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80 TIROS NÃO PODEM SER 1 ENGANO

Faça uma análise mental e responda: em quantas realidades você consegue supor que o carro de uma família seria fuzilado por 80 tiros pelo Exército Brasileiro e, pasmem, ainda existiriam “justificativas” para isto? Vamos além, em quais bairros está “autorizado” que o Exército ou a polícia entre para matar moradores? Em quais bairros a polícia se justifica? Em quais locais os comentários mais comuns buscam nas vítimas a justificativa para o genocídio?

Ontem, domingo (7 de abril de 2019), enquanto estava a caminho de um chá de bebê, o carro da família de Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, foi FUZILADO pelo Exército Brasileiro. As notícias dão conta de mais de 80 tiros contra o carro do pai de família. Outras duas pessoas foram baleadas, o sogro de Evaldo que encontra-se hospitalizado e um pedestre que tentou ajudar as vítimas. Ao todo eram cinco pessoas dentro do veículo – a esposa de Evaldo, seu filho e uma amiga da família não foram feridos pelo Exército.

Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos. Assassinado pelo Exército Brasileiro enquanto ia com a família à um chá de bebê.
Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos (Facebook/Reprodução)

A primeira resposta do Comando Militar foi dizer que os oitenta disparos foram um revide a uma “injusta agressão” vinda do veículo, ou seja, a “justificativa” do Exército Brasileiro para fuzilar um carro com uma família de cinco pessoas dentro é que “eram assaltantes atirando em nós”. A fonte? Como diria o meme, “vozes da cabeça de alguém”. O grupo obviamente não estava armado, tão pouco eram assaltantes. Eram, como já dito, apenas uma família a caminho de um chá de bebê.

Também ontem, Dia do Jornalista, o repórter Carlos de Lannoy, veterano da TV Globo, postou em seu Twitter a denúncia de que, logo após ir ao ar a reportagem sobre o fuzilamento do carro da família no Rio de Janeiro, recebeu ameaças contra a sua vida e de seus familiares. Mais uma vez o convite à reflexão: em quais situações há a exceção do Estado nesta sequência: assassinato de uma família inocente e silenciamento da mídia que noticia estas violências?

A parte que deve chamar maior atenção em tudo isto é que não podemos normalizar situações como esta. Elas não podem ser esquecidas ou, pior ainda, gerar conformismo. Não é assim, não deve ser assim, não tem que ser assim, não é normal que seja assim. Não é normal que exista uma parte da população deste país que, ao invés de manifestar indignação, revolta e protestos, manifeste apenas justificativas por parte de uma polícia racista e assassina.

A população, acostumada a ver corpos pretos assassinados pelo Estado, automaticamente justifica o genocídio. “O que ele fez para ser assassinado?” Não se perguntam, porém, porque é que o Estado assassinou um pai de família, num domingo à tarde e feriu mais duas pessoas.

Todos os dias morremos um pouco. Quando o Estado não é genocida diretamente, mata um pouco de cada um de nós.

Quando o tiro não é na cara, é na alma. Parem de nos matar.

“Tão pedindo intervenção em pleno ano de eleição, será que tu num entendeu como funciona isso até hoje? O Exército subindo pra matar dentro da favela, mas a cocaína vem da fazenda dos senadores”

Favela Vive 3 (part. Choice, Djonga, Menor do Chapa e Negra Li) ADL MC’s



Lívia Teodoro

Lívia Teodoro

Lívia Teodoro é uma mineira de 27 anos, jornalista, designer e graduanda em História pela UFMG, além de blogueira (Na Veia da Nêga) e youtuber desde 2014. Antirracismo, feminismo negro, diálogos francos sobre bissexualidade e maternidade solo marcam a escrita de Lívia, que busca discutir todos os assuntos de maneira didática e objetiva, tornando as pautas acessíveis para todas as pessoas.

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