja atingir?

No dia 27 de janeiro estarei participando da ultramaratona considerada a mais difícil do mundo: Arrowhead, que consiste em correr 217 quilômetros, o equivalente a 135 milhas em condições severas, ou seja, deserto de neve com a temperatura a aproximadamente -40°C, com sensação térmica de -50ºC. É uma prova de grande dificuldade, espero somente concluir com saúde dentro do tempo estabelecido: 60 horas. Ano passado nenhuma mulher conseguiu concluir (esta prova).

Outra dificuldade é o clima, principalmente para nós brasileiros que estamos adaptados a um clima tropical. Completar está prova representa um desafio não só pelas adversidades climáticas, mas pelo extremo preparo físico e psicológico que ela impõe.  Ser a primeira sul-americana a completar a Arrowhead evidência o quanto a ultramaratona como modalidade esportiva pode ganhar força, motivando novos atletas a desafios como este. Em um país onde o principal reconhecimento é pelo futebol, ter patrocínio para uma ultramaratona deste peso é algo extraordinário. Espero honrar meu patrocinador – DB – e principalmente trazer esta alegria para o meu país e para outros ultramaratonistas, incentivando e fortalecendo a ultramatatona como esporte, quem sabe um dia, olímpico.

Concluindo a prova terei a certeza que atingi meu objetivo de vários meses de treinamento, dedicação e, porque não, abstinência de todo tipo de atividade social, amigos e até mesmo família. Tudo isso em função de levar para o meu país o titulo de ter a primeira mulher a completar esta prova nos Estados Unidos.

Após essa prova, quais serão seus projetos futuros para 2014?

Para 2014 já terei na bagagem a Arrowhead e entendo que está de bom tamanho. Além de me preparar para algumas provas tradicionais no Brasil, Estados Unidos e Europa, estarei esboçando e planejando afim de viabilizar um novo projeto de treinamento com objetivo da Ultramaratona no Alasca, que são 350 milhas (563.27 km). Esta será a próxima, com certeza, com neve e gelo.

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