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Cidade encardida: Congonhas ganha sistema que monitora a poeira emitida por mineradoras

Um sistema de monitoramento da poeira que paira sobre a cidade histórica de Congonhas, a cerca de 90 quilômetros de Belo Horizonte, e em funcionamento de forma experimental, está mapeando, 24h, a origem do material particulado para indicar, num futuro próximo, medidas e tecnologias mais modernas a serem adotadas pelas cinco empresas mineradoras que atuam na cidade.

O maior objetivo do projeto é avaliar o impacto da poeira sobre a saúde da população. O sistema integra a rede de monitoramento da qualidade do ar de Minas, feito pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), e é fruto de um termo de compromisso assinado entre o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), a Prefeitura de Congonhas e cinco mineradoras que atuam na cidade: CSN, Ferrous, Ferro+, Gerdau e Vale. No termo, as empresas custearam o levantamento da situação ambiental atmosférica na cidade e a implantação do sistema.

De acordo com o promotor de Justiça do município, Vinícius Alcântara Galvão, a implantação do monitoramento da qualidade do ar no município é de grande importância e é projeto antigo, de oito anos atrás. “A informação é o primeiro passo. Com os dados em mãos, saberemos de onde está vindo a poeira e, desta forma, poderemos cobrar ações mais eficazes das empresas, juntamente com os órgãos de fiscalização, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente local e a Feam”, diz.

De acordo com o secretário Municipal de Meio Ambiente (Semma), Neylor Aarão, a rede é composta por 13 estações instaladas nos bairros Matriz, Basílica, Jardim Profeta, Pires, Nova Plataforma, Lobo Leite, além de sete 
nas áreas das mineradoras CSN Mineração, Vale, Ferrous, Ferro+ e Gerdau.

“Os reflexos da poeira, quando acentuados, são perceptíveis num curto espaço de tempo nas casas e ruas, onde se verifica o aspecto encardido de sujeira. A exposição prolongada a poeira pode agravar problemas respiratórios, principalmente nas crianças e idosos, podendo causar também outras doenças, piorando a qualidade de vida dos cidadãos. Com as estações, prefeitura e Estado, por meio da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), vão monitorar a qualidade do ar da cidade”, explica Aarão.

Segundo secretário de Meio Ambiente, a prefeitura disponibiliza dois técnicos da Semma que se revezam durante o dia. “Quando eles verificam picos de emissão da poeira, vão até o local próximo da estação para checar se trata-se realmente de adensamento de material particulado na região ou se outros elementos estão causando anomalias, como queimadas”, explica.

As estações já estão coletando os dados, em tempo real, que são disponibilizados para análise. “Esperamos que a médio e longo prazo as empresas adotem medidas e novas tecnologias para a redução da emissão dos materiais particulados, que nos últimos anos têm afetado toda cidade, se transformando também num ponto de muito embate 
administrativo e jurídico entre as empresas e o departamento de 
fiscalização da Semma”, acrescenta Neylor Aarão.

 Apesar de as estações já estarem coletando os dados há cerca de um ano, de forma experimental, o programa e a divulgação para acesso público dos dados serão lançados no fim de maio.

Monitoramento 24 horas

Procurada pelo BHAZ, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) informou que o sistema monitora gases poluentes e partículas (poeira) continuamente. Os dados são disponibilizados à Feam e à Prefeitura de Congonhas de hora em hora, no centro supervisório do próprio município e também no da Feam.

“No centro supervisório da Gerência de Monitoramento da Qualidade do Ar e Emissões da Feam, os dados são avaliados e transformados em informações que são disponibilizadas para a população por meio de boletins diários no site da fundação”, informa a Feam.

Segundo o órgão, que compõe o Sistema de Meio Ambiente de Minas Gerais (Sisema), o objetivo da rede é acompanhar o impacto real das emissões atmosféricas na qualidade do ar da região, de forma detalhada, a fim de verificar o impacto e a efetividade das medidas de controle adotadas pelas empresas e exigidas pelos órgãos competentes, além de direcionar as políticas públicas para melhoria da qualidade do ar.

O impacto na saúde

Diversas doenças respiratórias e pulmonares podem ter ligação com a poeira que paira sobre Congonhas, que tem hoje cerca de 53 mil habitantes. A Secretaria Municipal de Saúde, no entanto, afirma não ter estatísticas e estudos científicos que correlacionem as doenças com a poeira e metais pesados que pairam no ar.

De acordo com o secretário Municipal de Saúde, Luiz Fernando Catizane Soares, uma comissão intermunicipal foi criada com o intuito de fazer esse levantamento de forma mais aprofundada. “O que existe, ainda, é uma percepção empírica e uma sensação da própria população de que a poeira pode estar relacionada a doenças respiratórias e pulmonares. Mas não seria responsável de nossa parte afirmar isso. Por essa razão, é necessário levantarmos de forma mais sistematizada junto aos serviços público de saúde se há, de fato, incidências fora da curva”, diz.

Segundo Catizane, para ter uma amostra mais aprofundada que indicasse a relação da poeira com incidência de doenças pulmonares no município, seria necessário atuar em duas frentes: exames e biópsias em uma amostra da população e também comparar dados de Congonhas com os de municípios que vivem situação similar, com atividade minerária bem próxima ao núcleo urbano.

“Parece fácil tabular os dados simplesmente, mas não é assim. Necessitaríamos de um recurso extra para fazer um levantamento, mesmo que parcial, de biópsias, por exemplo”, cita o secretário.

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