“Isso aqui virou uma metrópole”. A frase de um residente, de quase quatro décadas, do Aglomerado da Serra – o maior de Belo Horizonte – resume a transformação impulsionada pelo comércio nas grandes favelas da capital mineira. A melhoria da infraestrutura, a qualificação dos moradores e, não menos importante, a autoestima local foram catapultadas por verdadeiros centros de compras criados entre becos e morros.

“Se quero um pão tem uma padaria, se preciso de um calçado encontro uma sapataria, dentista, mecânico, advogado… Encontro de tudo. Não preciso sair daqui para atender minhas necessidades. O Centro [da cidade] é só para ter mais variedades de escolha”, conta o professor de artes marciais Éder Rufino, morador da Vila Cafezal – uma das oitos que compõem o Aglomerado da Serra – há 37 anos e autor da frase que abre esta reportagem.

O centro comercial do maior conjunto de vilas e favelas de BH, de fato, impressiona. Conhecida como Volta, a região em que três ruas se encontram é composta por mais de 45 lojas que comercializam de tudo: alimentos, roupas, material de construção, cosméticos, entre outros. Existe, ainda, a Passarela – ou Savassinha, em alusão à conhecida região na Zona Sul de BH -, rua que dá acesso à Volta e reúne cerca de 20 estabelecimentos. E o que poderia ser apontado como uma dificuldade se transformou em um dos maiores trunfos locais: como as ruas são estreitas, há uma relação íntima entre público e comércio.

“Não troco aqui por lugar nenhum, aqui é o lugar. É o nosso cantinho. Mesmo tendo outras opções de lojas para comprar, meus clientes, graças a Deus, se mantêm fiéis”, conta um dos comerciantes mais antigos do Aglomerado da Serra, Roberto Carneiro, proprietário do depósito de material de construção Demacol. “Amo trabalhar aqui. Em outros lugares que trabalhei nunca tive a oportunidade de conviver com as pessoas da forma que é aqui. As pessoas são agradecidas pelos produtos que ofertamos e pelo preço acessível”, diz uma das mais novas empreendedoras da região, Carolina Tonidandel, dona da loja de laticínios Mimosa.

Roberto Carneiro é dono do primeira loja de material de construção do Aglomerado da Serra (Letícia Vianna/Bhaz)

Volta

“No começo só existiam duas mercearias e uma delas ficava lá no pé da Serra. Hoje tem em todo canto, e tudo o que o pobre precisa”, afirma Nadir Rodrigues de Queiroz, moradora da Vila Cafezal há 40 anos, e ex-presidente da Associação de Moradores do Aglomerado da Serra. Aos 68 anos, ela destaca as mudanças no comércio da região, que viu se desenvolver diante dos próprios olhos: da caderneta de anotação ao cartão de crédito. “Antes, a gente tinha que comprar as coisas no Centro e subir de ônibus até aqui. E ainda carregar os sacos na cabeça até chegar em casa. Era difícil”.

Além da evidente importância da facilidade de acesso a bens e produtos para os moradores, o crescimento de centros comerciais é fundamental para o desenvolvimento do aglomerado. O tema, inclusive, se tornou um estudo do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) – veja mais abaixo -, cujo um dos autores é o professor especializado em varejo e coordenador do Núcleo de Estudos de Varejo da ESPM, Ricardo Pastore. “Temos concentrado nessas áreas periféricas um potencial enorme de consumo”, diz. O grande desafio, conforme o estudioso, é justamente reter o consumo dos residentes no próprio aglomerado.

A Volta é formada por mais de 40 comércios no Aglomerado da Serra (Henrique Coelho/Bhaz)

Essa dificuldade foi detectada, ainda na década de 1980, por Roberto Carneiro, dono do depósito na Serra. “Ao andar por essas regiões vi que o único lugar que não tinha um depósito era aqui. A gente não encontrava nem uma fita isolante. Antes de abrir o comércio, fiz uma pesquisa prévia”, relembra. Resultado: o depósito sediado na Volta se transformou em referência no Aglomerado da Serra. “Se você olhar pra Serra, verá o Demacol em todas as casas. Seja um tijolo, uma torneira, este é o primeiro grande comércio do aglomerado”.

