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[Bhaz em série] Internet: a Guaicurus do século 21 – Sexo em BH, parte 11

Por Jefferson Lorentz

O Bhaz contou ontem a história de quatro garotas de programa que ganham a vida oferecendo seus serviços em sites especializados neste tipo de serviço, como Agenda 31, GPG e BH Models. O mais famoso site da capital, o BH Models, nasceu em 2003. O criador, Fernando Resende, cursava  publicidade e, na época, fazia site de carros antigos, quando, em uma oficina, conheceu a esposa do mecânico, que era cafetina e agenciava mulheres. “Ela me pediu para criar um site para ela. Por curiosidade, aceitei”, conta ele, que teve que estudar o mercado, na época dominado pelos já extintos Alô Relax e Mclass.

A internet não era bem vista naquela época. Além disso, por uma professora publicitária, Fernando foi desaconselhado a investir na internet como mídia. “Na época, eu até achei engraçado. A esposa do mecânico acabou mudando-se para Europa e o projeto ficou comigo”, conta Fernando.

Algum tempo depois, Fernando Resende fez uma viagem de ano novo a São Tome das Letras, no Sul de Minas. Foi quando teve o “insight”  do nome do site e da decisão de levar adiante o projeto. “Eu falei para um amigo que eu tinha que  trabalhar com o que gostava: carro  e mulher. Naquele instante, veio a ideia de fazer classificado de putas. O nome surgiu de repente. Queria algo mais elitizado, nada barango”, relembra ele ao contar como foi o nascimento do BH Models. Para a identidade visual, ele optou por usar pin-ups, figuras femininas muito populares nos anos 50, em lugar das fotos que, na opinião dele, eram feios e agressivos, pois mostravam mulheres de pernas abertas ou em fotos de sexo explícito.

Acreditando que a ideia ia ser um sucesso, Fernando chegou a ligar para cada uma das cerca de cem 100 mulheres que anunciavam na seção “relax” do jornal “Estado de Minas”. “Nenhuma aceitou. Fiquei decepcionado e deixei para lá por uns seis meses”, comenta. Neste tempo, ele chegou a ir atrás da mulher que tinha dado a ideia do site, mas ela ainda estava na Europa. Nesse meio tempo, acabou conhecendo uma amiga dela, que topou convidar três mulheres para fazerem fotos em um motel. Elas aceitaram e ele acreditou que ia se tornar algo como o dono da Playboy. “Achei que todas iam querer dar para mim”, afirma Fernando Resende, que teve uma decepção com as meninas, ao descobrir que as profissionais do sexo eram mesmo muito profissionais. “Elas tiravam a roupa e vestiam logo depois das fotos. E não tinha nenhum papo com conotação sexual. Totalmente profissionais, como você não imagina”,  relembra.

Com essas  três mulheres foi que o BH Models entrou no ar. Fernando acabou não cobrando delas o valor da publicidade que fizeram no site, que só deslanchou quando teve a ideia de colocar o endereço do site na seção “relax” do jornal. Com isso, outras meninas começaram a procurar o site. Pelo primeiro anúncio, que ficou no ar durante um mês, ele cobrou apenas R$ 15. Naquele tempo, as fotos digitais ainda não eram populares como hoje. Para serem colocadas no site, as imagens precisavam ser escaneadas.

Entre 2003 e 2006, o site era uma brincadeira que dava um retorno financeiro bem pequeno, só tornando-se um negócio em 2007, quando Resende, agora em parceria com um amigo, decidiu cobrar R$ 30 por anúncio mensal. “Decidimos cobrar este valor e somente cinco meninas das 30 que tínhamos ficaram no site. Todas se recusaram a pagar”, relembra. Três dias depois, todas as que haviam retirado os anúncios voltaram. Fernando Resende havia descoberto o pulo do gato, pois quando voltavam, as meninas relatavam que estavam de volta porque sentiam falta dos clientes ligando e dizendo que as tinham visto no site.

Uma tática que ele ensinava para as mulheres medirem a popularidade dos anúncios da internet era usar um nome no site e outro no jornal e detectar de onde viam os chamados. A internet começava a ganhar mais espaço e ainda tinha o custo da divulgação bem abaixo do que o jornal cobrava –  algo em torno de 16 vezes menos. No BH Models, um anúncio sem destaque custa hoje R$ 400 por mês; com o destaque, chega a R$ 900. O site, que já chegou a hospedar 140 anúncios, tem um número flutuante entre 68 e 80 anunciantes.

