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Venda de animais no Mercado Central é uma vergonha para BH

O Mercado Central é um patrimônio cultural mineiro. Não há belo-horizontino que não se sensibilize ao lembrar dos sabores do abacaxi, da limonada, do açaí, do jiló e da cerveja, que transformam o mercado não apenas em ponto turístico, mas também espaço de memórias afetivas. Porém, infelizmente, há uma parte do mercado que se destaca negativamente pelos maus-tratos e pelo desrespeito à vida dos animais. Essa parte – que faz o Mercado Central se aproximar das feiras da Idade Média – assusta turistas, espanta consumidores e ainda coloca em risco a saúde de centenas de pessoas.

É histórica e atravessa décadas a luta social pelo fim da venda de animais no Mercado Central. Não são raras as narrativas que denunciam episódios de maus-tratos, de torturas e de outras violências contra os animais que ficam engaiolados nos seus corredores. Também não são raros os laudos técnicos assinados por veterinários que apontam irregularidades no controle sanitário, na oferta de água e de comida para animais e na superlotação de gaiolas, por exemplo. Essas mobilizações da sociedade acabam resultando em liminares jurídicas que proíbem a venda dos animais. Mas as liminares, devido à força política de alguns comerciantes, são sempre suspensas.

Além do sofrimento, a venda de centenas de animais pode transformar o mercado em um polo de doenças contagiosas que são espalhadas por secreções. Isso poderia explicar, por exemplo, os inúmeros relatos de mortes de animais dias após a compra. Há que se lembrar também que existe o perigo de contaminação de queijos, salames, comidas e de outros alimentos que são comercializados sem embalagem no ambiente.  É preocupante um espaço de venda de comida ser cercado por gaiolas superlotadas de ratos, pombos, coelhos, gatos, cachorros, etc.

Outro problema desse comércio é que ele desrespeita a Lei Municipal 7.852/99, que proíbe a entrada de animais em mercados da capital. Desrespeita também resoluções do Conselho Federal de Medicina Veterinária, que dispõem sobre ambientes adequados para comercialização e sobre condições necessárias para o bem-estar dos animais.

Todo esse quadro se configura ainda como um problema ético que deve ser enfrentado pela sociedade mineira. No atual contexto de luta pela propagação da cultura de paz, não é possível mais admitir violência contra animais. Afinal, como está escrito na Bíblia: “o justo tem considerações pela vida de seus animais”.

A luta pelo fim da venda de animais no Mercado Central é sobretudo uma luta contra a lógica capitalista que mercantiliza as vidas e que as transforma em mercadoria, em coisa, em números. Essa lógica está presente nos olhares que naturalizam o comércio de animais; está presente nas pessoas que, em vez de adotar, insistem comprar cães e gatos; está presente nas indústrias de cosméticos que, de forma desnecessária, fazem testes cruéis em coelhos e em outros animais; está presente também no ecocídio de Brumadinho que colocou o dinheiro acima das vidas.

Para enfrentar essa perspectiva mercantilista e coisificadora, urge diariamente difundirmos uma ética biocêntrica que mostre e reconheça o valor de todas as vidas. Por isso tudo, a luta contra o comércio de animais no Mercado Central deve ser uma luta de todos mineiros que sonham com um mercado sem gaiolas, sem contaminações e sem sofrimento de animais.           

Duda Salabert

Duda Salabert

Duda Salabert é professora de literatura, ambientalista e acadêmica de Gestão Pública pela UEMG. Ativista no campo da educação popular, idealizou e preside a Transvest: ONG que oferece há quatro anos cursos gratuitos para travestis e transexuais de BH. Vegana há sete anos, desenvolve projetos e ações de conscientização ambiental e de defesa dos direitos dos animais.

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