Atender às necessidades básicas das pessoas da Serra, como o acesso a medicamentos, fez com que Willer Reis abrisse a Droga Lila. Mas, além disso, o comerciante percebeu uma falha no mercado: o atendimento que os moradores do aglomerado recebiam em outros locais. “Nos postos eles são tratados friamente. Por aqui, conversamos, buscamos saber há quanto tempo ele estão sentindo aquela dor, se está acontecendo algo nas famílias. É uma relação mais íntima com o povo”, diz.

Outro fator que contribuiu para a abertura da drogaria foi o fato das pessoas necessitarem sair do bairro para conseguir, por exemplo, uma dipirona. “Elas madrugavam no Hospital da Baleia”, relembra.

Segurança

Engana-se quem associa o comércio no aglomerado com falta de segurança. “Assaltado? Nunca”, responde, de bate-pronto, Carneiro ao ser questionado sobre o assunto. “Nunca me preocupei, tanto que tenho uma loja na Barragem Santa Lúcia e que quem toma conta é minha filha de 22 anos. A segurança é total”, afirma. “Alguns dos criminosos são meus clientes”, diz Willer Reis, sorrindo. “Se tiver algum problema comigo eles que vão perder, pois precisam cuidar da saúde. Nunca fui assaltado”.

“O que vemos atualmente é de 15 anos pra cá. Os moradores, junto com o apoio da polícia, fizeram com que tivéssemos uma nova organização e consequentemente a redução da criminalidade em nosso aglomerado. Com isso, o comércio cresceu na região. Atualmente recebemos até pessoas de outros bairros e que fazem compras aqui pelo fato dos preços dos produtos serem mais em conta. Na Serra, não existe superfaturamento. Ninguém passa a perna no outro”, conta o professor Éder Rufino.

A sensação é corroborada pelo estudo do Sebrae (veja abaixo) e pela Polícia Militar. “Com certeza, dentro do aglomerado não tem costume de roubo. Todos se conhecem, há um respeito, e ninguém vem de outro local para assaltar”, afirma o comandante do policiamento do Aglomerado da Serra, tenente Mauro Lúcio da Silva, que nasceu e foi criado lá. “Temos entre 24 e 30 militares que fazem o policiamento no aglomerado e todos são conhecidos dos comerciantes, moradores, isso facilita… Alguns até chamam os policiais por apelido”.

A segurança faz até mesmo que moradores de outras regiões invistam em negócios nos aglomerados. No Alto Vera Cruz, o terceiro maior aglomerado de BH segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – confira mais sobre os dados abaixo -, o centro comercial fica na avenida Desembargador Bráulio. Um dos comerciantes de lá sai todos os dias da Pampulha e atravessa a cidade para administrar um supermercado. “Hoje, o aglomerado tem uma população grande, com um público alvo que o comércio visa atender. Por isso, é melhor ter um comércio aqui do que em outras regiões da cidade. Até mesmo por conta da segurança. Se eu tivesse uma loja em outra região, tenho certeza que eu já teria sido assaltado”, afirma Weliton Pereira.

E, quem pensa que são comercializados produtos de baixa qualidade, é melhor repensar. “O público da Serra é seletivo, hoje o pessoal quer coisa boa. A tinta precisa ser Suvinil, Coral. Aquilo que encontram nas casas dos patrões é o que desejam. Eles querem qualidade, um chuveiro legal que proporcione um banho com uma água bem quente”, diz Carneiro. “O comércio daqui realmente cresceu muito e vende produtos de excelente qualidade. É coisa boa, é comercializado o que o público gosta”, relata o tenente Mauro.

