Desculpe o transtorno, mas preciso falar de Manipulação

Imagem e texto em: http://yogui.co/10-estrategias-de-manipulacao-em-massa-utilizadas-diariamente-contra-voce/

O Brasil vive um dos momentos mais complexos que a modernidade nos traz. Ao mesmo tempo que uma parcela (que sequer é detentora do capital) tem acesso à muita informação numa velocidade exorbitante – o que seria algo a se comemorar -, há um agendamento de informações que nos manipula e brinca com nossa memória.

O impacto que a mídia e as redes sociais têm em nossas mentes e a velocidade com que nos vemos obrigados a responder a cada “start” dado, é uma forma de nos controlarem, ou no mínimo nos distraírem. São temas agendados e superficiais propostos à uma militância de internet. E caímos feito patinhos. Senão, vejamos a dedicação com que nós, esquerdo-cibernéticos debruçamos em “comentar” uma pequena carta merchã (ou simples lembrança do coração – por que não?) de Gregório Duvivier à Clarice Falcão.

Por que temos de nos colocar na posição da obrigação de comentarmos sobre tudo? Por que temos que, semanalmente, apontar o privilegiado, branco-Leblon como nosso inimigo número 1? Será que não somos nós, militantes cibernéticos, os manipulados da vez?

Será que não é vantajoso para a Direita nos colocar nessa situação? Se não, observem as colunas de Rodrigo Constantino e até Danilo Gentili sobre o caso… Percebem?

Uma garota escreveu sobre Gregório: “Já sei que vocês odeiam ele, leio isso todas as semanas, e aí?”. E eu endosso: E aí, minha gente?

Tudo o que lemos sobre feminismo, toda a nossa experiência de Carolina de Jesus, Margarida Alves, Dandara, Maria Quitéria e Simone de Beauvoir irá mesmo desembocar em deslegitimar um Gregório, uma Clarice, uma JoutJout?

Que militância é essa que cobra sentimento de nacionalismo mas que não se apega á história da mulher latino-americana e sim no “lacre” Beyoncé-norte-americano, ou dos “Rappers cordão de ouro” com óculos de “Turn down for what”?

A nossa vida não é um lacre estadunidense. Nossa colonização e nossa emancipação não se deram no modus norte americano. O Brasil é o país do Canto das Três Raças, de Darcy Ribeiro, de Guimarães Rosa, Zumbi, Maria Bonita, de Anita Garibaldi, Trombas e Formoso, Via Campesina, de Malês, Dom Helder, dos Filhos de Gandhi.

Aqui é Tamóios, Aimorés, Potiguares, Alfaiates, Marimbondos e Luis Gama. Terra de holandesa aguerrida no calor do Ceará e de saudosismo à Inconfidência no tempo chuvoso de Ouro Preto.

Enquanto nos dispersamos, nos desconectamos culturalmente de memórias como a Revolta de Filipe dos Santos na nossa Vila Rica, a Samarco segue impune ao crime de Mariana-MG. E nós preferimos focar no “batom mais vermelho de JoutJout”.

“Ah, mas dá pra criticar tudo”. Sim, e sobretudo dá para auxiliarmos o momento histórico, ao invés de compactuarmos com a dispersão. Eu modestamente acho que cabe bom senso às pessoas brancas, ricas e privilegiadas dado o espaço que ocupam. Bom senso para respeitarem espaço de fala dos negros, para afunilarem seu trabalho e dedicarem-se, de forma empática, a criar oportunidades reais à quem não nasceu no Leblon e não teve impulso inicial dos pais para se tornar artista, como eles.

Ponto.

O que se pode fazer é ser mais astuto e aproveitar dos espaços que se abrem por essas pessoas, afinal, eles se posicionam ideologicamente ao lado. E isso é válido.

Aproveitar do espaço e arregimentar forças para as nossas pautas: Focarmos nos +54% (índice de violência contra a mulher negra que aumentou nos útimos anos) versus os -10% (índice de violência contra a mulher branca que diminuiu). Porque essa questão é a questão da vulnerabilidade e do racismo, das nossas vidas, isso é nosso cotidiano. Nós falando sobre “nosotros”.

Mas daí debruçarmos um dia inteiro para especular sobre quem é Gregório e quem é Clarice? E pularmos na frente para defender uma Clarice que sequer pediu para ser defendida, enquanto o país quebra ao meio? Não é ser meio manipulado pela rede social demais, não? Não seria dedicar energia demais ao que claramente é uma propaganda “fofa” do filme deles?

O que temos feito para nós enquanto coletivo senão sermos guiados pelo que nos impõem, criamos mais tretas e alimentamos a divisão? Quem ganha com isso se não for o Coronel?

Para Temer, para Cunha, para os EUA, para quem quer tomar o Pré-Sal brasileiro, que se explodam as mulheres negras, e também que se explodam Gregório-hetero-Leblon e Clarice-Jazz-desengonçado. Quem se importa com essa novela semanal? 

 

Isso não quer dizer que não devemos nos reafirmar todo o tempo pela causa Feminista e pela negritude.

O que tento aqui dizer é que se o Presidente interino pode nos retirar a CLT inteira, que direitos reais da mulher, do negro e LGBT estão na iminência de retroagir, é para a burguesia, muito mais vantajoso ver nossa desarmonia nesse momento, claro!

E é nesses conflitos que a Direita tem achado espaço para nos manipular.

A esquerda manipulada, rachada e devastada segue sendo terreno fértil para os que nos odeiam.

É hora de sair do “loop” que nos colocaram, é hora de estourar a bolha da internet, é hora de sair da caverna e pedir arrego para quem veio antes de nós e já dizia:

“A verdadeira capacidade de um revolucionário se mede por sua habilidade de encontrar táticas revolucionárias adequadas para cada mudança de situação.
Che Guevara

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Luara Colpa tem 29 anos, é brasileira e colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

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Luara Colpa

Luara Colpa é brasileira, colunista no Bhaz e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.