Home ColunasLuara ColpaRede Globo e a romantização dos abusos

Rede Globo e a romantização dos abusos

Globo romantização dos abusos

Esta semana assistimos a uma denúncia feita por uma figurinista da TV Globo. Ela relatou que o ator José Mayer tocou suas partes íntimas sem seu consentimento, entre outros abusos psicológicos que se seguiam há meses.

Não pretendo entrar no mérito da denúncia pois acredito que já estão se dando os encaminhamentos necessários, e cabe sobretudo à Polícia e à Justiça darem cabo do caso concreto.

Gostaria, no entanto, de poder ir além do episódio e focar em uma frase do ator que chamou atenção: “Quando questionado sobre o assédio, ele respondeu que estavam confundindo-o com o seu personagem da novela”.

Pois bem… Esse ator há muitos anos cumpre papéis que ele chama de “sedutores”. A TV Globo encabeça esse discurso de “galãs irresistíveis”. As revistas voltadas ao público feminino corroboram com o estigma, reforçando o “charme” de personagens que são simplesmente abusadores.

Leia também:  FEMINISMO E AS CORTINAS A SEREM DESPIDAS

Vejamos algumas das capas dos últimos quase 30 anos:

1 – Mulheres em disputa: “Quem vai conquistar o coração de Osnar?”

“Até em 1989, José Mayer não dava sossego. Olha lá ele estampando a nossa CONTIGO” (Reprodução/Especial Contigo)

2 – Romantização da “Cinderela” e a sedução masculina como estratégia de dominação

Reprodução/Especial Contigo

3 – O “não” feminino é motivo de vingança. Na ficção, os personagens não aceitam ser rejeitados, não aceitam um simples “não”

Reprodução/Revista Amiga

4 – Ciúme é naturalizado

Reprodução/Blogger Revista Amiga

5 – Muito naturalizado

Reprodução/Site Revista Minha Novela

6 – A Homofobia é outro problema. A construção de personagens “machões” responde sempre com a naturalização da violência aos homossexuais

Reprodução/Blogger Revista Tititi

Mas, em meio a todas essas capas, um personagem me chamou ainda mais a atenção. O ator interpretou Pedro na novela Laços de Família, em que se envolvia com uma menor de idade vivida por Deborah Secco.

Leia também:  NÓS, OS CAPITÃES DO MATO

Nessa trama, especialmente, o abuso era drástico. Além de “seduzir” e se envolver com muitas mulheres, criando rivalidade entre elas, o personagem ainda naturalizava o fenômeno “galã coroa + novinha”.

Pedro seduzia e violentava todo o tempo. Dizia que estava “dando um corretivo” à adolescente. Coisa que a Globo é expert em suas tramas.

Video Show/TV Globo

Pra além disso, na novela Fera Radical, o personagem naturalizava a própria violência física, romantizando-a: “Ele bate, ela gosta…”.

Reprodução/Para Recordar Novelas e Famosos – Blogger

São muitas décadas de criação de personagens que romantizam os abusos e o machismo. Que naturalizam a dominação, a objetificação das mulheres, a rivalidade entre elas, a violência física e psicológica.

Em 2017, não seria diferente:

Reprodução/Site Minha Novela + Blogger Revista Tititi

 

Marcella Rica em cena da novela A Lei do Amor com José Mayer (Reprodução/TV Globo)

Esse seria então o “Tião”, personagem mais recente de José Mayer na Globo, a quem o ator destina a responsabilidade pelo assédio sofrido pela figurinista.

Leia também:  SE ELES FOSSEM MULHER

São muitos os assédios. Eles são perpetuados por Mayers, Tiãos, Pedros, Fernandos, Cláudios, Marcos e tantos outros, dentro e fora da TV. As emissoras e as revistas de forma irresponsável seguem há décadas criando e repercutindo personagens abusadores travestidos de “sedutores”. Seguem valorizando o estigma do galã agressivo e romantizando o abuso.

São, portanto, co-responsáveis pela violência contra a mulher dentro de seus camarins, mas também aqui, do lado de fora.


Luara Colpa é brasileira, colunista no Bhaz e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.

Avatar

Luara Colpa

Luara Colpa é brasileira, colunista no Bhaz e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.

Comentários