O escracho cibernético, um método incontrolável do punitivismo

THINKSTOCK/BBCBrazil

Os escrachos virtuais têm ganhado muita força nas redes sociais. Há uma sensação de “segurança” e impunidade que promove isso. Sentimos que atrás de uma tela de computador ou celular estamos salvos e, então, dizemos tudo o que pensamos sem raciocinar muito, sobre política, sobre comportamentos…

O mesmo ocorre em temas tão importantes como Feminismo e seus métodos de denúncia.

Todos sabemos que a Justiça brasileira é falha, elitista, racista e machista. Usa-se então, a opção do escracho virtual para fazer o que a Justiça formal não faz: punir agressores, estupradores, assediadores. Método também importante. Potente e aglomerador.

Juntas temos mais coragem pra denunciar. Além de ser uma resposta a uma violência sofrida, o escracho é um método de autodefesa, sobretudo!

Acontece que não podemos prever as consequências de um escracho virtual, aí que mora o problema. A maioria das vezes o seu impacto foge do que se planejou e toma proporções imensuráveis.

Antes de escrever aqui, ouví o relato de uma amiga vítima, que já escrachou um ex-namorado.
E ela pontuou algumas coisas interessantes:

1- FALTA DE CUIDADO COM A PRÓPRIA VÍTIMA: “A vida da mulher é muito mais devassada que a do agressor”, disse ela. Toda a sua privacidade é destruída. Não há sigilo ao nome da vítima que dure muito tempo. Logo toda a cidade sabe quem é a vítima, que sentirá a exposição excessiva. Os comentários maldosos recairão sobre ela por tempo indeterminado trazendo ainda mais sofrimento;

2- NÃO HÁ REGRAS CLARAS: O banimento de homens de certos lugares e o impedimento de se explicarem – direito básico de qualquer pessoa num Estado Democrático de Direito – demonstra uma Medida de Proteção ou uma Medida Punitivista? Queremos de fato segurança e conforto para a mulher-vítima ou há mais sede de vingança pelo agressor? Quem nos dá competência para destrinchar casos, inquirir, processar e julgar?;

3- O IMPACTO DEVASTADOR NA VIDA DAS MULHERES AO REDOR DO HOMEM: As mães, as namoradas – as mesmas que sofrem com revistas vexatórias em presídios e que são “condenadas” junto ao cara – entram em depressão e vivem o profundo isolamento social.

E ela arrematou: “A exposição não minimiza o sofrimento, ela maximiza e dá poder sobre o assunto à quem não tem nada com isso”.

“Fazer com que uma multidão sem rosto saiba do ocorrido não faz doer menos. O que eu passei dói em mim até hoje. E dói porque as pessoas se sentem no direito de ainda comentarem sobre isso, afinal eu dei de bandeja ao público. E dói nele, mais do que deveria doer. Dói muito e dói até hoje. Em momento nenhum, quando eu escolhi denunciar, eu quis infligir um sofrimento eterno, que perdurasse tantos anos depois do ocorrido.” (Em relato público no Facebook)

Reprodução/Flickr fedewild

Se prevíssemos o fim da “pena”, talvez o escracho fosse eficiente, mas ele não é. Sobretudo porque ele não estuda a materialidade de nada, não investiga e o pior: pode virar uma pena perpétua – para ambos. Pauta que nos posicionamos exatamente contra!

A blogueira feminista Camila de Magalhães escreveu em 2013:

“Parece-me inadmissível que um movimento que tenha por base a defesa dos direitos humanos inverta o quadro e passe a ser o violador desses direitos humanos. Presunção de inocência não é conversa de advogado e não é meramente assunto de ‘tribunal’. Direitos fundamentais não funcionam apenas como proteção do indivíduo contra o Estado, mas também, na mais elementar das noções conhecidas sobre estes, funcionam também nas relações entre os cidadãos.

Nessas horas, grita lá no fundo para mim, sempre, a mesma expressão: ‘esquerda punitiva’. A ideia devia ser uma preocupação constante dos movimentos sociais, que, construídos pelo oprimido, conhecem a força do uso do sistema punitivo e das violações de direitos humanos. Infelizmente, a realidade tem sido que a ideia, de um guia, passou a ser essa armadilha constante em que caem os movimentos.”

A verdade é que estamos criando espaços insustentáveis de mega-exposição de nossas vidas.

Ainda não sabemos as consequências, mas creio que fomentar o descontrole “a la Black Mirror” tem parecido no mínimo irresponsabilidade de uma geração que se esconde por trás de uma tela e no meio de uma multidão. Uma multidão que acredita que por mais que se exponha é – de fato – invisível. E não é!

Botemos a mão na consciência: Nós participamos de Hashtags e depois vamos embora. E talvez isso seja um ato irresponsável. Afinal, qual acompanhamento de fato oferecemos às vítimas após abuso?

Justiçamento com as próprias mãos nunca deu muito certo.

Pensar em uma Justiça restaurativa, talvez seja uma solução, dentro e fora da Justiça Comum. Propostas de mediação de conflitos com a participação dos envolvidos, (mais advogados, psicólogos, familiares etc), talvez seja um caminho de fato comprometido e menos espetaculoso.

Sair dessa ótica e construir espaços seguros, úteis e funcionais que – de fato – abracem a vítima, talvez seja mais viável que a prática do linchamento que está em voga.

Ligue para a vítima hoje, ofereça-a um passeio, um lanche, serviços, orientação jurídica, médica, psicológica, acolhimento, uma vaquinha para custos que ela precise… uma amizade, e até a denúncia. Mas pense em fazer isso primeiro, antes de alimentar a própria hashtag do ódio – que convenhamos, fala mais sobre punitivismo, que sobre solidariedade!

Ainda há tempo!


Luara Colpa é brasileira, colunista no Bhaz e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.

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Luara Colpa

Luara Colpa é brasileira, colunista no Bhaz e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.