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Cacto raro e ameaçado de extinção é alvo de pesquisa na Serra do Curral

A bela paisagem proporcionada pelos mirantes do Parque da Serra do Curral não é a única riqueza oferecida à população: espécie ameaçada de extinção, o cacto Arthrocereus glaziovii (Cactaceae) foi descoberto há cerca de três anos no Parque e vem ganhando a atenção de pesquisadores do Jardim Botânico da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB), gestora do espaço. Por estar ameaçado, o cacto é tema de duas pesquisas científicas que vêm sendo desenvolvidas no local desde o começo deste ano, visando sua conservação. A pesquisa representa um dos ganhos principais advindos da fusão das antigas Fundações Zoobotânica e de Parques Municipais: intercâmbio e complementaridade de profissionais e recursos.

O cacto Arthrocereus glaziovii cresce sobre rochas ricas em minério de ferro, o que faz com que a distribuição da espécie seja muito restrita. Endêmico dos campos ferruginosos do Quadrilátero Ferrífero (em Minas Gerais), o cacto ocorre somente em alguns locais: em Itabirito (na Estação Ecológica de Arêdes), na Serra da Moeda, no Parque Estadual da Serra do Rola Moça, na Serra da Piedade, em Nova Lima (na APA Sul), em Itatiaiuçu e na Serra do Curral.

Assim como outros cactos, o Arthrocereus glaziovii é muito importante para o meio ambiente. Essa espécie produz frutos carnosos comestíveis, que fornecem alimento para a fauna nativa. As flores provavelmente são polinizadas por mariposas. Essas mariposas também polinizam plantas que têm importância prática para o ser humano, como o mamoeiro e a mangabeira. Conservar o cacto pode ser essencial para preservar essas mariposas, tão importantes para a produção de alimentos.

A preocupação com a conservação da espécie tem fundamento: o habitat natural do Arthrocereus glaziovii é muito próximo das áreas urbanas e, por isso, sofre com a ação humana. Além disso, ele é alvo dos efeitos da mineração por crescer nas regiões ricas em minério. Esses são dois dos principais motivos para a espécie estar correndo risco de desaparecer. O cacto consta na Lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês) na categoria “Em Perigo” e, por essa condição, a FPMZB vem buscando elaborar e apoiar ações de manejo que garantam a conservação da espécie presente no Parque da Serra do Curral.

Os estudos “Biologia reprodutiva de Arthrocereus glaziovii, espécie endêmica e ameaçada de extinção” e “Efeito de diferentes substratos no crescimento e sobrevivência de plântulas de Arthrocereus glaziovii, espécie ameaçada de extinção” foram iniciados em março de 2018 e somam-se às ações que já vinham sendo conduzidas pela FPMZB para a conservação de flora no Parque da Serra do Curral. Os estudantes de biologia Franklin Logan e Anna Guimarães Alencar, bolsistas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), trabalham nos dois estudos sob a coordenação e orientação da bióloga da Seção de Botânica Aplicada do Jardim Botânico da FPMZB e doutora em ecologia, conservação e manejo da vida silvestre, Juliana Ordones.

As pesquisas sobre a espécie incluem o mapeamento da população de cactos com a marcação e georreferenciamento dos indivíduos; a investigação, em campo, de aspectos da “história de vida” da planta, considerando-se aspectos como fenologia, biologia floral e sistema de polinização; o estabelecimento do protocolo de cultivo por meio da coleta de sementes para uso em câmaras de germinação e, posteriormente, do cultivo das plântulas em diferentes substratos; além da destinação de sementes aos testes de dessecação (ato de eliminar a umidade) para a elaboração do protocolo de armazenamento no Banco de Sementes do Jardim Botânico da FPMZB.

Espera-se, ao final dessas pesquisas, contribuir para a diminuição do grau de ameaça de Arthrocereus glaziovii, por meio da disponibilidade de germoplasma para futuras pesquisas e programas de reintrodução e recomposição de populações dessa espécie.

Substrato

Outro aspecto essencial para a conservação do cacto está em seu cultivo ou, mais especificamente, no tipo de substrato onde ele é plantado. Daí a relevância da pesquisa que está sendo realizada por Anna Guimarães.

Nesse estudo, estão sendo feitos testes de substrato com os cactos germinados no Banco de Sementes do Jardim Botânico. Misturas de areia e matéria orgânica (esterco) estão sendo testadas em diferentes proporções, para ver qual das formulações promove a maior sobrevivência e o melhor desenvolvimento das plantas. O objetivo é testar métodos de cultivo para essa espécie, visando sua conservação ex situ (fora do habitat). Os resultados poderão ser muito importantes para o desenvolvimento de melhores metodologias de cultivo e conservação ex situ não só do Arthrocereus glaziovii, como de outros cactos nativos.

O papel do Jardim Botânico e a importância da pesquisa

Coordenadora das pesquisas, a doutora Juliana Ordones explica que os estudos sobre o Arthrocereus glaziovii atendem às metas estipuladas pela Estratégia Mundial para Conservação de Plantas (GSPC) e aos Planos Nacionais de Ação para Conservação (PANs). “Atualmente, os jardins botânicos são as instituições aptas a contribuir para conter a perda da diversidade vegetal, uma vez que desempenham papéis fundamentais especialmente no desenvolvimento de ações de conservação in situ (na natureza) e ex situ (fora da natureza) de espécies endêmicas e ameaçadas”, analisa a bióloga.

“Muitas espécies, além de sofrerem diretamente o impacto da mineração, também são alvo da coleta clandestina e da comercialização não autorizada. É importante estabelecer o manejo da flora do Parque de um modo em geral, por meio do controle de acesso às áreas de sua ocorrência, para evitar seu pisoteio, e sua consequente supressão, em específico. O maior desafio é conscientizar o usuário do Parque sobre a integridade ambiental dos campos ferruginosos da Serra do Curral”, alerta o gerente do Parque Paredão da Serra, Ivan Loyolla.

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