Padaria está entre 65 comércios localizados entre a Passarela e a Volta (Letícia Vianna/Bhaz)

Outro preconceito que, provavelmente, cai por terra é a impressão de que os comércios do aglomerado são todos irregulares. Em uma pesquisa informal feita pela reportagem, das lojas presentes na Volta, apenas uma ainda não está formalizada – e a proprietária Maria dos Anjos, a Neném, garante que está no processo para ficar de acordo com a lei (veja mais abaixo). Infelizmente, é impossível cravar tal afirmação e excluir o “provavelmente” da sentença porque faltam dados sobre o comércio na favela.

Desenvolvimento

Como apontado pelo estudo do Sebrae, o desenvolvimento local e o crescimento do comércio se retroalimentam. Um exemplo disso é citado por Carlos Gonçalves, proprietário de um açougue há 38 anos, localizado na junção entre a Passarela e a Volta. A abertura de vias trouxe ganhos para toda a população. “Com as novas ruas, tivemos grandes comércios vindo para nossa região, algo que não pensávamos. Hoje, chegar e sair da Serra ficou mais fácil”, conta.

“Percebemos que as intervenções geram nas famílias a vontade de investir e melhorar suas moradias, assim como qualquer lugar da cidade. Nos últimos 15, 20 anos, demos início aos programas Vila Viva, de requalificação urbana e ambiental para incrementar as condições de acessibilidade, saneamento e redução das áreas de risco”, reforça Maria Cristina Magalhães, diretora de Planejamento e Gestão da Urbel (Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte), que atua prioritariamente em vilas e favelas da capital.

O Vila Viva, que teve início em 2005 no Aglomerado da Serra, foi desenvolvido com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, com contrapartidas obrigatórias da administração municipal, segundo a diretora da Urbel. Ao longo das últimas décadas, as obras melhoraram as condições de vida do ponto de vista urbanístico em 12 grandes assentamentos da cidade.

No geral, as intervenções do Vila Viva são obras de saneamento, remoção de famílias de áreas de risco, construção de unidades habitacionais, erradicação de áreas de risco, reestruturação do sistema viário, urbanização de becos, além da implantação de parques e equipamentos para a prática de esportes e lazer.

O desenvolvimento não é só do espaço físico, mas também dos residentes. Maria dos Anjos, por exemplo, começou vendendo bijuterias de porta em porta. “Depois minhas sacolas foram aumentando. Minhas filhas me deram um carrinho parecido com os de feira e eu subia e descia esses morros. Orei a Deus e Ele me disse que era chegado o momento de ter uma barraca. Me informei como deveria fazer e consegui. Armava e desarmava barraca todos os dias, mas era gostoso”, conta a comerciante, conhecida por todos como Neném.

Uma mulher que trabalhava no aglomerado e que tinha uma loja precisou deixá-la e resolveu oferecê-la para Neném. “Ela pensou em mim, pois quando chovia era uma peleja”, relembra, sorrindo. De uma loja, a comerciante já passou para duas: uma que comercializa bijuterias e outra, o brechó. A comerciante mora há 50 anos na Vila Cafezal, é proprietária das lojas há cinco anos e agora, além de sofisticar os produtos, está no processo de formalização do negócio. “Agora vendo Natura, Boticário, Mary Kay. Com base naquilo que eles vão pedindo eu vou colocando”, conta Neném, que já recebeu orientações do Sebrae.

Neném é dona de uma loja no aglomerado há cinco anos (Letícia Vianna/Bhaz)

“É muito legal vermos que as pessoas estão crescendo. Sabemos que estamos engatinhando, mas já temos advogados, enfermeiros e outras pessoas concluindo o ensino superior”, destaca Rufino. O publicitário Luiz Oliveira, o Luizinho, é um desses moradores que concluíram o ensino superior. Porém, em vez de tentar se estabelecer profissionalmente fora da Serra, ele viu um grande potencial no local onde nasceu e vive até hoje.

O desejo de fazer com que os comércios locais se igualassem com os do restante da cidade sempre foi um dos objetivos do publicitário. Ainda na faculdade, o jovem viu que o mercado no “asfalto”, forma que se refere às demais regiões da cidade, estava saturado. “Perguntei-me: vou aprender e trabalhar no asfalto fazendo com que as empresas de lá continuem crescendo sendo que tenho um grande mercado dentro da Serra?”.

