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Como um jogo de videogame

O texto de hoje seria sobre algum assunto gramatical. Ele trataria sobre possíveis erros cotidianos e traria dicas para o leitor do BHAZ. Até na quarta-feira estava me organizando para trazer conteúdo sobre a língua portuguesa, mas não vai dar. Peço desculpas aos editores e aos leitores, mas o massacre de Suzano me fez mudar tudo.

Não vou contar no texto da coluna sobre como foi o massacre na escola Raul Brasil, não vou mencionar o nome dos atiradores e nem discutir sobre a quantidade de mortos. Não precisa. Sou professor, vivo grande parte da minha vida no ambiente escolar e sinto a necessidade de tentar discutir sobre o inexplicável.

Muitas pessoas, inclusive o vice-presidente da República, General Hamilton Mourão, afirmam que o principal problema que gerou a chacina foi a influência de videogames. De fato, grande parte dos alunos adoram jogar e inclusive escolhem muitas vezes jogos que colocam o jogador como o protagonista de ataques violentos. Mas basta analisar a situação de uma forma menos minimalista para entender que não o raciocínio do General apresenta alguns pontos frágeis. De acordo com a Zewzoo, empresa que estuda o mercado dos videogames, o Brasil tem 35 milhões de jogadores e é o quarto país no mundo com a maior quantidade de adeptos. Se de 35 milhões de pessoas apenas dois resolvem cometer um atentado fica evidente que há muito mais questões além dos números, claro.

Uma outra possibilidade levantada para explicar o atentado pode ser o bullying. Os jovens que protagonizaram o atentado de Suzano eram ex-alunos da escola, assim como Wellington Menezes, responsável pela chacina do Realengo, em 2011, era ex- aluno do local onde entrou atirando e matou 12 crianças. De fato, o bullying é muito presente nas escolas brasileiras, públicas e privadas, mas nem todos que sofrem com esse ato são responsáveis por atentados assustadores como o que ocorreu na quarta-feira.

Uma questão muito relevante também é que nas escolas brasileiras e até no SUS há pouco amparo psicológico. No século XXI, com uma sociedade altamente pressionada e viciada em trabalho é comum que os pais se ausentem e deixem de dar o apoio necessário aos filhos em idade escolar. Há uma terceirização da educação das crianças e dos adolescentes que, muitas vezes, sofrem com a ausência de diálogo familiar e com as consequências de uma sociedade que oferece muito mais pressão do que apoio. Nesse contexto, muitas vezes as crianças e os adolescentes não conseguem ter estabilidade psicológica e na ausência de atendimento nas escolas acabam, em vários casos, desenvolvendo ansiedade, depressão e outros problemas que poderiam ser evitados. E no fim das contas acaba sobrando para o videogame e para o bullying, o que para muitos é o grande problema da juventude e do sistema educacional. Será?

Como se não fosse suficiente, na sexta-feira tivemos uma outra surpresa: o ataque na Nova Zelândia, que gerou mortos em mesquitas no país. O assassino filmou tudo ao vivo em primeira pessoa, mostrando as mortes sucessivas geradas por intolerância e, claro, por algum tipo de problema psicológico. A culpa do ataque não seria da lei que flexibiliza a posse de armas na Nova Zelândia? Talvez o General Mourão pense que ele era também um jogador de videogame.

O que faz com que o indivíduo chegue em um determinado local atirando em todos que encontra pela frente? Todos nós sabemos que as ações cometidas pelos indivíduos vêm dos impulsos nervosos e dos comandos enviados pelo cérebro, que é a central para os movimentos produzidos pelo corpo. Assim, é necessário que o órgão funcione sempre plenamente e nesse contexto a saúde mental é absolutamente necessária. Além disso, uma boa dose de tolerância, de amor, e de aceitação à diversidade. Mas o que faz dos indivíduos tão diferente: assassinos e assassinados, torturadores e torturados, assaltantes e assaltados? Somos submetidos a situações muito semelhantes de pressão e dificuldade cotidiana, mas enquanto uns buscam pela paz, outros preferem a guerra. Quem comanda as ações do cérebro? Quem escolhe quem são os bons e os ruins? Quem, em um outro plano, controla o que as pessoas vão ou não vão fazer? Parece que o jogador que domina as nossas ações tem gostado bastante de jogos violentos e que as vidas podem acabar de forma fútil e repentina, como num jogo de videogame.

O pior disso tudo é perceber que ultimamente a própria juventude está decepcionada e lamentos sobre o caminho que o ano de 2019 tem tomado são muito comuns. Parece que tudo que ocorre é culpa deste ano nebuloso que estamos vivendo. Já ouvimos de todos os lados que este ano tem sido muito pesado e que tem logo que acabar: desastre de Brumadinho, morte de jovens do Flamengo, desastre na escola em São Paulo, chacina na Nova Zelândia. Mas será que a culpa é mesmo do ano? Ou seria de tudo que construímos, pouco a pouco, com um discurso crescente de ódio, não aceitação do diferente, falta de diálogo ou de apoio psicológico?

O momento é de resiliência, de tentar sobreviver mesmo com todas as adversidades, de buscar alternativas para um ano melhor e para uma boa convivência entre os indivíduos não só no Brasil, mas em todo o mundo. O problema não é do ano de 2019, mas de quem está jogando e controlando os nossos cérebros. Tem sido um ano muito pesado, mas temos que levantar a cabeça para tentar mudar a realidade, ou vamos ficar para sempre culpando um ano difícil ou até os jogos eletrônicos. Qual caminho você prefere?

Marcelo Batista

Marcelo Batista

Marcelo Batista é professor de redação no Bernoulli, no Qi, na plataforma Kuadro, na Qualoo e na Transvest. Graduado em letras pela UFMG, é o fundador da Aprendi com o Papai, plataforma que conta com um canal no Youtube e salinha de redação em Belo Horizonte. Com quase 15 anos de experiência em sala de aula, já trabalhou no ensino fundamental, médio, pré-vestibulares e preparatórios para concursos públicos, o que faz com que tenha uma grande proximidade não só com a educação, mas também com as temáticas mais relevantes para a juventude.

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