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O útero, o câncer e a pobreza

2019. Somos ilhas cercadas de informação por todos os lados. São textos, artigos, livros disponíveis em segundos através de uma busca simples na internet. É de se esperar que só quem esteve fora do planeta nas últimas décadas não saiba ou nunca tenha ouvido falar da importância de se prevenir contra o câncer de colo de útero, certo? Eu não apostaria nisso.

Os números oficiais referentes às mortes por este tipo de câncer no Brasil e no mundo escondem uma realidade triste. O câncer de colo de útero não mata igualmente mulheres, independente de sua raça ou classe social. As que morrem são, em sua maioria, pretas e pobres. Por que não basta se infectar pelo HPV (Papiloma Vírus Humano) para desenvolver o câncer. Há um conjunto de fatores sociais que fazem com que mulheres biologicamente semelhantes adoeçam de formas diferentes. Para que a morte ocorra, é preciso que esta mulher não tenha acesso a informações importantes sobre a doença. É preciso que ela não realize os exames de rastreio e diagnóstico conforme as recomendações internacionais. É preciso que ela tenha que esperar tempo demais pelo tratamento. É por essas e outras que 85% das mortes por câncer de colo de útero ocorrem em países pobres.

O câncer do colo de útero é o segundo tipo de câncer mais frequente em mulheres que vivem em regiões menos desenvolvidas do mundo (Divulgação/OMS)

A infecção pelo HPV é comum. Estudos apontam que cerca de 80% das mulheres sexualmente ativas irão se infectar em algum momento da vida. Contudo, apenas uma fração muito pequena dessas mulheres irá desenvolver a doença, e uma fração ainda menor irá morrer por conta deste adoecimento. O tabagismo e o uso de outras drogas, o início precoce da vida sexual, um maior número de filhos, um maior número de parcerias sexuais e imunodeficiências como a AIDS também são fatores de risco.

Na imensa maioria dos casos de infecção pelo HPV, o próprio sistema de defesa do organismo (ou sistema imunológico) é capaz de lidar com a presença do vírus fazendo com que a infecção regrida e não provoque danos. Na pequena parcela dos casos em que a infecção persiste, a mulher pode desenvolver lesões chamadas de precursoras. São lesões que sinalizam um risco maior de câncer e precisam ser adequadamente acompanhadas e/ou tratadas para que não evoluam e se tornem o câncer, de fato.

Vivendo em um país com realidades sociais tão diversas e com um sistema público de saúde ainda tão heterogêneo, é comum haver tanto mulheres que fazem sua prevenção anualmente ou até mesmo de seis em seis meses enquanto outras mulheres passam dez, quinze, vinte anos sem realizar um exame sequer.

Os motivos são os mais variados. Muitas são trabalhadoras e não conseguem agendar consulta em horário compatível com os seus horários de trabalho nas unidades básicas de saúde que, normalmente funcionam apenas em turnos comerciais. Outras até conseguem mas se deparam com a falta de material para a realização do procedimento. Há também as mulheres que não sabem da importância do exame. Em meio a muita desinformação, mulheres viúvas ou separadas e que não tem mais atividade sexual acham que não precisam mais se prevenir. Resultado: as mulheres com maior chance de morrerem por câncer de colo de útero são as que menos realizam o exame preventivo.

O desenvolvimento da doença geralmente é lento e é também por isso que o exame deve ser feito ao longo da vida. A recomendação é que mulheres sexualmente ativas devem realizar o primeiro exame aos 25 e outro aos 26 anos. Se os dois resultados estiverem normais, esta mulher pode passar a fazê-lo de 3 em 3 anos até completar 64.

A coleta do material se dá de forma rápida e pode ser realizada por enfermeiros e médicos. É praticamente indolor. Mesmo mulheres que receberam a vacina contra o HPV devem fazer o exame com a mesma frequência.

Equipes de saúde que prestam este serviço precisam se organizar de forma a conseguirem realizar a prevenção de mulheres trabalhadoras em horários compatíveis com suas jornadas. Em muitos municípios, os mutirões que ocorrem aos sábados ou em períodos noturnos são soluções adequadas. Aproveitar outras oportunidades como consultas  de pré-natal e consultas por outros motivos é uma estratégia muito válida. Como sociedade civil, é relevante que haja uma reflexão do poder público e dos empresários sobre a oficialização de saídas em dias úteis para que trabalhadoras e trabalhadores possam cuidar da saúde sem se preocuparem com a perda financeira.

Por fim, proponho um exercício de solidariedade e cuidado. Pergunte para suas funcionárias, suas amigas, suas vizinhas, suas colegas da academia ou do trabalho se elas estão com o exame preventivo para o câncer de colo de útero em dia. Reforce sobre a importância de realizá-lo a cada 3 anos. Vá com a sua amiga que tem filhos pequenos até a unidade de saúde do seu bairro para cuidar das crianças enquanto ela cuida da saúde.

O diagnóstico precoce pode salvar vidas.

Júlia Rocha

Júlia Rocha

Júlia Rocha é médica de família e comunidade, cantora, doula e ativista. Às voltas com os desafios da maternidade, concilia o samba, a medicina e a luta por direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, pela humanização da assistência ao pré-natal, parto e puerpério, por saúde pública e universal de qualidade e a luta contra o racismo.

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