Home Notícias BH ‘Carne do Futuro’ chega a BH e divide opiniões; entenda

‘Carne do Futuro’ chega a BH e divide opiniões; entenda

Tem gosto de carne, cheiro de carne, textura de carne, mas não é carne. A “carne do futuro”, como é chamado o bife de hambúrguer feito apenas de vegetais, chegou recentemente ao mercado belo-horizontino e tem dividido a opinião de consumidores.

Nas redes sociais, internautas se dividem entre aqueles que não veem problema com o termo, e os que acreditam que a expressão não deve ser utilizada para alimentos que não sejam de origem animal.

Na capital mineira, a “carne do futuro” já é comercializada no Verdemar, e cardápios com a carne vegetal podem ser encontrados nas hamburguerias Butchery Burger, Coal Bar B Que, Seu Burger, EAT1877 e na The Black Beef.

Ao BHAZ, Rafael Nascimento, sócio da Eat1877, explicou que a recepção tem sido positiva. “Até hoje nunca saiu um pedido sozinho. Sempre é um consumidor que vem acompanhado, quando o marido ou a esposa é vegetariano. A aceitação é muito boa”, disse.

Direto do futuro

Parte das carnes ‘futurísticas’ que estão circulando por BH vem da Fazenda do Futuro. Criada pelo carioca Marcos Leta, fundador da marca de sucos Do Bem, e seu sócio Alfredo Strechinsky, a empresa se auto-classifica como a primeira foodtech brasileira no ramo da criação de carne de plantas com textura e gosto de carne.

O objetivo não é competir apenas com o mercado vegetariano, mas com a grande indústria da carne. No material de divulgação, a empresa destaca que o foco é atingir os ‘flexitarians’ – aqueles consumidores de carne que diminuíram ou pretendem diminuir o consumo de proteína animal em seu dia a dia nos próximos anos.

No site, a missão da startup é descrita como “alimentar o mundo com plantas, da forma mais suculenta e inovadora possível.” Os hambúrgueres do futuro são feitos de ervilha, proteína isolada de soja e de grão-de-bico. O sangue, colocado para dar aparência de carne bovina, é feito a partir de suco de beterraba.

Para o médico nutrólogo Eric Slywitch, referência em alimentação sem carne no Brasil, a ideia é interessante, mas pode ter alcance limitado. “São ideais para quem ainda está em transição para o vegetarianismo, mas não tanto para os vegetarianos mais antigos. Para Slywitch, “esse não é um produto que o vegetariano necessariamente precisa comer”.

“Se a pessoa está fazendo uma mudança porque entendeu que a carne não é legal, que tem questões negativas para a saúde e meio-ambiente, além do sofrimento animal, mas ainda tem o desejo de sentir o sabor e a consistência da carne, é uma alternativa muito boa”, explica o médico.

Pode chamar de carne?

Em julho do ano passado, a atual ministra da Agricultura, Tereza Cristina, protocolou um projeto de lei para proibir que embalagens e rótulos de alimentos no Brasil utilizem termos como “leite de soja”, “queijo vegano” ou “iorgute de amêndoas”. O PL 10556/2018 foi elaborado a pedido da Associação Brasileira de Produtores de Leite (Abraleite), e ainda aguarda parecer do relator na Comissão de Defesa do Consumidor.

Outro parlamentar que investiu na ‘causa’ foi o deputado federal Nelson Barbudo (PSL-MT), que protocolou a PL 2876/2019 para proibir o uso da palavra “carne” e seus sinônimos na publicidade de alimentos que não sejam de origem animal. Atualmente o projeto de lei está aguardando designação do relator na Comissão de Defesa do Consumidor (CDC).

Na justificativa do projeto do deputado, consta que ele pretende “evitar essa grande confusão que permeia o mercado no que se refere à palavra ‘carne’, que vem sendo utilizada não apenas aos tecidos comestíveis de espécies de açougue (notadamente bovinos, suínos e aves)”.

