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Aeroporto da Pampulha atolado na crise: Terminal já registra prejuízo de R$ 16 milhões em 2016

O aeroporto responsável por abrir as portas da aviação civil em Minas Gerais e impulsionar o desenvolvimento econômico na capital mineira, no início da década de 1930, amarga hoje uma das piores crises financeiras da história.

Operando abaixo da capacidade total, o Aeroporto Carlos Drummond de Andrade — popularmente conhecido como Aeroporto da Pampulha — já acumulou um déficit de R$ 16,4 milhões somente no primeiro semestre de 2016.

A reportagem do Bhaz teve acesso a dados oficiais da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), administradora do Aeroporto da Pampulha. Em pelo menos seis meses seguidos, a administração vem fechando o orçamento no vermelho — uma média de R$ 2,7 milhões negativos ao mês.

Em abril, mês em que a companhia aérea Azul deixou de operar no terminal, a gestora chegou a registrar um déficit quatro vezes maior do que o valor arrecadado — R$ 8 milhões de despesas frente a R$ 1,9 milhões embolsados. No total do primeiro semestre deste ano, a Infraero registrou R$ 11,9 milhões arrecadados frente a R$ 28,4 desembolsados.

Em nota, a administradora argumenta a crise econômica pela qual o país atravessa, “causando a redução de negócios comerciais e a entrega de hangares anteriormente ocupados por empresas de aviação”, como um dos motivos do orçamento deficitário.

O professor de Administração da UFMG Márcio Augusto avalia os valores deficitários como “altos”, mas se diz surpreender pelo fato de o prejuízo não ser ainda maior.

“Aeroportos são empreendimentos caros. A operação envolve uma série de aparatos como brigadas de incêndio, brigadas aéreas, manutenção e aparelhagem técnica. Na aviação, tudo isso é dolarizado, o que torna a operação extremamente cara”, explica. “Se não há demanda para suprir os gastos as contas não fecham”.

Saída da Azul

O encerramento das operações da companhia aérea Azul no terminal, em abril deste ano, também é outro fator apontado pela Infraero como preponderante para a crise financeira atual — a empresa era responsável por 60% das movimentações.

Divulgação
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Nesse período, marcado pelo auge da crise político-econômica e pela alta dos desempregos no país, a Azul enfrentava baixa demanda de voos na Pampulha e chegou alegar o “cenário econômico desafiador” como o principal motivo para a suspensão dos serviços.

Para Márcio Augusto Gonçalves, o término das operações da Azul no Aeroporto da Pampulha é reflexo do baixo estímulo para o empresariado mineiro, seguimento o qual, segundo ele, teria sido “incapaz de gerar negócios suficientes para bancar os voos da companhia”.

“Seria melhor perguntar para a Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) o que motivou a Azul a retirar os voos da Pampulha”, avalia. “A resposta é porque não houve investimento necessário. Se pegarmos os voos de Confins que fazem o trajeto entre Belo Horizonte a Montes Claros (Norte), veremos que são voos lotados. Isso porque naquela região tem um grupo negocial forte que demanda o serviço, diferentemente das outras regiões do Estado”, destaca.

Decadência

No entanto, a decadência do aeroporto começou ainda mais cedo, em 2004, com a decisão do Governo do Estado de priorizar voos em Confins, no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, então subutilizado. Naquele ano, 2,3 milhões de passageiros utilizaram o Aeroporto da Pampulha, contra 290 mil em Confins, segundo dados da Infraero. Em 2014, foram quase 12 milhões em Confins, frente a 950 mil na Pampulha.

De 2007 a 2010, o aeroporto ficou parcialmente fechado para voos de comerciais devido à restrições impostas pela Anac. Em 2010, a portaria da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que estabelecia critérios para operações no Aeroporto da Pampulha, entre eles a restrição de pousos e decolagens com aeronaves acima de 50 assentos, foi derrubada.

A partir daí, a autorização de voos vem sendo avaliada caso a caso pela Anac e outros órgãos envolvidos, conforme chegam os pedidos das companhias aéreas.

Conforme noticiou o Bhaz, um projeto do Governo de Minas, cujo início de execução está previsto para meados de agosto, prevê a implantação inicial de 60 voos regionais de baixo custo de operação.

Segundo a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), que está à frente do projeto, o Executivo estadual espera embolsar R$ 1,5 milhão ao ano com a venda de passagens, além de impulsionar a movimentação de passageiros no Aeroporto da Pampulha. No entanto, a empresa pública não informou qual a participação da Infraero nos lucros do projeto e se há capacidade de contribuir para a redução do déficit orçamentário.

Baixa demanda

O Aeroporto da Pampulha fechou 2015 operando em 47% de sua capacidade total — foram 50.802 pousos e decolagens registrados em dezembro diante uma capacidade de 107.205 pousos e decolagem ao mês, de acordo com dados da Infraero.

A Infraero fechou o primeiro semestre deste ano com o menor número de operações para o período dos últimos quatro anos — foram 21.676 pousos e decolagens, o que corresponde a 20% da capacidade total do terminal. Na primeira metade do ano passado, 440 mil passageiros passaram pelo terminal ante 182 mil neste ano — uma queda de 59% no número de passageiros.

Atualmente, apenas uma companhia aérea opera no Aeroporto da Pampulha.

Questionada pelo Bhaz, a Infraero informou, em nota, que estão sendo executadas medidas para que novas companhias aéreas passem a operar no terminal.

“O aeroporto passa por adequações de infraestrutura para aprimorar o recebimento de eventuais novos parceiros tanto para operação de voos quanto para negócios comerciais no terminal”, diz um trecho do texto divulgado.

A empresa ressalta ainda que foi solicitada à Anac a abertura de novos voos, os quais devem começar a operar no aeroporto da Pampulha nos próximos meses.

Guilherme Scarpellini

Guilherme Scarpellini é redator de política e cidades no Portal Bhaz.

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