Home NotíciasEsportesEntre apoio e homenagens, Tinga espera ser exemplo para que a Conmebol tome medidas contra o racismo

Entre apoio e homenagens, Tinga espera ser exemplo para que a Conmebol tome medidas contra o racismo

Com Stéfano Bruno

Os insultos racistas ao volante Tinga, do Cruzeiro, ganharam repúdio de todas as pessoas ligadas ou não ao futebol. Até mesmo a rivalidade entre os dois maiores clubes de Minas foi deixada de lado. Jornalistas, torcedores, jogadores e até o presidente do Atlético já se sensibilizaram com o jogador da Raposa. Além das manifestações via redes sociais, os atleticanos estão se mobilizando para homenagear o jogador do clube celeste, cantando o seu nome antes do início da partida contra o Cruzeiro, que acontecerá neste domingo (16), às 16 horas, na Arena Independência.

“Fica um sentimento de tristeza. Não dá para aceitar que isso ainda aconteça hoje em dia. Só podemos lamentar que um jogador de futebol, ou melhor, um ser humano passe por isso nos dias de hoje”, disse Pierre, volante do Atlético.

“A gente fica triste. É um companheiro de profissão que sofre isso e o racismo que a gente tanto pede para que não aconteça, que a gente é contra, é triste e lamentável”, ressaltou Diego Tardelli, atacante do Galo.

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Foto: Reprodução/Twitter

Tinga ganhou o apoio de vários outros jogadores. Ronaldinho Gaúcho, Alexandre Pato, Neymar, entre outros. Eles utilizaram as redes sociais para se solidarizarem e apoiarem o volante do Cruzeiro. A hashtag “#FechadoComOTinga” chegou a ser utilizada até pela presidente Dilma Rousseff.

“A gente tenta esquecer, competir em campo. Fico chateado com isso em pleno 2014, um país tão próximo da gente, mas infelizmente aconteceu. Já joguei longe, joguei vários anos na Alemanha e nunca vi isso na minha vida. Eu queria não ganhar todos os títulos da minha carreira e ganhar o título contra o preconceito contra esses atos racistas. Trocaria por um mundo com igualdade entre todas as raças e classes”, disse Tinga após a partida contra o Real Garcilaso.

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Foto: Montagem/Bhaz

Não é a primeira vez que Tinga é vítima de racismo. Em 2005, quando defendia o Internacional, o jogador foi chamado de “macaco” por torcedores do Juventude, durante uma partida válida pelo Campeonato Brasileiro, no Alfredo Jaconi. Na ocasião, o volante não levou o caso para a polícia e deixou a lamentável situação nas mãos do árbitro, para que ele relatasse o ocorrido na súmula do jogo.

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Racismo pelo mundo

Tinga não foi o primeiro jogador de futebol a ser vítima de racismo e, infelizmente, não deverá ser o último. Por mais que a Fifa venha realizando uma campanha mundial contra este tipo de insulto, em alguns países ainda tem torcedores que ainda se comportem com tal ignorância e preconceito. Em novembro do ano passado, o zagueiro brasileiro Paulão, do Bétis, sofreu com a intolerância de sua própria torcida.

Após ser expulso na partida contra o Sevilla, o jogador deixava o campo quando começou a ouvir um barulho semelhante ao que os peruanos fizeram para o Tinga. Paulão não se conteve e foi às lágrimas. “Foi um ato preocupante. Ato muito feio. Deixa a gente abatido. A família tanto no Brasil quanto aqui na Espanha fica triste, preocupada. Eu, quando deixei o campo ao ser expulso, fiquei lamentando a minha saída e não vi. Meus amigos comentaram comigo depois. (…) É bom que isso tenha muita repercussão para que alguma atitude seja tomada. Nós (negros) somos iguais a todos os outros. Cor da pele não muda nada”, disse o jogador em entrevista ao portal Superesportes.

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Casos de racismo são bastante incomuns nos campeonatos sul-americanos. Porém, na Europa os atos preconceituosos aparecem com mais frequência. Em outubro do ano passado, o meio-campista Yaya Touré, do Manchester City, ouviu cânticos racistas durante a partida contra o CSKA Moscou, na Rússia.

“É bem decepcionante quando se fala de gente ainda fazendo algo assim. É incrível e muito triste”, disse Touré, exibindo uma flâmula com os dizeres “não ao racismo”.