No documento, também é citado que o uso desses termos criam “uma concorrência dos produtos de origem vegetal com os de origem animal, o consumidor é induzido a crer que, ao adquirir um produto de origem vegetal, está ingerindo alimento similar à carne quando, na verdade, está ingerindo extratos, polpas de frutas e etc., que não possuem o mesmo caráter nutricional”.

O doutor e professor da Faculdade de Letras (Fale) da UFMG Jacyntho José Lins Brandão explica que não há problema nenhum em utilizar a nomenclatura para produtos que não sejam de origem animal.

“A língua sempre está em processo de transformação. Se fosse assim, não poderíamos usar expressões como “pé da mesa” e “asa da xícara”, brinca. O professor diz ainda que “se cada coisa que existe no mundo precisasse ter uma palavra única, a gente não daria conta de saber tantas palavras”.

De acordo com Jacyntho Brandão, essa ‘liberdade’ que existe na linguagem humana, é o que a define. “Não precisa ter um único significado para um único significante. Você pode ter várias palavras para uma coisa, ou uma única palavra para várias coisas. Se não fosse assim, não teria criatividade, não teria literatura”, avalia.

Mas comer carne ‘real’ faz mal?

Desde 2015, as carnes processadas (salsicha, linguiça, bacon e presunto) integram o grupo 1 de carcinogênicos da lista da OMS (Organização Mundial da Saúde), ao lado do tabaco, amianto e fumaça de diesel. Esta classificação indica que há provas suficientes da ligação entre carnes processadas e o risco de câncer.

O relatório, feito pela IARC (Agência Internacional de Pesquisa do Câncer) – órgão ligado à OMS, também revela que as carne vermelhas (boi, porco, carneiro e bode) são fatores de risco provável para câncer. Esse tipo de carne integra o grupo 2, ou seja, de prováveis carcinógenos.

De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), a recomendação é de que, por seu valor nutricional, as carnes vermelhas seja ingeridas até duas vezes na semana. Segundo o Instituto, elas podem ser substituídas por carnes brancas ou ovos, além de outras combinações de alimentos com valor proteico semelhantes.

Ao BHAZ, o médico Eric Slywitch destacou que já existem evidências da relação entre carnes processadas e o câncer de intestino grosso especificamente.

‘Me sentia hipócrita’

Existem vários motivos pelos quais uma pessoa pode se tornar vegetariana: compaixão pelos animais, preocupação com o meio ambiente, com a própria saúde. Apesar disso, a dieta vegetariana há muito tem sido alvo de polêmicas. Basta uma pessoa dizer que deixou de comer para alguém perguntar “e como você vai viver sem proteínas?”.

Vegetariana há 9 meses, a jornalista Natália Macedo, de 24 anos, diz que decidiu mudar a alimentação porque se sentia “hipócrita”. “Sempre fui ligada à causa animal, a ajudar a achar adotantes para cães e gatos. Mas minha ajuda e atenção se limitava a esses animais apenas. Comecei a refletir muito sobre o tanto que a industria escraviza os animais e decidi parar. A partir daí eu criei uma repulsa pela carne. Não consigo comer nada que me faça lembrar do gosto e do cheiro”, explica.

Natália Macedo/Arquivo Pessoal

A jornalista conta que não vê problema em vegetarianos que procuram alimentos que lembrem a carne tradicional. “O importante, pra mim, é não compactuar com o sofrimento animal”, afirma.

Natália ainda não experimentou a “carne do futuro”, mas sempre procura receitas que “imitem” sabores de alimentos com origem animal. “Até mesmo para ajudar na facilidade. Carne de soja, carne de jaca, nuggets de grão de bico, kibe de abóbora. São receitas que vão substituindo, mas eu procuro sempre as que não têm gosto semelhante ao da carne, porque daí eu me sinto mal comendo”, diz.

