Home Notícias Minas Gerais Delegado do Detran-MG é afastado por suspeita de operar esquema para liberar veículos impedidos

Delegado do Detran-MG é afastado por suspeita de operar esquema para liberar veículos impedidos

O coordenador de Operações Policiais (COP) do Detran-MG (Departamento de Trânsito de Minas Gerais), Cláudio Freitas Utsch Moreira, foi afastado do cargo nesta quinta-feira (14) após suspeitas de envolvimento em um esquema para liberação de carros com impedimento de circulação. O delegado cobraria valores entre R$ 2,5 mil e R$ 10 mil para liberar a documentação desses automóveis irregulares.

O delegado foi exonerado após vazamento de áudios nos quais detalha com terceiros a operação do esquema. Em uma das gravações, o policial afirma que, após negociações internas, ele continuaria ocupando o cargo no COP, o que facilitaria a continuidade do esquema (confira os áudios abaixo).  

Além disso, policiais da delegacia de Furtos Roubos e Crimes Contra Patrimônio também estariam envolvidos no esquema. Em determinado trecho das gravações, o delegado cita que iria “tirar tudo da furtos e roubos” e passar para o COP.

“O Chefe da Polícia Civil ao tomar conhecimento do fato determinou à Corregedoria-Geral de Polícia Civil a imediata apuração dos fatos, visando apurar a veracidade dos áudios, individualização da autoria e das condutas irregulares mencionadas nos áudios”, afirmou, por nota (leia na íntegra abaixo), a Polícia Civil.

Após as denúncias, o Órgão Especial do Conselho Superior da Civil se reuniu na quarta-feira (13) e decidiu, pela maioria dos membros, afastar Cláudio Utsch do cargo. Contudo, ele continuará na ativa, desta vez, lotado na Divisão de Operações de Telecomunicações.

Questionada se o delegado seria afastado da corporação, a Polícia Civil se limitou a afirmar que está apurando o caso. A exoneração do cargo foi oficializada nesta quarta-feira (14), no Diário Oficial de Minas Gerais.

Delegado foi transferido para outro cargo (Reprodução/Diário Oficial de Minas Gerais)

Áudios

Em dois áudios, o delegado se comunica com um homem a quem ele chama de “Muchiba”. Nas gravações, o policial fala sobre a organização do esquema e como pretende operar a retirada dos impedimentos.

Um terceiro áudio mostra uma conversa entre uma despachante e um interlocutor do delegado. Eles negociam a retirada de impedimentos em veículos com a ajuda do delegado.

“O doutor – se referindo a Claudio – só quer ganhar dinheiro. Ele quer baixar os impedimentos e pronto. Se começar a dar trabalho demais ele não pega não. Ele é um cara muito esperto”, diz o homem.

Na gravação, a mulher chega a dizer que Cláudio cobraria R$ 10 mil para fazer o processo. O homem com quem ela conversa então detalha como o delegado opera dentro do Centro de Operações.

No áudio, a mulher negocia a regularização de um carro na cidade de Guaxupé, no Sul de Minas. O interlocutor chega a mencionar uma lista com 80 carros que estariam dependendo da ação do delegado para retirada do impedimento. E que o novo valor cobrado seria de R$ 2,5 mil.

O esquema

O delegado é suspeito de retirar impedimento de veículos por meio de pagamento de valores. O BHAZ conversou com uma vítima, que não quis ser identificada, que teria sido alertada sobre o esquema operado na delegacia de Furtos Roubos e Crimes Contra Patrimônio.

A vítima teve um veículo roubado e conseguiu localizar as peças. Ela, então, comprou um novo chassi e conseguiu a autorização do Detran-MG para remontar o veículo. Contudo, foi orientada a buscar a delegacia para retirar o impedimento de furto e roubo.

Na Furtos e Roubos, a vítima foi orientada de que teria que pagar um valor de até R$ 3 mil para retirar o impedimento. Revoltada, optou por levar o caso à corregedoria e à Justiça – o processo ainda está em andamento.  

Sobre o esquema, o Detran-MG informa que fornecerá todas as informações necessárias para apuração à Corregedoria Geral da Polícia Civil. De acordo com o órgão, se forem comprovadas as irregularidades na liberação, todos os veículos beneficiados pelo esquema poderão voltar ao status de impedido.

A reportagem tentou falar com o Cláudio Freitas Utsch Moreira por números de telefone celular atribuídos ao delegado e também por meio de um advogado que já defendeu o policial em uma disputa judicial, mas não obteve sucesso. Este texto será atualizado caso o delegado se manifeste.

Impedimento

Segundo o Detran-MG, os impedimentos podem ser determinados, dependendo da natureza, por autoridades policiais, juízes, promotores de Justiça. Por esse motivo, os procedimentos para a liberação de veículos com impedimentos devem ser analisados caso a caso, conforme determina a legislação vigente.

O impedimento pode ser utilizado em casos de furto/roubo, pois suspende os tributos, como IPVA e licenciamento, pelo período em que a pessoa ficar sem o veículo e evita que possíveis infrações cometidas pelos criminosos com o veículo sejam atribuídas ao proprietário.

Há também o impedimento por situações administrativas, que é determinado no curso de investigação criminal envolvendo o veículo. Por exemplo, em casos de suspeitas de estelionato, adulterações, utilização do veículo em atos ilícitos, entre outros crimes. Neste caso, a inserção de tal impedimento inviabiliza qualquer transação, transferência, emissão de Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV), liberação de apreensões etc.

De acordo com o Detran-MG, constam 2,4 milhões de impedimentos registrados em veículos de Minas Gerais. Esses são os números de impedimentos registrados e não o número de veículos com impedimento – uma vez que um veículo pode ter mais de um impedimento.

Nota da Polícia Civil na íntegra:

“Em resposta à demanda a respeito da exoneração do Delegado-Geral Claudio Freitas Utsch Moreira do cargo de Coordenador de Operações Policiais – COP/Detran MG, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informa que a decisão de exonerá-lo foi deliberada e fundamentada por unanimidade pelo Órgão Especial do Conselho Superior da PCMG em razão da circulação de áudios com indicativos de possíveis irregularidades reveladas naquela Coordenação.

O Chefe da Polícia Civil ao tomar conhecimento do fato determinou à Corregedoria-Geral de Polícia Civil a imediata apuração dos fatos, visando apurar a veracidade dos áudios, individualização da autoria e das condutas irregulares mencionadas nos áudios.

A Polícia Civil reafirma seu compromisso institucional de promover a devida apuração da grave denúncia, pois suas ações e atos sempre são pautados nos princípios da legalidade, moralidade, oficialidade e publicidade, não coadunando com nenhum tipo de desvio de conduta de seus servidores”. 

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