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Kalil cancela coroação de Nossa Senhora das Travestis após pressão de católicos

ATUALIZAÇÃO ÀS 15H18: Matéria atualizada às 15h18 com a nota da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte.

O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), cancelou a coroação de Nossa Senhora das Travestis nesta sexta-feira (19). A performance teatral estava marcada para ocorrer neste sábado (20) durante a Virada Cultural de BH. A atração foi alvo de manifestações por parte da comunidade católica.

Pelo Twitter, Kalil fez duas postagens no fim da manhã desta sexta. Na primeira delas, considerada como ambígua, ele disse defender “todas as liberdades”. No entanto, o chefe do Executivo municipal alegou que “ninguém vai agredir a religião de ninguém”. Na sequência, em uma nova publicação tuitou: “Estou comunicando que o evento está cancelado”.

Uma petição on-line foi criada pelos católicos com o objetivo de cobrar o cancelamento por parte do prefeito. “Permitir a realização desse evento é autorizar um ataque direto e frontal de uma minoria intolerante contra aquilo que sustenta e mantém de pé a esperança do dia a dia da maioria de nossa população: a fé e a adoção maternal de Maria Santíssima”, diz trecho da petição.

A coroação de Nossa Senhora das Travestis estava marcada para ser apresentada no Espaço Rio de Janeiro, a partir das 20h de sábado. Para a comunidade cristã católica o ato é um “vilipêndio da fé católica e do sentimento religioso dos cristãos que reverenciam Nossa Senhora como Mãe de Jesus Cristo”.

Ao selecionar a performance da Academia TransLiterária, a Secretaria Municipal de Cultura, afirmou em nota, que não teve a “intenção de ferir a crença religiosa de qualquer pessoa ou grupo. “Na medida em que uma parte da sociedade sentiu-se duramente ofendida, optou-se, então pela suspensão da atividade”, diz trecho da nota que pode ser lida na íntegra abaixo.

A Academia TransLiterária explicou, por meio de nota, que a performance usa referências religiosas, mas que não tem a ver com a religião em si. “Se a referência de base são alguns símbolos religiosos, por outro lado não se trata de substituir nenhum deles por essa nossa imagem. Menos ainda trata-se de negar a fé alheia”, diz um trecho da nota (veja abaixo na íntegra).

“Não é a Senhora Mãe de Jesus aqui, mas uma Outra Senhora, a nossa travesti, moça que é diariamente excluída do convívio social (olhada com horror e desdém), do mundo da arte e da cultura (condenada a nunca ter ideias ou opiniões), da economia (restando-lhe só a prostituição), das ruas (salvo as esquinas dessa mesma prostituição) e da religião (como se não fosse parte de um mistério maior da vida)”, acrescenta outra parte.

‘Desrespeito à fé cristã católica’

Antes do evento ter sido cancelado, a Arquidiocese de Belo Horizonte disse ser contrária ao ato, afirmando que se trata de uma “ação preconceituosa e criminosa de desrespeito à fé cristã católica”. “Exigimos e esperamos que as autoridades competentes e os organizadores suspendam este evento”, diz trecho do comunicado.

A entidade ainda convocou os católicos a se manifestarem contra a Academia TransLiterária. “Convocamos todos os católicos a se manifestarem, exigindo respeito e a suspensão imediata desta criminosa ação, um desrespeito”.

Nota da Secretaria Municipal de Cultura de BH na íntegra:

“A organização da Virada Cultural de Belo Horizonte informa a suspensão da performance da Academia Transliterária, uma das 447 atrações previstas na programação. Ao ser selecionada por meio de um chamamento público, em nenhum momento houve intenção de ferir a crença religiosa de qualquer pessoa ou grupo. Mas na medida em que uma parte da sociedade sentiu-se duramente ofendida, optou-se, então, pela suspensão da atividade.

A Virada Cultural de Belo Horizonte é um evento que preza pela pluralidade e que tem como objetivo a convivência pacífica e harmônica entre todos os cidadãos”.

