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Deltan, o Padre José curitibano

Por Rodolpho Barreto Sampaio Júnior*

Pouco a pouco, a estrutura da República Paralela de Curitiba vai sendo desvendada. O seu líder é um procurador messiânico, que resolveu tomar para si a tarefa de extirpar a corrupção no Brasil. Movendo-se nas sombras, articulou para garantir o sucesso da Operação Lava Jato, ao mesmo tempo em que colocava contra a parede as autoridades que poderiam frustrar os seus planos.

Uniu-se a um juiz ambicioso e, sem pudores, submeteu-se docilmente a suas críticas e sugestões. Substituiu a procuradora que faria uma audiência capital, discutiu a ordem e celeridade das operações da Polícia Federal, enviou antecipadamente a minuta de petições que ainda seriam protocoladas, absteve-se de formalizar o pedido de apreensão do celular de Eduardo Cunha, compartilhou a preocupação do juiz em não melindrar pessoas cujo apoio era considerado importante, dentre outros atos que um pool de veículos de comunicação vai, paulatinamente, tornando públicos.

A simbiose entre juiz e procurador, cada vez mais, começa a ser entendida. À medida que suas inconfidências vão sendo reveladas, percebe-se que, ao mesmo tempo em que atendia ao juiz, o procurador dele se beneficiava. Na verdade, ambos tinham uma pauta e não se incomodavam em servir um ao outro. Afinal, havia uma comunhão de interesses, e eles rapidamente descobriram as vantagens do trabalho cooperativo.

O messias do Ministério Público Federal, no entanto, sabia que a cumplicidade do juiz não garantiria o sucesso de sua empreitada. Era necessário também o apoio da imprensa e da opinião pública. E ele soube se movimentar para garantir esse apoio. Pautava a imprensa – e por isso alguns veículos de comunicação lhe são leais até os dias de hoje – e articulava com “grupos apartidários” a divulgação de dados para pressionar congressistas, ministros do STF, a procuradora geral e o próprio ex-presidente Michel Temer; mobilizações e manifestações populares também eram sugeridas e organizadas por ele – que tinha o cuidado de manter-se oculto, sabendo da importância de não ser publicamente vinculado a esses atos.

Nunca foi tão real a figura dos “manifestoches” quanto agora. Será que as milhares de pessoas que com a camisa da seleção brasileira saíram às ruas imaginariam que estavam a serviço de uma causa que rendeu prestígio e, como também já se descobriu, muito dinheiro ao procurador? Verdadeiras marionetes em um teatro em que “grupos apartidários” manobravam para garantir os desígnios do procurador…

Finalmente, mas não menos importante, o procurador também procurava arregimentar alguns ministros do Supremo Tribunal Federal. No Fux ele sabia que podia confiar, o Fachin “é nosso” e com o Barroso participava de pequenos coquetéis, reservados e privados. O Barroso, aparentemente, seria o relator de seus sonhos para os processos da Lava Jato. Nada mais seguro que o compadrio com o juiz de primeira instância e com o relator no STF!

Para Deltan, o combate à corrupção deveria ser empreendido com todas as forças. Diante de tão nobre empresa, o respeito às regras do Estado Democrático de Direito era irrelevante. O desprezo pela ordem jurídica seria uma espécie de “corrupção do bem”, admissível, todavia, quando se enfrentava a “verdadeira corrupção”. Ao agir nos bastidores, Deltan emulava o Padre José, cuja influência sobre o poderoso Cardeal de Richelieu deu origem à expressão eminência parda. O Padre José curitibano, no entanto, não contava com o holofote que o revelou nas sombras.

* Rodolpho Barreto Sampaio Júnior é professor na PUC Minas e doutor em direito.

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