Site pretende oferecer espaço reservado para que clientes e garotas possam se comunicar de forma sigilosa (Reprodução/Internet)

Popularização começou a partir de 2007

Entre os anos de 2007 e 2010, com a popularização do site, cresceu a propaganda boca a boca, com uma garota trazendo a outra. Para acompanhar o crescimento do número de anunciantes, foi preciso criar procedimentos, como assinatura de contrato e o envio de fotos que mostrassem que o corpo divulgado pertencia mesmo à pessoa que estava na foto. Até um questionário foi incluído. Por ele, as mulheres respondem sobre suas preferências na cama – anal, vaginal, se oral, com ou sem camisinha; se faz e recebe e se finaliza ou não engolindo o sêmen.

O questionário ainda pergunta sobre que fetiches que a mulher aceita realizar: acessórios, banho de língua, marrom, dourado, chuva de prata, beijo na boca e beijo grego, além de dominação, luta mista, massagens, roupa erótica, podolatria, inversão de papéis, strip-tease e outros, que deixariam muitos envergonhados. Outra parte picante do questionário é quando elas informam do que gostam na cama: gemer, arranhar, falar sacanagem, dominar, ficar de quatro, ficar por cima ou por baixo, e se curte pegada mais forte ou um sexo grupal.

O contrato também informa que o site limita-se a prestar serviços de publicidade para a anunciante, não oferecendo ou propondo serviços de agenciamento a nenhuma das clientes. Além do mais, o contrato deixa claro que o site não recebe valor algum pelos serviços prestados pelas mulheres.

Outra virada importante foi quando o site passou a exigir que as fotos fossem profissionais, não sendo permitidas imagens caseiras ou feitas por celular. “Isso apareceu quando a fotografa, Jana Vieiras, me mostrou o glamour deste serviço. Ela fotografou as universitárias e mulheres no estilo “modelão” e as imagens começaram a fazer muito sucesso. Com isso, o anúncio passou a custar R$ 80, relembra Resende. Foi também mais ou menos nessa época que o site ganhou a interface que tem hoje.  “Está mais complexo e as meninas estão com mais habilidades para mexer na internet. “No início, as garotas não eram muitos íntimas da internet, o que veio a acontecer somente com o aparecimento das redes sociais, como o finado Orkut”.

Um mercado muito flutuante

De acordo com o publicitário Thiago Assis, que também trabalha no desenvolvimento do site, as meninas circulam muito de uma cidade para outra. “Depois de algum tempo, muitas delas deixam de ser novidade nas cidades onde estão. Então, vão para outros locais, sempre passando temporadas em cada cidade”, comenta. No seu entendimento, BH acaba atraindo muitas mulheres, entre outras razões, porque o investimento em publicidade aqui não é tão alto como, por exemplo, o exigido em São Paulo, onde um anúncio chega a custar R$ 1.000 por semana. “Aqui é mais barato e elas podem cobrar um valor alto pelo programa”, afirma Assis.

Como o mercado tem muito anúncios  fake, o BH Models sempre pede ao menos uma foto de rosto para a garota para não restar dúvida de que as fotos publicadas são, de fato, de modelos  reais. Toda a negociação do anúncio é feita presencialmente, inclusive para a atualização de fotos.

Para ele, o sucesso da internet no mercado do sexo é que, ao contrário do jornal, o cliente teria que ligar para saber mais detalhes ou mesmo arriscar e ir ao encontro sem ter certeza do que encontraria. Ou então, ele iria a uma boate para ver a menina e tirá-la de lá para fazer programa, o que acaba gerando mais gastos.  “A internet é uma facilidade. Você vê a foto e sabe o que vai encontrar lá. Ainda há mulheres que têm o privê e oferecem uma bebida, ou banho. Isso é sensacional”,  enumera ele as vantagens para quem opta por buscar mulheres na internet.

Se é vantajoso para clientes, é também atraente para as mulheres, pois os sites se tornaram saídas mais fáceis para elas. “Ela é dona do negócio dela. Ninguém a obriga a fazer nada. Ela coloca o telefone dela e o retorno é todo dela. Ela não tem mais o risco da rua, de se expor no hotel, na boate, onde muitas estão cansadas, pois têm hora para chegar e até para sair do local. No site, ela faz a agenda dela”, comenta ele, lembrando que o twitter, após liberar o conteúdo sexual, tornou-se seu maior concorrente.

Divulgação enfrenta o preconceito 

A divulgação do site sempre foi uma questão complicada. Segundo Fernando Resende, todo mundo tem um certo preconceito e prefere não associar o negócio à prostituição. Todos conhecem o site, mas preferem não dizer isso abertamente. “Eu cheguei a fazer a divulgação dentro de banheiros masculinos, em bares de BH. Quando o cara ia ao banheiro e voltava para a mesa, o site virava o assunto. Mas, quando os donos de bares e restaurantes famosos da cidade, como o Porcão e o Distrital, do Cruzeiro, descobriram, pediram para retirar. Taxista também não gosta de anunciar. E, quando você busca uma empresa de outdoor, eles aumentam o valor quando percebem o nosso negócio”, diz Resende em tom de desabafo.

