Home Notícias Minas Gerais Após alertas, 1,2 mil pessoas continuam fora de casa por ameaça de barragens de mineração

Após alertas, 1,2 mil pessoas continuam fora de casa por ameaça de barragens de mineração

Um cenário de incertezas aflige mais de 1,2 mil pessoas em Minas Gerais, que tiveram de deixar suas residências às pressas depois de sirenes tocarem alertando sobre risco de rompimento de barragens de mineração em quatro municípios mineiros. Em Brumadinho, onde as barragens 1, 4 e 4A se romperam, matando, até o momento 197 pessoas, o alarme não soou.

Há exatos 30 dias, 648 pessoas estão desalojadas de suas casas em Barão de Cocais, a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte, e Itatiaiuçu, na Grande BH. Em 8 de fevereiro, essas pessoas foram retiradas de casas pelas mineradoras Vale S.A. e ArcelorMittal devido à instabilidade dos reservatórios de rejeitos.

“Ninguém voltou até agora para pegar um grampo sequer em suas casas, diz o coordenador da Defesa Civil de Barão de Cocais, José Flávio Rodrigues Júnior. Segundo ele, grande parte das pessoas está hospedada em casas de parentes e amigos ou em hotéis custeados pela Vale. Em Itatiaiuçu, a ArcelorMittal informou que deu início no Carnaval ao processo de acomodação de algumas famílias em casas temporárias, alugadas pela empresa. As demais estão em um hotel em Itaúna ou em casa de conhecidos.

O processo de volta para casa, se ocorrer, não será fácil para esse contingente de pessoas, visto que as barragens estão em processo de descomissionamento, que pode levar até três anos para ser concluído.

Mina de Gongo Soco, da Vale: barragem está com nível 2 de alerta acionado há 30 dias (Google Street View/Reprodução)

Descomissionamento

De acordo com resolução conjunta 2.765/2019, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), e publicada em 30 de janeiro no Diário Oficial de Minas Gerais, todas as barragens alteadas pelo método a montante em Minas Gerais – caso das barragens da Vale e da Arcelor citadas nessa reportagem – deve ser descaracterizadas, ou descomissionadas.

Na prática, descomissionar a barragem é desativar todo o empreendimento, retirando todo o rejeito que está na estrutura, fazer o desmonte da estrutura do barramento e a reconfiguração topográfica e da vegetação, ou seja, tornar o ambiente em sua forma original.

De acordo com a Semad, não é necessária autorização para o descomissionamento de barragem. “Esse é considerado uma atividade de recuperação ambiental, já que a estrutura será desmontada. Somente será necessária a autorização nos casos em que a empresa propuser o beneficiamento do rejeito depositado, para aproveitamento econômico”, informa.   

Pela resolução 2.765/2019, os empreendedores devem, no prazo de 360 dias contados da publicação desta resolução, apresentar à Feam a tecnologia a ser adotada e o plano de trabalho com cronograma de descaracterização da estrutura, contendo prazos e ações. A implantação da destinação com nova tecnologia deverá ser executada no prazo máximo de dois anos. Ou, seja, o processo todo totaliza até três anos.

Imagens dos destroços na área atingida pelo rompimento de barragem da Vale, em Brumadinho (CBBMG/Divulgação)

Passa de 1,2 mil o número de pessoas desalojadas

Os alertas de risco de novos rompimentos de barragens de rejeitos de mineração em Minas Gerais – emitidos no mês passado depois do colapso da barragem Córrego do Feijão em Brumadinho, na Grande Belo Horizonte, em 25 de janeiro, forçaram o desalojamento de mais de 1,2 mil pessoas no estado. O crime ambiental matou 197 pessoas e, há 44 dias, equipes do Corpo de Bombeiros trabalham ininterruptamente nas buscas por 111 pessoas ainda desaparecidas.

A Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de Minas Gerais (Cedec-MG) e a VAle S.A. foram procuradas pelo BHAZ na quinta-feira (7) para informar a atualização dos números dos desalojados nos municípios afetados, bem como as ações do Estado e da empresa nas comunidades atingidas, mas não nos retornaram até a manhã deste sábado (9).

