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O estudante no Brasil não é levado a sério

A crise chegou, dessa vez com ainda mais força ao sistema educacional brasileiro. Nas áreas em que mais atuo, colégios e pré-vestibulares, algumas instituições fecharam as portas, deixando, inclusive, muitos professores sem receber. Os cursinhos que permanecem no mercado estão lotados de alunos desesperados por uma vaga em uma universidade federal, ainda mais do que antes.

A maior parte dos alunos que investem em um curso para passar no vestibular deseja o mais concorrido deles: o de medicina. Outros que almejam a profissão já não têm os mesmos recursos para custear o sonho e preferem estudar em casa ou acompanhando o conteúdo por aulas virtuais. A quantidade de alunos que precisam de descontos para estudar também só vai aumentando. Muitos têm buscado alternativas para poder ajudar nos gastos enquanto estudam: venda de doces, salgados, trabalho informal. E no tempo restante, o que sobra é muito estudo e esperança.

Na última década, era comum que os alunos passassem em um universidade particular e conseguissem entrar, com o Fies ou Prouni, programas que auxiliavam as pessoas de classe mais baixa permitindo que o curso fosse pago depois de formar ou com algum desconto, mas a situação foi piorando, aos poucos. Menos universidades aderindo aos programas, redução na quantidade de alunos que conseguiam os descontos, até chegarmos na quase impossibilidade de bolsa.

Na realidade dos últimos anos (e principalmente de 2019), os alunos que não podem pagar uma faculdade particular de medicina, que apresenta, na maioria das vezes, uma mensalidade em torno de absurdos R$ 7 mil, ficam mais tempo estudando para tentar uma vaga em uma universidade federal.

Como consequência desse processo, os que têm melhores condições financeiras acabam optando pelas particulares e os que não podem precisam se matar para entrar em uma federal. Assim, a pressão aumenta, a insegurança aumenta, a pontuação mínima para passar aumenta e, mesmo assim, todos colocam as expectativas no Enem.

E como ficarão as federais? Com o anúncio dos cortes nas instituições, muitos começam a temer o fechamento de algumas universidades públicas ou um ensino superior cada vez mais sucateado. Entre contas com chocolates e a redução de 30% nos investimentos, os alunos estudam cada vez mais, sonhando com um melhor resultado no Enem e um novo futuro nas universidades.

Enquanto isso, as fake news relacionadas às federais se multiplicam. Há quem acredite, de fato, que os estudantes só querem mesmo fazer balbúrdia e usar o ambiente acadêmico para curtir a vida. E os já sofridos pesquisadores brasileiros perdem investimento, incentivo e bolsas, o que fomenta ainda mais a “fuga de cérebros” para outros países que levam os estudantes mais a sério.

Como se não bastasse, a insegurança veio até para o estilo das provas do Enem. Com o corte de gastos na produção da prova, os boatos já se multiplicam sobre uma prova mais curta, objetiva, conteudista e com menos espaço, inclusive para os rascunhos. Fora as possíveis mudanças do que para o governo seria uma ideologia presente no exame.

Escuto diariamente o receio dos alunos em relação ao possível tema da redação. Se grande parte dos temas tratavam dos grupos minoritários, será que algo pode mudar? Prefiro pensar que não. E o ano promete ainda ser de fortes emoções. O que resta, por enquanto, é torcer para que a educação consiga, assim como a economia, um novo fôlego durante o já difícil ano de 2019.

Marcelo Batista

Marcelo Batista

Marcelo Batista é professor de redação no Bernoulli, no Qi, na plataforma Kuadro, na Qualoo e na Transvest. Graduado em letras pela UFMG, é o fundador da Aprendi com o Papai, plataforma que conta com um canal no Youtube e salinha de redação em Belo Horizonte. Com quase 15 anos de experiência em sala de aula, já trabalhou no ensino fundamental, médio, pré-vestibulares e preparatórios para concursos públicos, o que faz com que tenha uma grande proximidade não só com a educação, mas também com as temáticas mais relevantes para a juventude.

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