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Casos famosos envolvendo brasileiros

Tem três casos envolvendo jogadores brasileiros que sempre são lembrados pela mídia esportiva. O mais famoso envolveu o atacante Grafite e o zagueiro argentino Desábato. Durante a partida entre São Paulo e Quilmes/ARG, na Copa Libertadores de 2005, o jogador do Tricolor paulista foi expulso após empurrar o rosto do defensor.

Durante sua saída de campo, Grafite justificou sua revolta ao afirmar que foi chamado de “negrito” por Desábato. O atacante prestou queixa contra o defensor na delegacia e o jogador argentino acabou sendo preso. Porém, o zagueiro foi liberado no dia seguinte.

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Em 2006, o zagueiro Antônio Carlos, então no Juventude, foi expulso após agredir o volante Jeuvânio, do Grêmio. Enquanto saía de campo, o defensor chamou o jogador do Tricolor de “macaco” e passou os dedos no braço em uma alusão a cor do atleta gremista.

Em 2011, o lateral-esquerdo Roberto Carlos abandonou o jogo de seu time, o Anzhi Makhachkala, da Rússia, devido a insultos racistas. O jogador foi alvo de uma banana atirada no campo. Em entrevista ao “Sport-Express”, o lateral desabafou. “Estou indignado com o comportamento do torcedor que ofendeu não apenas a mim, mas a todos os jogadores presentes. E não apenas os jogadores, mas todo o futebol russo”.

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UEFA, Fifa e Conmebol

Em seus sites, a Fifa e a UEFA têm uma página destinada apenas à campanhas contra o racismo no futebol. Em parceria com a rede Futebol Contra o Racismo na Europa (FARE), as instituições dizem travar uma luta contra o preconceito no futebol desde 2001. Durante o os jogos entre clubes europeus, é comum ver os atletas entrarem em campo com faixas ou flâmulas com os dizeres “não ao racismo”.

O site da Fifa, inclusive, destaca o Artigo 3 do Código Disciplinar, que descreve as punições em caso de violação do Estatuto da entidade.

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“A discriminação de qualquer tipo contra um país, uma pessoa ou grupos de pessoas por causa da raça, cor da pele, etnia, origem social, gênero, língua, religião, opinião política ou qualquer outra opinião, saúde, local de nascimento ou qualquer estatuto, orientação sexual ou qualquer outra razão é estritamente proibida e passível de punição por suspensão ou expulsão”.

Foto: Montagem/Bhaz
Os sites da Fifa (esquerda) e da UEFA (direita) trazem mensagens contra o racismo
Foto: Montagem/Bhaz

Já a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) tem sido mais conivente com o tema. Sem nenhuma campanha contra o preconceito, a instituição tem sido bastante pressionada para ser mais áspera em alguns temas, como racismo, catimbas e objetos atirados no gramado. Em relação ao caso envolvendo o Tinga, a Conmebol chegou a ser pressionada pelo ministro do esporte, Aldo Rabelo.

“No ano em que o mundo inteiro se une para disseminar uma mensagem contra o preconceito durante a Copa do Mundo do Brasil, é inconcebível o comportamento que vimos em Huancayo. Tinga tem todo o nosso apoio na luta contra o racismo, que, esperamos, será combatido com firmeza pela Conmebol”, disse.

Por meio do seu perfil no Twitter, a Conmebol pediu calma aos torcedores do Cruzeiro e deixou a entender que deverá, sim, punir o clube peruano.

“Sobre o tema de racismo em Real Garcilaso e Cruzeiro. A Confederação Sul-Americana analisará o tema e possíveis sanções pertinentes. Pedimos tranquilidade aos torcedores do Cruzeiro. Sabemos que é repudiante”, divulgou a Conmebol.

Foto: Reprodução/Twitter
Foto: Reprodução/Twitter

Motivacional

As principais páginas do Cruzeiro nas redes sociais têm compartilhado um vídeo em que Tinga, então nas categorias de base do Grêmio, aparece bastante emocionado. O jogador foi convidado por um programa de televisão para acompanhar um dia de trabalho da mãe, que era faxineira. Sem conter as lágrimas, o volante prometeu trabalhar duro para mudar o futuro da família.

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