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Polícia Civil sabia desde o ano passado sobre tatuador denunciado por assediar mulheres na Savassi

A Polícia Civil de Minas Gerais já tinha conhecimento sobre a ação do tatuador Leandro Caldeira, conhecido como Leleco, que é apontado como autor de assédio sexuais contra mulheres que eram clientes do estúdio Reggae Tatto, localizado na Savassi, na região Centro-Sul de BH.

Por meio de sua rede social, o tatuador negou as acusações, contudo a publicação foi trancada nesta terça (19). “Sou tatuador profissional há 22 anos, sem nenhuma mácula no meu currículo e afirmo como pai de família, marido e filho, que nenhuma destas acusações são verdadeiras”, disse.

Ele também ressaltou que registraria um Boletim de Ocorrência “para apurar todas as calúnias, injúrias e difamações contra meu nome”. De acordo com a Polícia Militar, entre ontem e hoje, nenhuma boletim em nome de Leandro foi registrado.

Em janeiro do ano passado, uma das vítimas acionou a Polícia Miliar e procurou a Delegacia de Plantão de Atendimento à Mulher para denunciar ter sido assediada pelo tatuador.

Duas ocorrências foram registradas, uma delas por volta das 19h30 em frente ao estúdio, na avenida Nossa Senhora do Carmo. No dia seguinte, a jovem procurou uma delegacia da PC por volta das 17h e registrou uma nova ocorrência, desta vez relatando o fato.

A vítima, que tem 27 anos, fez duas tatuagens com Leandro. Durante a sessão, o homem teria colocado a mão da vítima nas partes íntimas dele. “Quando começamos o segundo desenho, eu virei de costas e comecei a mexer no meu celular. Quando percebi, minha mão estava na região do pênis dele, que estava com uma ereção. Eu me assustei e perguntei se já estava acabando, pois eu tinha um compromisso”, diz ela.

O BHAZ procurou a Polícia Civil para comentar o andamento da apuração do caso. A corporação explicou que não irá repassar informações a respeito para que as investigações não sejam comprometidas, já que diligências importantes estão sendo realizadas.

Quatro meses depois da denúncia feita em janeiro, outra mulher teria sido assediada pelo tatuador no mesmo local. A jovem relatou ao BHAZ (confira o depoimento abaixo) que foi vítima dos assédios sexuais do tatuador em junho. Ela conta que chegou a suspeitar que Leandro havia ejaculado em sua mão, porém não denunciou o caso por achar que era coisa da cabeça dela.

Tatuador  

A reportagem tentou contato com Leandro Caldeira nesta terça-feira (19). No entanto, ele não atendeu as ligações em seu celular pessoal e tampouco no estúdio Reggae Tattoo. Na noite de ontem, ele fez uma postagem em seu Instagram, onde se defendia das acusações. Entretanto, o perfil do estúdio foi trancado nesta terça, deixando as postagens disponíveis apenas para seguidores autorizados.

Denúncias

As denúncias vieram a público após a ex-candidata ao Senado, ativista e professora Duda Salabert fazer uma enquete em sua rede social questionando se as mulheres já sofreram abuso em estúdios de tatuagem. A partir disso, segundo Salabert, mais de cem mulheres entraram em contato relatando casos de abusos, 40 delas citaram o estúdio. O BHAZ conversou com quatro das vítimas.

Sem calcinha, sem blusa

Em dezembro de 2016, uma mulher – hoje com 28 anos – procurou o estúdio para fazer uma tatuagem na barriga, pouco abaixo do umbigo. O responsável pelo estabelecimento pediu para que ela retirasse a calcinha.

“Eu imaginei que fosse para facilitar o trabalho dele e, inocente, optei por tirar. Eu deitei na maca e me senti incomodada, pois ele estava apoiando a mão em minhas partes íntimas. Em um determinado momento ele forçou o dedo na direção da minha vagina, foi quando eu fingi que estava tossindo e ele perguntou se estava doendo”, relembra.

“Isso se repetiu algumas vezes ao longo das 4h de sessão. Eu queria que ele parasse, mas fiquei com medo da tatuagem ficar ruim. Saí de lá me sentindo muito mal e só contei para uma amiga o que tinha ocorrido”, relata.

No caso mais antigo dos relatos, em 2012, uma jovem de 19 anos – hoje, com 25 anos – afirma ter sido obrigada a tirar a blusa mesmo sem necessidade. A tatuagem foi realizada na costela. Além disso, a vítima afirma que o tatuador demorou de forma proposital e, em determinado momento, derrubou tinta e passou a mão em seu seio, alegando que estava limpando o local.

Em choque e amedrontada, a mulher ficou com medo de reagir, já que tratava-se de sua primeira tatuagem e o homem poderia prejudicar o desenho.

‘Ereção’

Já em junho do ano passado, outra mulher, que hoje também tem 25 anos, suspeita que o tatuador ejaculou em sua mão. Ele posicionou o braço dela de forma com que sua mão ficasse próxima ao pênis dele – um desenho simples durou mais de 1h para ser concluído.

“Durante a tatuagem ele ficava encostando a genital em mim. Deu para perceber que havia ereção. Em um momento eu senti minha mão úmida, mas não sei se ele ejaculou”, conta.

A vítima conta algo recorrente nas denúncias: pensou que fosse “algo da cabeça dela” e preferiu não denunciar. “Não contei nada para ninguém. Achei que ele estava fazendo aquilo por conta da posição do meu braço. Eu até pensei em voltar no estúdio para corrigir uma falha no desenho, mas evitei porque achei tudo muito estranho”.

Com o surgimento de várias denúncias envolvendo o mesmo tatuador, a vítima resolveu expor o caso. “Estou indignada, me sentindo ingênua. O pior é ver que a maioria das mulheres estava como eu, achando que era coisa da cabeça delas enquanto o tatuador estava claramente abusando. É triste passar por isso e ainda se culpar. É um absurdo. E ainda bem que somos várias e vamos conseguir alguma coisa”, afirma a vítima.

Outra vítima ouvida pela reportagem, uma mulher de 27 anos, conta que já havia feito tatuagens com o Leandro, em 2011. Na época ela estava acompanhada do namorado. Contudo, em janeiro do ano passado, ela voltou sozinha e percebeu a mudança de comportamento do tatuador.

“Fui fazer duas tatuagens, uma no braço e outra na perna. Ele me convenceu a fazê-las no antebraço e no bíceps e eu concordei. Durante a sessão, por diversas vezes, ele colocava meu braço em seu colo e eu recolocava na maca. Ficamos nessa até que eu decidi travar o braço e ele parou”, afirma.

“Quando começamos o segundo desenho, eu virei de costas e comecei a mexer no meu celular. Quando percebi, minha mão estava na região do pênis dele, que estava com uma ereção. Eu me assustei e perguntei se já estava acabando, pois eu tinha um compromisso”, diz ela.

Ministério Público

Duda Salabert já procurou a Defensoria Pública, vai acionar o Ministério Público e conta que está organizando um grupo de mulheres para estudar as medidas cabíveis para o caso. “São muitas denúncias e nós não podemos deixar isso assim. Eu estou entrando em contato com as mulheres e, juntas, vamos formular uma ação”, afirma.

Advogados populares e psicólogos da Casa de Referência da Mulher Tina Martins já estão sendo acionados para atuar no caso. Duda Salabert planeja, também, pedir auxílio de tatuadores para cobrir as atuais intervenções.

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