Com o desejo de fomentar o crescimento dos comércios do bairro, Luizinho levou para a Vila Nossa Senhora da Conceição a Du Morro, seu escritório de comunicação. Com os empreendedores da Serra, ele desenvolve criação de marca e planejamento de comunicação. “Sempre quis que a base (como chama o Aglomerado da Serra) se equiparasse [com o asfalto] na parte da comunicação”, conta.

Nos últimos três anos, o publicitário tem percebido o crescimento de empreendimentos com a parte visual mais atrativa para o público. “Os bares com uma pegada mais cult já podem ser encontrados, assim como as lojas que se preocupam com a imagem”, contou. Trazendo o aprendizado da faculdade, Luizinho adaptou a teoria da comunicação para o Aglomerado da Serra, assim como a linguagem para o contexto de seus possíveis clientes. “Oferecemos ao público aquilo que eles necessitam. Alguns precisam somente de um cardápio, e ao ver o conteúdo bem distribuído eles se sentem mais profissionais”, disse.

Sem dados

Quantas pessoas moram nos aglomerados de BH? Quantos comerciantes atuam nesses locais? Destes, quantos estão regularizados/formalizados? Dados atualizados sobre os aglomerados da capital mineira simplesmente não existem. A Urbel trabalha com números de 2015 que apontam 8.877 estabelecimentos comerciais existentes nessas áreas. Mas o número pode ser bem maior, diante da defasagem na atualização das estatísticas, e também pelo fato de muitos deles não serem regularizados por meio de alvará de licenciamento.

Sem estatísticas atualizadas, a percepção da Urbel é de que houve, sim, crescimento populacional dentro da cidade, e nas Zeis (Zona de Especial Interesse Social) um adensamento da população, ou seja, não em novas unidades de habitação, mas uma verticalização das residências para comportar mais pessoas.

“Na minha leitura, houve aumento expressivo nos adensamentos nos aglomerados já consolidados e há outras ocupações surgindo na cidade – algumas mais organizadas, outras menos – a maior parte nas regiões Norte e Nordeste, onde há, ainda, áreas vazias de BH. Sobre esses locais, inclusive alguns irregulares, estamos iniciando um levantamento para termos mais detalhes sobre eles”, diz a diretora de Planejamento e Gestão da Urbel.

Os números com os quais a Prefeitura de Belo Horizonte trabalha oficialmente são os do Censo de 2010, do IBGE. Baseado nesse levantamento, a capital mineira possui 366 mil pessoas vivendo em 110 mil moradias espalhadas nas 186 vilas e favelas. As ocupações tiveram início em 1910, na Pedreira Prado Lopes; na década seguinte, foi fundada a Vila Nossa Senhora da Conceição, na Serra; em 1930, as vilas Santa Lúcia e Santa Rita de Cássia, na Barragem Santa Lúcia; e, nas décadas seguintes, o conjunto de pequenas vilas foi se consolidando em outras áreas, como Alto Vera Cruz, Morro das Pedras e Taquaril.

Boa parte dos assentamentos está inserida em oito aglomerados espalhados pelas regiões da cidade: na Região Centro-Sul estão Serra, o maior conjunto, com 46 mil pessoas, e Barragem Santa Lúcia, com 16,9 mil; na Região Leste, Conjunto Taquaril, com 40,7 mil, e Alto Vera Cruz, com 30,1 mil; na Norte, Aglomerado São Tomás/Aeroporto, com 10,4 mil habitantes; na Nordeste, o Aglomerado Beira Linha, com 8,4 mil pessoas; Pedreira Prado Lopes, na Noroeste, com 8,9 mil cidadãos; e Morro das Pedras, na Região Oeste, com 19,8 mil habitantes. As demais vilas estão espalhadas pela cidade.