Ele conta que chegou a procurar uma empresa de camisinhas, mas não teve sucesso para fazer uma parceria. “Eles me responderam dizendo que o conteúdo era inadequado”. Para ele, muitos ainda confundem e acham que o site agencia mulheres e não entendem que a página é apenas de anúncios, sem nenhuma ligação com os programas. “Até dono, gerente de hotel, motel, me disse que não quer ser conhecido como hotel ou motel de puta. Então, fazer negócio assim não é fácil”, afirma Fernando, segundo quem muitos destes estabelecimentos têm, inclusive, “booking” de garotas acompanhantes para indicar aos hóspedes.

Para tentar driblar o problema com a divulgação, em janeiro deste ano, incentivado pelo colega de trabalho Thiago Assis, Resende decidiu investir em cerveja artesanal, com o nome do site entrando no rótulo da cerveja. “Estamos falando do site sem falar diretamente de acompanhante. A cerveja acabou virando presente para os amigos. Como BH tem destaque no mercado de cervejas artesanais, achamos que seria uma boa ideia. O primeiro lote foi colocado em alguns bares da cidade, mas a feira especializada não aceitou a cerveja”.

Para divulgar o site, o jeito foi investir em cerveja artesanal (Reprodução/BHmodels)

Garotas são de quatro tipos

Responsável por receber as meninas que farão anúncio no site, Rafael Vieira dividiu o público da agência em quatro grupos. O grupo 1 é formado por meninas que vieram do interior do Estado ou de outras regiões do país. Todas têm uma condição social muito baixa. Geralmente,  essas meninas não sabem fazer praticamente nada e são levadas ao local por uma agenciadora, as conhecidas cafetina ou cafetões. O nível 2 é o das mulheres casadas. Algumas são levadas pelos próprios maridos e namorados. Muitas, segundo Rafael, vão escondidas. Dizem para os maridos que são enfermeiras, cuidadoras de idosos ou que trabalham de secretária. Eles contam que chegam a sair de casa com uniforme de uma empresa, mas, na verdade, estão indo para o privê aguardar a chegada de clientes. Muitos privês funcionam em prédios comerciais da cidade. Segundo eles, entre os casais que já passaram por lá estava um senhor de 60 e poucos anos que acompanhava a esposa bem mais jovem que ele, na faixa dos 20 anos. Foi ele quem levou as fotos da esposa nua em um CD e escolheu quais seriam publicadas. Outro caso que chamou a atenção da empresa foi o de uma mãe que levou a filha de 18 anos e, ali mesmo, foi ensinando a ela o que fazer e como  preencher a ficha de cadastro.

O nível 3 é formado por universitárias com idade entre 23 anos e 30 anos, grande parte delas estudante de direito. Elas têm uma condição social boa e são mulheres bonitas, afirma Vieira. Segundo ele, muitas vêem na atividade um jeito de ganhar um dinheiro mais fácil. Elas gostam de usar roupas e acessórios de marca, como bolsas que ultrapassam os R$ 5 mil. O problema é que o valor que recebem da família não dá para manter o estilo de vida que almejam. Ele relata que neste grupo teve a oportunidade de ver mulheres que chegavam ao escritório vestidas com o uniforme de um falso emprego, para disfarçar, e justificar para a família, a independência financeira que a prostituição propicia. “Na verdade, elas saem de casa, mas seguem para os flats”, revela o responsável pelo atendimento na BH Models.

O último nível, o 4, é formado pelas ninfomaníacas, que não se satisfazem com o marido e procuram outros homens, mas, desta vez, cobrando. “Essas são as que gostam de dinheiro e sexo e acabam fazendo até mesmo na brincadeira”, afirma. Responsável pela parte de atendimento, ele se diverte ao lembrar a diversidade de situações vivenciadas no local .”Tive uma cliente que tinha 67 anos, mas com cara de inacreditáveis 20 anos”, relembra ele. Rafael Vieira também aproveita para contar a história da garota de programa que foi contratada por um desembargador de justiça da capital. O fetiche do desembargador era se passar por um escravo da garota, que a obrigou a introduzir no ânus dele um parafuso.

Síndico queria expulsar empresa do prédio

Desde maio deste ano funcionando em uma sala ampla no bairro Santa Efigênia, o negócio despertou o preconceito dos donos do prédio comercial. O síndico do prédio, que é também marido de uma das filhas do dono do imóvel, incomodou-se com o adesivo do site  –  a ilustração de uma mulher usando um chapéu com a perna flexionada – colado na porta do escritório.

