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Alunas do Colégio Tiradentes da PM são ‘convidadas’ a retirar tranças e se tornam alvo de racismo: ‘Sai fora, macacas’

Mulheres negras são as que mais sofrem com mensagens de ódio na internet. É o que diz um estudo recém-divulgado pela Universidade de Southampton, na Inglaterra. Se ler e escutar comentários preconceituosos na maioria das vezes de desconhecidos já é algo ruim, imagine ser alvo de discriminação no ambiente escolar. Foi o que ocorreu com um grupo de alunas do Colégio Tiradentes da Polícia Militar (PM), na unidade Argentino Madeira, na região Leste da capital.

Nessa terça-feira (9), estudantes do colégio foram chamados para ter uma conversa sobre a padronização de penteados. Pelo menos duas estudantes relatam que, durante a reunião, foram orientadas a retirar as traças “box braids” que usam. Uma delas fez um desabafo por meio do Facebook. O post já conta com mais de 400 compartilhamentos. “Agora me perguntam o motivo das fotos chorando, meu amigos, foram ANOS de aceitação, ANOS que demorei para aceitar minha cor, meu cabelo, minha ancestralidade”, escreveu a jovem na publicação que viralizou. A outra adolescente, de 16 anos, conversou com o Bhaz a respeito do episódio.

Alunas denunciamo ter sido orientadas a retirar tranças e viram alvo de racismo (Reprodução/StreetView)

A aluna está no segundo ano do Ensino Médio e estuda no Colégio Militar da PM pela manhã. Ela conta que estava na aula de matemática quando foi chamada por um assistente de turno, junto com uma colega de turma que também usa tranças, para ir ao auditório. Quando chegaram, um grupo de meninas com penteados semelhantes já estava no local. Lá, aguardavam para conversar com uma major, identificada como Lylian, e com a vice-diretora, Cláudia Boldoni.

“A major e a vice-diretora estavam lá conversando com as meninas falando que o nosso cabelo não está no padrão da escola. Comecei a chorar, já tinha medo de isso acontecer há um tempo. Depois que falaram isso, algumas alunas foram liberadas e outras ficaram”, contou. “A major, o tempo todo, falou que fazer trança estraga o cabelo, não sei de onde ela tirou isso. Disse que as tranças estragam a raiz do cabelo e eu expliquei que era até por uma questão de autoestima”, continua. “Aí ela sugeriu, perguntou se eu já tinha alisado o cabelo. Uma outra menina respondeu por mim ‘é o cabelo dela, não vai alisar’ e a major disse que estava conversando comigo e não com ela”, relata a adolescente.

Regulamento de uniformes do Colégio Tiradentes define vestimentas, corte de cabelo e postura (Reprodução/PMMG)

A estudante explica ainda que foi orientada a se reunir com amigos e mandar uma carta aos superiores para discutir a mudança nos penteados. “Falei com a major, com a vice-diretora, e assistente de turno que não adianta tentar reunir com amigos e mandar carta para o comando. Não vai adiantar, não escutam a gente. É difícil estudar nessa escola porque tem um monte de regra arbitrária e não tem o que fazer. Só voltei para a sala e comecei a chorar”, disse.

Caso não cumprissem a determinação de retirar as tranças até o dia 22 de outubro, data em que vai terminar um recesso escolar, as alunas seriam penalizadas com um Formulário de Registro Disciplinar (FRD). O acúmulo de FRD’s pode gerar suspensões e até mesmo a expulsão do colégio. “Eu uso trança desde abril do ano passado e nunca reclamaram assim, já falaram para prender o cabelo e reclamaram do tamanho. Eu uso por que melhora minha autoestima, não me sinto bem sem as tranças e não quero voltar a alisar o cabelo”, diz.

“Eu estava pensando em falar na vice-diretoria para que a nova regra fosse colocada para o ano que vem, por exemplo. Tem uma menina que colocou no fim de semana, custa no mínimo R$ 180, e, do nada, falam para tirar? Penso até em sair do colégio. As tranças fazem bem para a autoestima”, finaliza a jovem, que conta com o apoio da família para manter o penteado.

