Home Notícias Brasil Com vergonha do corpo, homem trans ganha (linda) homenagem dos parentes: ‘O amor em família vale tudo’

Com vergonha do corpo, homem trans ganha (linda) homenagem dos parentes: ‘O amor em família vale tudo’

“Foi a primeira vez que fiquei sem camisa na frente dos meus tios, minha família. Tinha medo do julgamento”. A fala é de Richard Alcântara Pereira, de 22 anos, que está em transição há cinco meses. Ao tirar uma foto despretensiosa perto da piscina, o jovem foi surpreendido pela família. A história aconteceu em São Caetano do Sul, em São Paulo, no último domingo (6).

No dia, Richard, que trabalha como auxiliar de cozinha, havia preparado uma festa surpresa para a mãe e a família estava toda reunida. “Pedi para minha namorada tirar uma foto minha sem camisa, algo rápido, perto da piscina. Tirei a camisa, ela bateu a foto e entrei para dentro da casa. Percebi que meu tio reparou no meu incômodo e pressa para sair dali. Precisei ir ao banheiro, coloquei minha camisa de novo”, conta Richard ao BHAZ. Ele estava com um curativo para tampar os seios, já que ainda não fez a cirurgia para a retirada das mamas.

Richard está processo de transição (Arquivo pessoal/Richard Pereira)

Ao sair do banheiro, uma parte da família começou a conversar com o jovem, enrolando um pouco. “Eles me seguraram e depois falaram que meu tio tava esperando lá fora. Minha mãe mandou eu tirar a camisa de novo, fiquei sem entender, mas tirei. Quando saí, me deparei com todos, tios, amigos e outros parentes, com os curativos nos peitos. Fiquei muito feliz e emocionado”, relata.

O tio que reparou o incômodo de Richard é o motorista de ônibus Osvaldo Alcântara, foi o responsável pela ideia da homenagem. “Foi tipo uma brincadeira, e no final ele gostou muito. A gente não tem preconceito com nada. O amor em família vale tudo. Carinho, respeito e consideração é o mais importante. Homofobia é algo que não deveria existir. Acho que tudo que você faz com amor, você faz bem feito”, explica.

“Desde que ele [Richard] nasceu, que o amamos. Acho que ele é muito mais feliz hoje do que antigamente. É uma pessoa muito família, amada, carinhosa. A relação dele com o pessoal é muito afetiva e só temos a agradecer a Deus pela pessoa que ele é. Tudo que ele faz é com amor e carinho, com respeito. Tenho muito orgulho e apoio ele em tudo que quer fazer. Nossa amizade é como se fosse de pai para filho”, completa Osvaldo.

Aceitação

“Eu me assumi lésbica para a minha mãe com 15 anos, e ela sempre me apoiou. Aos 18, me descobri como homem trans. Porém, a transição, com hormônios e tudo, começou há cinco meses, com 22 anos”, explica Richard.

Ele ainda lembra que a parte mais difícil foi a aceitação com ele mesmo e diante da sociedade. “Na visão da sociedade, ser lésbica até vai, mas trans já seria demais. Eu relutei muito contra isso, até entender e aceitar quem eu sou. A novela ‘A força do querer’ [da TV Globo] tinha a Ivana, uma personagem trans. Acho que a representatividade pode ajudar outras pessoas, me ajudou muito”, relata.

Richard e a família durante a festa de sua mãe (Arquivo pessoal)

Na família, foi tudo muito tranquilo. “Eles não têm preconceito. Desde pequeno sempre mostramos um para o outro que temos que ter amor e respeito. Quando me assumi não foi uma surpresa, sempre fui muito molecão, meninão desde crianças. Meus parentes me abraçam muito, me incentivam, dizem que tem orgulho de mim. Deus em primeiro lugar e amor sempre. Na minha família, a conquista de cada um é a conquista de todos”, conta.

Richard conheceu a namorada Yuri Fernanda de Almeida na empresa em que trabalha. “Ela era mulher hétero cis, que nunca tinha ficado com nenhuma mulher. Ela foi a primeira pessoa com quem me identifiquei dentro da empresa, minha melhor amiga desde sempre. Me respeita, luta comigo. Todas as vezes que pensei em desistir de começar a tomar hormônio, ela não deixou, me apoiou. Sempre participou de todas as minhas conquistas”, completa.

Vitor Fernandes

Vitor Fernandes

Jornalista no Portal BHAZ

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