Segundo Fernando, o síndico, que é marido da proprietária do imóvel, teria dito que mulheres vulgares e totalmente tatuadas estavam entrando no prédio. “Eles acharam que estávamos fazendo filme pornô no local”, comenta. O síndico teria, inclusive, procurado a delegacia de crimes digitais para saber se havia alguma ilegalidade nas atividades. Diante da situação, a equipe do site tentou contornar o mal entendido, mostrando documentos sobre o negócio e lembrando, inclusive, que eles trabalhavam de portas abertas. O problema teria começado quando uma anunciante foi ao local vestindo um shortinho jeans e deixando à vista suas tatuagens.

Após algumas reuniões, o síndico concordou com presença deles no prédio. Mas, um dia depois, pressionado pela esposa, o síndico exigiu que eles se retirassem. Assim, desde o final de setembro, o site atende em uma sala na Savassi. Para evitar qualquer tipo de constrangimento, o proprietário foi avisado sobre as atividades que seriam ali desempenhadas. “Para nós, fica a questão do preconceito. Mas também é uma boa estarmos aqui na Savassi, pois as meninas querem focar no cliente que circula por essa região”, ameniza Resende.

Apesar da internet oferecer autonomia às anunciantes, muitas mulheres começam oferecendo seus serviços na rede por meio de cafetinas que agenciam mulheres e fazem os anúncios. “Muitas meninas não têm contato nem dinheiro para fazer fotos e pagar os anúncios. As cafetinas, que são ex-prostitutas, então pagam para elas, cobrando o valor depois”, revelam. Uma mesma cafetina chega a ter um casting que anuncia em vários sites ao mesmo tempo, só trocando os números de telefones. Este tipo de prática é sempre vista no escritório. Além das cafetinas que introduzem as novatas no mercado, muitas mulheres também são apresentadas ao mercado do sexo pago na internet por meio de outras garotas, que já atuam e acabam dando os macetes para sobreviver no mercado disputado da prostituição na web. Essa segunda forma de ser introduzida no mercado do sexo é uma espécie de associação entre novatas e veteranas.

Pelo site, cliente pode opinar sobre as qualidades de cada uma das garotas (Reprodução/Internet)

 O futuro

Com as inovações que se sucedem diariamente no universo da internet e das ferramentas de comunicação, o BH Models, que chega a registrar, por dia 10 mil visitantes únicos, pretende, até o final deste ano, implementar mudanças no site. O objetivo deles é criar uma rede social para que anunciantes e clientes interajam de modo seguro. Eles ainda pretendem disponibilizar conteúdos em vídeo e oferecer fotos picantes para os clientes que tenham senha e login. Por uma acesso restrito querem criar chat interno, onde o cliente possa ver o histórico de conversa e a garota possa interagir com o cliente quando este estiver on-line – tudo dentro da mais alta privacidade e segurança. “Como grande parte dos clientes são casados, fica complicado salvar o contato delas no telefone ou mesmo ter um aplicativo para este tipo de serviço. Com o novo site, a ideia é que o cliente mantenha o contato com elas por meio de um espaço restrito onde vão ser salvas as conversas anteriores”, adianta.

Sobre o futuro do site, Fernando não pensa em oferecer espaço no site para travestis, mantendo-o somente voltado para anúncios de mulheres. “Eu criei o site primeiro porque sou hetero. Não trabalho com ideia de colocar travestis, mesmo porque, como distribuímos adesivos e cerveja, ninguém aceitaria colocar nossa marca se abrirmos o espaço as garotas T”, comenta ele. A seu ver, a presença de travestis roubaria grande parte dos clientes das mulheres. “Se eu coloco travesti, os caras vão parar de falar do site para não pegar mal. Mas é comum as mulheres comentarem aqui no escritório que muitos caras casados e solteiros as procuram para fazer inversão e que quando tem travesti no meio, a mulher acaba deixando de ser opção para os chamados ‘heteros’.”

Leia as outras reportagens do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH

Parte 1 – Mistérios da Guaicurus 

Parte 2 – Fantasias e fetiches

Parte  3 – O sobe e desce de travestis e homens

Parte 4 – Um mercado também em crise

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

Parte 6 – New Sagitarius, ícone de uma época

Parte 7 – Guaicurus não é só sexo, diz pesquisadora da UFMG

Parte 8 – O sobe e desce a céu aberto na Afonso Pena

Parte 9 – Os donos da Afonso Pena, uma puta, uma virgem e muito mais

Parte 10 – Internet: o mercado livre do prazer, para todos os gostos

Jefferson Lorentz

Jefferson Lorentz

Jeff Lorentz é jornalista e trabalhou como repórter de pautas especiais para o portal Bhaz.

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