Home Notícias Minas Gerais Diretora de Vigilância Ambiental nega que febre amarela tenha fugido do controle

Diretora de Vigilância Ambiental nega que febre amarela tenha fugido do controle

O aumento no número de mortes por febre amarela vem crescendo cada vez mais em Minas Gerais, fato comprovado nos Informes Epidemiológicos divulgados semanalmente pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG).

No boletim desta semana, por exemplo, foram registrados 25 novos óbitos, número que, se comparado com o da semana anterior, significou um crescimento de 150%. Para entender o motivo do aumento do número de óbitos e compreender a febre amarela no Estado, o Bhaz entrevistou Marcela Lencine Ferraz, diretora de Vigilância Ambiental da SES-MG desde 2012 e responsável pela vigilância e controle da doença em MG.

Qual a análise da SES-MG sobre o aumento de mortes por febre amarela no intervalo de uma semana?   

O que de fato houve foi uma grande atualização dos dados da doença na SES-MG. Acontece da seguinte forma: os municípios notificam o Sistema Único de Saúde (SUS) sobre as novas ocorrências da doença, seja cura ou óbito, e depois que esses dados são repassados às secretarias. Quando avaliamos as mortes, constatamos que algumas aconteceram há algum tempo, porém ainda não estavam contabilizados no Estado. As notificações são trabalhadas em 60 dias para que, assim, o caso possa ser concluído e a secretaria notificada da forma correta.

Por qual motivo estamos tendo o aumento de febre amarela em MG

A febre amarela é um doença grave e que, em Minas Gerais, possui 36% de letalidade. A falta de imunização por parte das pessoas é o principal motivo para o registro de novos casos, mas são os indivíduos da faixa etária acima dos 40 anos que estão adoecendo mais e também vindo a óbito na maioria das vezes. No entanto, é preciso destacar que todas as faixas etárias estão contraindo o vírus da doença, porém nos grupos etários mais velhos, o óbito é maior. Por ser uma doença viral sua única forma de controle é a vacinação. Descobrimos que a cobertura vacinal estava muito baixa e precisávamos intensificar os trabalhos. Desde o ano passado, estamos aumentando os números e já atingimos 90% da população vacinada. Com isso, esperamos que nos próximos períodos não haja o aumento da doença.

Podemos afirmar que houve a perda de controla da febre amarela?

Não, o que tivemos em MG foi a baixa cobertura vacinal. Com mais pessoas imunizadas, a situação tende a melhorar e os casos diminuírem. Porém, temos 10% não vacinados e, caso o vírus circule onde elas estiverem, novos casos serão registrados. Por isso falamos que em Minas a febre amarela exige atenção e que a vacinação é importante de ser intensificada nos locais onde as pessoas ainda não imunizaram.

Febre amarela
Desde julho do ano passado, mosquito da febre amarela já matou 133 pessoas em Minas (Divulgação/Agência Brasil)

Por que a zona rural é o local com mais registros da doença e por qual motivo os casos estão sendo registrados somente agora sendo que as pessoas moram nestas regiões há anos?

Percebemos que nestes locais concentram-se as pessoas que ainda não se imunizaram, como os trabalhadores rurais e aquelas que fazem ecoturismo. Como elas não vão aos postos de saúde, nós vamos até elas. São mais de 1,9 milhão de pessoas não imunizadas, com a maioria residindo na zona rural. Também temos pessoas da área urbana sem vacinação, porém elas têm mais facilidade de irem aos postos. Sobre os moradores da zona rural se infectarem agora, está relacionado à circulação do vírus. Anteriormente, ele não circulava naquela região e, consequentemente essas pessoas não adoeciam. Agora, o vírus vem circulando em diversas áreas do Estado. Por conta disso, reafirmamos que mesmo nas cidades onde não há registro de febre amarela, as pessoas devem se imunizar.

A SES-MG já confirmou casos de pessoas que já se imunizaram mas que contraíram a febre amarela. Mesmo assim, podemos afirmar que a vacinação de fato previne a doença?

Sim, apesar dos 11 casos registrados de pessoas que se vacinaram mas contraíram a doença, podemos afirmar que a vacina previne contra a febre amarela. Na literatura, sua eficácia fica entre 95% e 98%. Porém, pequena parte da população não produz a imunização a partir da vacina. Estes casos estão sendo investigados em conjunto com o Ministério da Saúde. Com isso, saberemos se a pessoa tinha alguma predisposição ou alguma doença que interferiu na imunização. Mesmo com estes casos, afirmamos a eficácia da vacina. Isso é  comprovado na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde grande número de pessoas foram infectadas, mas a doença não se alastrou, mesmo sendo uma área muito populosa.

A cada ano estamos percebendo a volta de doenças que eram consideradas extintas, como a dengue e agora a febre amarela. Como explicar isso?

Cada doença possui suas características, mas nas que são imunopreviníveis, como a febre amarela, precisamos manter a cobertura vacinal alta. A volta da doença está relacionada com algo que já comentamos: a circulação do vírus em áreas em que isso não ocorria anteriormente. É necessário que a população procure o Sistema Único de Saúde, pois assim evitaremos a doença. A febre amarela voltou a Minas Gerais por conta da baixa cobertura vacinal.

Muito se fala de uma possível mutação do vírus da febre amarela. Isso aconteceu? Se sim, interfere na imunização da população?

Vários estudos estão sendo realizados sobre este tema e comprovam que o vírus sofreu, sim, uma mutação. Porém, isso não interfere na proteção pela vacina, pois a mutação ocorreu em uma parte diferente que não tem a ver com o processo de imunização. Sabemos que a vacina “conhece” determinada parte do vírus, mas que o anticorpo dela não tem relação com a parte do vírus que sofreu mutação. Novos estudos nos ajudarão no conhecimento da febre amarela.

Vitor Fórneas

Vitor Fórneas

Jornalista no Portal Bhaz

Comentários