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Torcida do Atlético também desdenha de lei, entoa grito homofóbico e jogo, novamente, segue sem interferência

Torcedores do Atlético entoaram canto homofóbico dentro da Arena Independência, no domingo (15), durante confronto contra o Internacional, pelo Brasileirão. A prática, considerada crime pelo STF (Supremo Tribunal Federal) cuja ilegalidade dentro dos estádios foi reforçada pelo STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), foi mais uma vez ignorada pela arbitragem da partida – contrariando, assim, norma do tribunal desportivo.

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Desde o início deste mês, o BHAZ acompanha as partidas do Brasileirão realizadas na capital mineira. Em todos os três (dois sob o mando do Cruzeiro – aqui e aqui -, e este último, do Atlético), torcedores ignoraram lei e norma desportiva e entoaram gritos homofóbicos. Mesmo com a arbitragem ignorando as ofensas, os clubes correm o risco de punição, segundo o STJD – a sanção pode chegar a perda de pontos.

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Promessa cumprida

Entrevistado pelo BHAZ no início deste mês, o presidente da principal torcida organizada do Atlético, a Galoucura, garantiu que os gritos homofóbicos continuariam. “Isso não ofende ninguém”, afirmou Josimar Júnior de Souza Barros à época. E a promessa foi cumprida ontem, no duelo contra o Internacional.

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Apesar da disputa não ter sido contra seu rival Cruzeiro, torcedores não deixaram de insultar o clube celeste. Assim que a partida chegou à metade do primeiro tempo, por volta dos 20 minutos do 1º tempo, torcedores alvinegros que estavam no setor 6 – área ocupada pela Galoucura – entoaram um canto violento e homofóbico se referindo ao time azul e branco.

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“Dá dó de cruzeirense quando tromba com a gente. Bicuda e vários socos só na boca, perde os dentes. Sai quebrando e deixando a mulher dele pra trás. Peguei a mulher do trouxa e mostrei como TOG [Torcida Organizada Galoucura] faz. A mina de repente num descuido ficou louca. Viu que TOG é sinistro então pediu beijinho na boca. A mina falou com um sorriso no rosto. Dou rolé com Galoucura que os Maria é tudo frouxo. Oxo ô oxo, os Maria é tudo frouxo”, diz o canto.

O árbitro Bruno Arleu de Araujo, e os outros oito que completam a equipe de arbitragem, ignoraram o fato e não interferiram a partida. Além disso, o juiz também não registrou o ocorrido na súmula, como orienta o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) desde o dia 19 de agosto (veja o documento aqui).

Súmula da partida (CBF/Reprodução)

‘Maria’

O professor e coordenador do GEFut (Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas), da UFMG, Silvio Ricardo, explica o motivo de um nome próprio, como Maria, torna-se uma ofensa homofóbica e machista no contexto futebolístico.

“Quando você chama de ‘Maria’ um homem, você está o feminilizando. E, a partir daí, por que isso vira um xingamento? Você não deseja isso para dentro do universo do futebol. Ou seja, na concepção heteronormativa, o feminino no futebol é algo indesejado, que não está de acordo com aquilo que se entende que deva ser o futebol”, afirma ao BHAZ.

“Sempre que você aponta para o feminino, aponta para algo inferior, depreciativo, de menos valor. Por isso usam ‘ela’, ‘Franga’, ‘Maria’, é uma forma de tentar diminuir o ‘alvo’”, reforça Carlos Magno Camargos Mendonça, professor de Comunicação Social da UFMG.

“Tem que educar o torcedor. Se ele não aprende educando, vai no castigo. E se é ordem da CBF tirar os 3 pontos, e a torcida cantar cantos homofóbicos, tem que tirar os 3 pontos sim”, afirma uma atleticana, integrante dos coletivos Grupa e Antifa (grupos que repudiam preconceito, leia mais abaixo), que prefere não se identificar tamanho o medo de represália.

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O receio é justificável. No dia 4 deste mês, um casal homossexual passou a ser ameaçado após uma foto dos dois abraçados viralizar. O motivo? Eles estavam na arquibancada do Mineirão torcendo para o Cruzeiro, clube do coração (relembre aqui).

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Vale lembrar que orientação do STJD ocorreu após o STF (Supremo Tribunal Federal) criminalizar a homofobia em junho. Portanto, gritos homofóbicos podem não apenas prejudicar o clube – até com perda de ponto -, como, principalmente, é crime:

  • “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito” em razão da orientação sexual da pessoa poderá ser considerado crime;
  • a pena será de um a três anos, além de multa;
  • se houver divulgação ampla de ato homofóbico em meios de comunicação, como publicação em rede social, a pena será de dois a cinco anos, além de multa;
  • a aplicação da pena de racismo valerá até o Congresso Nacional aprovar uma lei sobre o tema.

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Atleticanos contra homofobia

Obviamente, não foram todos os atleticanos do Independência que entoaram o canto homofóbico – e muito menos que concordam com esse tipo de delito. Os coletivos Antifa e Grupa são dois exemplos: foram criados por torcedores amantes do Atlético que desejam frequentar os espaços reais e virtuais do futebol sem preconceitos. Para isso, se posicionam contra o machismo, racismo, fascismo, homofobia e elitização do futebol.

“Sou heterossexual, mas posso falar que, como mulher, várias vezes a gente se sente intimidada de frequentar esses lugares sozinha. A Grupa também surgiu pra isso, quantas e quantas integrantes nunca frequentaram o estádio, mesmo apaixonadas pelo Atlético, porque não tinham com quem ir. Tinham medo de ir ao jogo, de voltar sozinha, porque tinha medo de ser abordada por alguém ou de acontecer alguma coisa”, confessa uma integrante do coletivo ao BHAZ.

Além disso, afirma que tanto a Grupa quanto o Antifa são contra a posição do presidente da Galoucura. “Aí o presidente da Galoucura vai e me fala uma coisa dessas, como se ser homofóbico e ser machista fizesse parte do futebol. E não, não faz. O futebol é outra coisa, o futebol é alegria, o futebol é cultura, é cultura do Brasil, é cultura do mineiro”, diz a participante.

“A gente quer participar do Atlético, e, se a gente não for junto, a gente não consegue ir, porque ele está dominado por essa violência, essa insistência em dizer que precisa ofender o adversário usando de cantos homofóbicos. Sem pensar que tem pessoas LGBTQI+ dentro da torcida. É ser muito estúpido e ignorante achar que todo mundo do Atlético é heterossexual, sabe, não existe isso”, completou a atleticana.

‘O Galo é o time do amor’

Ironicamente, logo após o canto homofóbico (mais precisamente, exatos 4 minutos depois), a mesma parcela da torcida atleticana entoou um grito afirmando que o “Galo é o time do amor”. “O Galo é o time da virada. O Galo é o time do amor. Lêlêlê Lêlêlê Lêlêlê… Ôôôô”, bradou a torcida alvinegra como incentivo ao time que tinha levado, há pouco, um gol colorado.

O BHAZ tentou, novamente, entrevistar o presidente da Galoucura, Josimar Júnior de Souza Barros, em diversas oportunidades durante esta segunda-feira (16). Tão logo o mandatário queira se manifestar, esta reportagem será atualizada.

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