Os dados usados sobre desalojados dos municípios afetados pela empresa Vale são de 22 de fevereiro, quando a empresa enviou nota ao BHAZ. Os de Itatiaiuçu, da Arcelor, foram confirmados e atualizados pela empresa na quinta (7).

Barragem da empresa CSN, em Congonhas, está ao lado das comunidades, que temem um colapso como Brumadinho
(Sandoval de Souza Pinto Filho/Divulgação)

Comunidades ameaçadas

Barão de Cocais

Em 8 de fevereiro, 452 moradores das comunidades de Socorro, Tabuleiro, Vila Congo e Piteiras, em Barão de Cocais, cerca de 100 quilômetros distante da capital, tiveram de sair às pressas, depois de alarme emitido na cidade pela Vale S.A. A barragem Superior Sul, da Mina Gongo Soco, está em alerta 2 também. Não há previsão para essas pessoas retornarem às suas casas.

Itatiaiuçu

No mesmo dia 8, em Itatiaiuçu, na região metropolitana de BH, 196 pessoas precisaram deixar suas residências, em função de alerta emergencial da empresa ArcelorMittal, em função da alteração do coeficiente de estabilidade da barragem Serra Azul.

Macacos

Em 16 de fevereiro, um sábado, 250 pessoas tiveram de deixar suas casas à noite, em São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima conhecido como Macacos, em função da sirene que tocou e foi ligado o alerta nível 2 para a barragem da Mina Mar Azul, também da Vale.

Nova Lima e Ouro Preto

Em 20 de fevereiro, a Vale informou aos órgãos estaduais a retirada de 44 pessoas de comunidades localizadas em Nova Lima (barragem Vargem Grande, na Mina Vargem Grande) e em Ouro Preto (barragens Forquilhas 1, 2 e 3, e Grupo, da Mina Fábrica) devido ao acionamento do alarme para nível 2 dos reservatórios.

Brumadinho

Em Brumadinho, onde a barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale S.A., entrou em colapso no dia 25 de janeiro, afetando outras duas barragens menores – 4 e 4A -, matando, até o momento, 197 pessoas, há 286 pessoas desalojadas.

O que dizem as empresas

Sobre as 196 famílias desalojadas em Itatiaiuçu, a ArcelorMittal informou, por meio de nota, que no Carnaval deu início às primeiras transferências de moradores da comunidade de Pinheiros.

“Sete famílias, totalizando 27 pessoas, foram acomodadas em novas residências temporárias. Permanecem 124 pessoas, de 36 famílias, no hotel em Itaúna. Outras 45, de 16 famílias, preferiram não seguir para o hotel e estão hospedadas em casas de amigos ou parentes na região de Pinheiros. As mudanças, previstas pelo Termo de Acordo Preliminar (TAP), atendem aos critérios determinados pelo Ministério Público Federal e Estadual, que privilegiam grupos familiares com pessoas idosas e crianças”, diz a empresa.

A barragem de rejeitos da ArcelorMittal, que é do tipo a montante, já se encontra em fase de descomissionamento desde 2018 e sem receber rejeitos desde outubro de 2012. A empresa informou ao BHAZ que a barragem continua com as mesmas condições de segurança desde o início do alerta.

“A estrutura segue em nível de Alerta 2, uma vez que as soluções técnicas para aumento do fator de segurança ainda estão em fase de desenvolvimento. Sistemas de monitoramento foram instalados para garantir que os serviços de rotina operacional sejam executados em segurança, como vídeo monitoramento 24h; monitoramento por radar; monitoramento sísmico; e inspeções via drone”, acrescenta a empresa.

Procurada pelo BHAZ nessa quinta-feira (7) para atualizar os dados das ações desenvolvidas para atender as comunidades afetadas – Brumadinho, Nova Lima (Macacos), Barão de Cocais, Nova Lima e Ouro Preto -, a Vale S.A. não nos respondeu.

Comentários