Nota da Academia TransLiterária

“Travesti Rainha censurada na virada cultural

Nós da Academia TransLiteraria informamos com muito pesar a censura que recebemos por parte da organização da Virada Cultural de Belo Horizonte, na pessoa do prefeito Alexandre Kalil, via postagem no Twitter e redes sociais sem o devido contato o anterior com o coletivo e sem cumprimento do prazo com a secretária de cultura. Estivemos essa manhã na secretaria municipal de cultura em reunião com representantes desta secretaria bem como da fundação municipal cultura incluindo Juca Ferreira, Fabíola Moulin e Lilian Nunes, responsável do Instituto Periférico. Nesta reunião fomos comunicades que a censura é um fato e que não há o que fazer da parte da secretaria, da fundação e de nossa parte.

Contextualizamos também a trajetória e ações artístico-sociais promovidas pelo coletivo numa tentativa de reverter a censura imposta pelo prefeito Alexandre Kalil e Arquidiocese de Belo Horizonte na figura do arcebispo Dom Walmor. Gostaríamos de ter a possibilidade de diálogo com quem acredita que nossa ação é um ataque a fé católica ou cristã, para que entendam os seguintes aspectos que vem a seguir: O poder que as artes têm de mudança de realidade social. É forte para nós da Academia TransLiterária ao longo desses quase três anos de existência nos olharmos cara a cara e ver quem fomos, onde estávamos e quem nos tornamos após o início desse coletivo. Empoderamento que leva a emancipação, pois se podemos ser artistas podemos ser qualquer coisa. Dizemos, somos artistas! Dizemos que nossos corpos falam de uma cultura, um lugar, falamos nossa própria língua, nossos corpos respondem artisticamente de várias formas, somos uma comunidade. Produzimos culturaS. Extrapolamos o real, não pretendemos mais performar para mostrar o mundo como ele é, para isso temos as estatísticas, temos a convivência.

Nós performamos para transformar o mundo. Nós tornamos a nossa representação em si real, uma revanche. Vamos ao longo da trajetória da Academia TransLiterária celebrando, festejando cada passo, cada criação. Nossa arte é festa por que em um mundo que não deseja nossos corpos vivos, seguimos vivos. Performamos, escrevemos, pesquisamos, pensamos, festejamos, poetisamos um mundo diferente para nós todes, cientes do mundo no qual estamos. Assim surge a Coroação de Nossa Senhora das Travestis: um atraque literário.

A partir de uma situação na preparação de outra performance, em que nossa amiga e integrante do coletivo, Nickary Aycker, jogou a bandeira Trans sobre o corpo e colocou na cabeça uma coroa de flores. Parecia uma entidade sagrada e daí, a partir dessa visão em todo o seu brilho, vimos uma espécie de culto a todas as travestis, do nosso coletivo e fora dele, como forma de celebração da vida. Se a referência de base são alguns símbolos religiosos, por outro lado não se trata de substituir nenhum deles por essa nossa imagem. Menos ainda trata-se de negar a fé alheia. Não é a Senhora Mãe de Jesus aqui, mas uma Outra Senhora, a nossa travesti, moça que é diariamente excluída do convívio social (olhada com horror e desdém), do mundo da arte e da cultura (condenada a nunca ter ideias ou opiniões), da economia (restando-lhe só a prostituição), das ruas (salvo as esquinas dessa mesma prostituição) e da religião (como se não fosse parte de um mistério maior da vida).

Coroação de Nossa Senhora das Travestis: um atraque literário é, portanto, uma celebração da potência que vive em cada travesti. Mas é também um encontro com todas as outras potências de todas as outras pessoas ali presentes, sejam trans, cis, hétero, homo, não binárias, intersexo ou como se identificam e seguem suas existências. Não queremos propor e nem mudar nenhuma religião. Não se trata de religião. Há aqui apenas um aspecto religioso no encontro com todos em volta de nós: a ideia de religar as pessoas, de coração aberto e na alegria. Estamos abertos ao diálogo e somos contra qualquer tipo de censura as artes no Brasil. É importante ressaltar que Minas Gerais é e continua sendo o estado que mais mata no país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo. Mas, nós seguimos na luta! E vamos vencer no amor!”

Vitor Fórneas

Vitor Fórneas

Jornalista no Portal Bhaz

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