Desafios

Um dos raríssimos estudos feitos sobre aglomerados de BH e seu comércio é justamente o realizado por Ricardo Pastore, pelo Sebrae, em 2013. A pesquisa foca em favelas da Zona Leste da cidade. Segundo dados do levantamento, o Alto Vera Cruz tem uma concentração de 322 estabelecimentos formais, seguido pelo Conjunto Taquaril, com 196, e Taquaril, com 149. Deste total, cerca de 79% são microempreendedores. Divididos no seguimento de comércio varejista (35%), vestuário e acessórios (23%), lojas de material de construção (12%) e minimercados (8%).

Entretanto, um dos maiores problemas enfrentados na região é a vulnerabilidade financeira dessas famílias e a dependência de renda. A população dos aglomerados é formada em sua maioria das classes C e D, segundo critério de renda familiar. Outro problema é que os moradores da comunidade consomem fora dos centros comerciais do bairro, fato que enfraquece a região. Segundo Pastore, o governo precisa garantir que a estrutura dos bairros garanta o desenvolvimento do comércio local, principalmente em aglomerados. “Esse é um grande problema no Brasil. Faltam organização e pontos adequados para a manutenção e fortalecimento do comércio”, explica o especialista.

Como solução, Pastore aponta que o Governo precisa “garantir estruturas, como tratamento de esgoto, acesso à água, luz, segurança e regularização dos imóveis nas favelas. Pois, atualmente, o comércio nessas regiões encontra-se desestruturado, com falta de desenvolvimento e capacitação, por isso não consegue reter o consumo dos moradores dos aglomerados”, ressalta.

O estudo aponta que o varejo de baixa renda, como os da região do Alto Vera Cruz e Taquaril, consegue fidelizar seus clientes pelas seguintes características: localização, atendimento personalizado, segurança e credibilidade. Os moradores das comunidades entrevistados elencaram quais são as vantagens e desvantagens de comprar na região central da cidade, ao invés do comércio local:

Vantagens

  • Quantidade maior de lojas, pois permite comparar e encontrar preços menores que no bairro;
  • Variedade de produtos;
  • Qualidade dos produtos.

Desvantagem

  • Gastar tempo e dinheiro com o transporte, fatores que tendem a piorar com o aumento de veículos em circulação (tempo) e aumento da inflação que tornará as passagens mais caras (dinheiro).

Quanto ao comércio no bairro, os moradores citaram a grande quantidade de lojas de alimentação e a possibilidade de fazer compras de urgência, como vantagens. Como desvantagem, os moradores alegam que têm a sensação de estar comprando “mal e mais caro”.

Iniciativas

Uma forma encontrada pelos próprios moradores para encarar esses desafios citados no estudo do Sebrae são ações realizadas por iniciativas locais. Uma delas é a FA.VELA (Fundo de Aceleração para o Desenvolvimento VELA), criado por um grupo de amigos do Morro do Papagaio, que integra o Aglomerado Santa Lúcia, há quatro anos. Presidida por João Souza, a organização da sociedade civil é composta por um grupo de profissionais que buscavam – e ainda buscam – o acesso a oportunidades de crescimento pessoal e profissional para moradores de baixa renda, em vilas e favelas de BH e região metropolitana.

“Inicialmente era um projeto voluntário de um grupo de amigos. Quando fomos aos territórios e começamos a dialogar com as pessoas, surgiu a questão de que eles precisavam de algo mais estruturado. Então, transformamos o que era somente algumas atividades soltas, num programa de aceleração mesmo, para acompanhar e monitorar os empreendimentos durante e após o processo de aceleração”, explica.

Ao todo são três projetos que contemplam o trabalho da pioneira em empreendedorismo de base favelada do país: um deles é o Programa de Intervenção Participativa em Aglomerados (PIPA). Voltado para um público maior de 18 anos, tem o objetivo de oferecer aulas em grupos sobre gestão de negócios e marcas, mentorias individuais com especialistas e conexões com o mercado. Durante o curso, são abordados temas como tendências, inovação, fluxo de caixa, comunicação, marketing, design, oratória, entre outros.