Racismo

Depois da reunião em que foram orientadas a retirar as tranças, as meninas passaram a ser alvo de racistas. Em um áudio enviado pelo WhatsApp, é possível ouvir um garoto se referindo a elas como “macacas”. “Sai fora, suas macacas. Vocês não querem aceitar as regras, sai fora do colégio”, diz. No status do WhatsApp, outra manifestação discriminatória. “A interpretação das negrinha: ‘Colégio Machista opressor! #mimimi”, escreveu um estudante em tom pejorativo.

Para a mãe da garota, a recomendação para que a filha retire as tranças é uma forma de negar a identidade negra dela. “O cabelo é a autoestima dela, ela sempre sofreu bullying e, quando encontramos algo que a faça feliz, vem isso. Tem que olhar se a nota é boa, se é bem educada. Minha filha está arrasada, com o olho inchado”, diz.

“O ensino no colégio é muito bom, mas para ter uma educação boa tem que dar as costas para as raízes dela?”, questiona. “Ela segue as regras, está sempre com o uniforme impecável e respeita todo mundo”, continua. “Quantas mulheres negras existem na PM? Tem que andar com cabelo curto, só com coque? Nunca vi militar nenhuma com trança afro. São obrigadas a andar com cabelo preso para entrar em um padrão. Quer dizer que as meninas que são o futuro do país não poderão usar trança? Isso afasta elas da corporação”, completa a mãe da adolescente, bastante indignada.

O que diz o Colégio Tiradentes

Procurado pelo Bhaz, o Colégio Tiradentes explicou que a reunião com as alunas realmente ocorreu nessa terça-feira (9). No entanto, afirma que não apenas as alunas que usam tranças foram chamadas, mas estudantes com cabelos tonalizados, topetes e outros fora do padrão imposto pelo regimento.

“Diversos alunos foram chamados para falar sobre a adequação dos penteados, não só as meninas que usam tranças. Existe um regulamento que deve ser seguido. Então, se o cabelo está fora do padrão, que tem a ver com os valores da instituição, a mudança é necessária”, explicou a tenente-coronel Lívia Azevedo, responsável pela unidade Argentino Madeira e por outras sete do Colégio Tiradentes. “Houve um mal entendido. A recomendação não foi para retirar as tranças, mas para adequá-las, assim como informado aos outros alunos “, pondera.

“O mesmo ocorreu para outros tipos de cabelo. Então, não existe discriminação. A conversa foi sobre o formato dos cabelos, conforme o que está descrito no regulamento. Cada caso é avaliado por si e há um acompanhamento, uma preocupação com os alunos”, disse. “Hoje (quarta-feira) fizemos uma reunião com as alunas para falar sobre as orientações repassadas ontem e chegamos a um entendimento alinhado que se sobrepôs ao equívoco anterior”, conta.

A respeito das manifestações racistas, a tenente-coronel conta que já tem uma equipe responsável pela identificação dos autores. “Um oficial está encarregado de fazer esse levantamento para apurar as responsabilidades. Identificando os alunos, eles serão punidos conforme o código de ética do colégio. Trata-se de uma questão disciplinar”, explica.

Sobre a major que teria sugerido à aluna alisar o cabelo, ela conta que a oficial não estava sozinha com as estudantes no momento da conversa e que houve um entendimento equivocado diante da surpresa com a orientação. “As educadoras devem cuidar da disciplina e observar o cumprimento do regimento. Agora, estamos alinhados”, finaliza a tenente-coronel.

Alunas se unem em manifestação

Se, de um lado, as alunas foram alvo de manifestações racistas, de outro receberam acolhimento. Na manhã desta terça-feira (10), estudantes de diferentes turmas se reuniram em um ato de apoio. Elas foram para a quadra do colégio, durante o intervalo, e deram as mãos. Após uma contagem regressiva, entoaram: “Uma por todas e todas por uma”. Na sequência, deram as costas e revelaram estar todas de trança. O momento foi gravado e pode ser visto abaixo.

Roberth Costa

Roberth Costa é publicitário, repórter e editor no Bhaz.

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