Segundo a jornalista, quem vira vegetariano passa a explorar mais a comida. “Se eu comer apenas uma salada no almoço, me sinto saciada por menos tempo do que se eu comer um kibe de abóbora. Mas a carne, nesse ponto, faz falta no sentido de saciar mesmo. Quando eu almoçava, 12h, com carne, eu conseguia ficar sem comer até umas 17h. Hoje quando dá 15h eu já estou faminta. Então procuro alguns alimentos que dê uma saciada maior, que sejam mais “pesados” mas que não explorem os animais por isso”, explica.

A fotógrafa Adrielle Maria Ribeiro, de 24 anos, não é vegetariana, mas é grande adepta dos produtos veganos. “Comecei a consumir esses alimentos por dois motivos. Esse ano surgiram muitas questões ambientais, e a gente tem que ter essa conscientização de que, quanto mais carne a gente consome, mais desmatamento a gente produz. E também por questão de saúde, eu consumi carne desde criança e sempre soube que me fazia mal. Desde que cortei um pouco, comecei a ver as mudanças em mim mesma”, explica.

Ao BHAZ, ela conta que também não vê problema no uso dos termos. “As pessoas tem que abrir um pouco a mente. Acho que por ser um movimento que existe há bastante tempo, mas que não tem muita visibilidade, tem que ter esses nomes para que as pessoas saibam o que ela está substituindo”, avalia.

Adrielle Ribeiro/Arquivo Pessoal

Apesar disso, Adrielle diz que a “carne do futuro” não seria algo que ela incluiria no cardápio.” Ainda não experimentei, mas vi os ingredientes e não sei comeria por ter bastante industrializados na composição. Eu iria preferir fazer meu próprio hambúrguer, do que esse comprar esse do futuro”, diz.

É possível viver sem carne?

De acordo com uma cartilha disponibilizada pelo Ministério da Saúde, a dieta vegetariana fornece todos os nutrientes necessários ao bom funcionamento do organismo em todas as etapas da vida, incluindo gestação e lactação. “A dieta vegetariana não apenas exclui os produtos cárneos, mas também os substitui por cereais, em grande parte integrais, leguminosas, oleaginosas, frutas e hortaliças que, quando consumidos em combinações adequadas, atingem as recomendações para indivíduos saudáveis em todos os ciclos da vida”, diz um trecho do documento.

Slywitch explica que a quantidade de proteína ingerida pelos seres humanos costuma ser bem maior do que o necessário. “Quando você tira a carne e troca por leguminosas você ajusta essa carga (de proteínas), e ainda assim fica além do que precisa”, diz. Segundo o nutrólogo, há diversos estudos que mostram que não há deficiência de proteína em vegetarianos, “só em populações onde há desnutrição por escassez de comida”, diz.

O médico explica que a falta de informação se deve tanto a grandes indústrias – que não têm interesse comercial nesse tipo de instrução – , quanto a grande parte da população, que rejeita esclarecimento sobre hábitos que não pretende mudar. “Também existe muita desinformação de profissionais que fomentam o uso desses produtos”, afirma Slywitch.

O mesmo se estende a ovos e leite. De acordo com o nutrólogo, existe um grau de intolerância à lactose muito alto no mundo. “cerca de 100% dos sul asiáticos tem intolerância a lactose, 80% dos negros e 50% dos brancos, além disso, o leite tem muita relação com o câncer de próstata”, explica.

Quanto aos ovos, Slywitch explica que o alimento possui substâncias que aumentam a formação de placas de gordura, e traz um grande prejuízo para a parte cardiovascular.

O médico afirma que todo o cálcio de que precisamos, por exemplo, pode ser encontrado em vegetais, como leguminosas e folhas verdes escuras.

Tipos de Vegetarianos

Os nomes e motivações são tantos, que, pra muitos, é difícil entender as variações deste universo. Tá confuso? O BHAZ te ajuda com uma colinha:


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