Formatura do Corre Criativo, em 2017, no Centro de Referência de Juventude (Paulo Silva/FA.VELA)

Outro programa é o Corre Criativo!, voltado para um público entre 18 a 35 anos, tem como objetivo orientar makers, labers e hackers da periferia a como montar um pequeno negócio e mantê-lo. Também a partir da gamificação, os pequenos empreendedores participam de aulas em grupo, sessões de mentorias individuais, workshops, visitas de campo, laboratórios, benchmarking e networking.

O terceiro programa é o FA.VELA Resiliente, que estimula a modelagem de negócios de impacto socioambiental positivo, a maiores de 18 anos. A finalidade do Resiliente é qualificar os empreendedores de periferias para o uso de resíduos como matéria-prima, incentivando, assim, o desenvolvimento de produtos e serviços que contribuam para a resiliência urbana e a sustentabilidade. Durante o programa, por meio de um processo gamificado, são ofertadas aulas de gestão de negócios, finanças, comunicação, marketing e educação ambiental, além de consultorias de negócios individuais, palestras e visitas técnicas.

De acordo com João, a organização tem um público bastante diverso em questão de idade e gênero, que vai desde jovens a partir de 18 anos, até pessoas com 60 anos ou mais. Porém, majoritariamente são mulheres a maior parte de empreendedores dentro dos territórios de inserção. “Elas empreendem na maior parte das vezes por uma necessidade de incrementar a renda. Conseguimos enxergar na mulher empreendedora, uma lógica de crescimento, na perspectiva de que ela tem uma preocupação maior com o cuidado com os filhos, com o cuidado com a casa e ela quer uma qualidade de vida melhor”.

Dentre as pessoas aceleradas, João destaca exemplos de sucesso. Um deles é o projeto Guaracy Agroecologia de Guilherme Fernandes, acelerado pelo Corre Criativo e vindo de um assentamento do município de Nova União, na Grande BH. “O Guilherme se inscreveu para um prêmio internacional com o modelo de negócios que ele criou e ganhou 10 mil libras. Então para gente é um peso grande. Um negócio, que não tinha perspectiva, instalado em um assentamento do MST e de repente está ganhando um prêmio internacional”, diz orgulhoso.

Guilherme recebe prêmio de melhor empreendimento em prêmio internacional (Divulgação/FA.VELA)

Outra iniciativa é o Favela é Isso Aí, uma ONG (organização não-governamental) que surgiu após a construção do Guia Cultural de Vilas e Favelas, que teve como idealizadora a antropóloga Clarice Libânio e foi publicado em 2004. O projeto tem como objetivo a inclusão social, combate a violência e desempenha um importante papel na elevação da autoestima dos moradores das comunidades.

“Estamos tentando expandir ainda mais a cobertura do Favela É isso Aí. Queremos atingir todas as 34 cidades da região metropolitana também, mas, para isso, é preciso o apoio do poder público”, explica a antropóloga. O guia mostra de forma abrangente a riqueza nos morros de Belo Horizonte, nas áreas da música, dança, teatro, artesanato, artes plásticas, folclore e literatura. Foram mapeados 740 grupos culturais, com aproximadamente 7 mil artistas.

Nascida e criada no Aglomerado da Serra, a produtora social Kika Pereira é responsável pelo Baile Funk da Serra, que existe, com este nome, desde o ano passado. O intuito é levar cultura e entretenimento à comunidade.”A ideia veio depois de perceber que o funk também é um tipo de cultura, mesmo que discriminada, e que faz parte do nosso cotidiano. Todo domingo fazemos um evento na Serra”, conta a produtora.

De acordo com Kika, o projeto gera uma boa renda aos moradores, sendo mais de 30 empregos diretos. O baile, junto ao turismo, traz um retorno positivo. “As pessoas de fora gostam muito de vir ao aglomerado e o lado legal disso é que saem daqui com um outro olhar sob a comunidade”, completa Kika Pereira.

Baile Funk da Serra, o maior evento do gênero em Belo Horizonte (Leandro Barbosa/Observatório do Funk)

Comentários