Moisés Santos/Editoria de Arte BHAZ

Quando o dia começa a raiar para parte da população, às 7h45, Gileade Manasses Pereira já percorreu uma via crucis de 30km entre caminhadas, ônibus, metrô e Kombi. E o trabalho nem começou: correr 20km atrás de um caminhão para limpar a sujeira de Belo Horizonte. A rotina se assemelha a de outras 2,9 mil pessoas responsáveis por cuidar daquilo que milhões só desejam se livrar e, entre um abraço e uma cara de nojo, não negociam os emblemáticos sorriso e alegria. Mas qual é o segredo?

O BHAZ acompanhou por dias, madrugada adentro, a rotina desses profissionais essenciais e conversou com dezenas – garis, pesquisadores, especialistas em diferentes áreas, poder público etc. – para desvendar a instigante dualidade entre lidar com o elemento mais desprezado na sociedade e exalar, diariamente, alto-astral. Conheça a realidade invisível no sorriso de quem limpa BH.

Gileade Manasses supera o sol todos os dias: acorda às 4h45 para cuidar dos 13 cachorros, se despedir da esposa e dos quatro filhos e vencer uma longa caminhada antes do ônibus chegar. “A coleta me proporcionou uma nova vida, uma nova imagem. Hoje eu ando tranquilo, as pessoas me respeitam pelo meu trabalho e não por medo”, explica o homem de 35 anos ao encher de significado uma profissão invisibilizada por muitos.

A coleta proporcionou redenção a Gileade (Amanda Dias/BHAZ)

Após se “afastar da igreja e conhecer o crime”, Gileade foi preso. “Tive minha imagem um pouco manchada porque fiz coisas ruins. Até quando fui preso acredito que tinha Deus no meio, tinha um propósito. Quando eu estava na cadeia, refleti e falei com Deus que não queria mais isso pra mim”, revela, orgulhoso de quem se transformou. Mas, como o próprio define, “conseguir de novo a confiança da sociedade não é algo simples”. Só foi possível graças à coleta.

Primeira caminhada superada, meia hora de ônibus para embarcar em outro transporte público: o metrô. Durante as 11 estações pelas quais precisa passar, Gileade tira um breve cochilo pra aguentar, de fato, o trabalho e encarar os 20km em média que um gari percorre durante o expediente em BH, segundo o sindicato da categoria.

Gileade toma fôlego antes de encarar a árdua rotina (Amanda Dias/BHAZ)

“Trabalhar na coleta é um serviço gostoso, eu gosto mesmo. É um serviço árduo, cansativo demais, que às vezes a gente passa por alguns estresses, aborrecimentos. Mas eu gosto da coleta porque é algo saudável demais, divertido, conseguimos fazer amigos, o dia fica muito bom”, diz o gari, ao dar um pequeno spoiler sobre o segredo da emblemática alegria dos coletores (leia sobre a explicação do característico entusiasmo abaixo).

Após o transporte ferroviário, Gileade faz nova caminhada, pega uma Kombi na garagem da empresa terceirizada responsável por parte da limpeza urbana de BH e, às 7h45, faz sua primeira refeição do dia. Com agilidade porque, em 15 minutos, começa a limpar o lixo do qual 2,5 milhões de belo-horizontinos se livraram nas últimas horas. E só para às 14h.

Quando BH se prepara pra descansar, Giulio Cesar Gonçalves se apronta para iniciar mais uma jornada, às 20h, que garante o sustento de sua família – esposa e filhinha de 2 anos. “Sempre sonhei em ser gari, desde criança. Aí, já adulto, eu tava em dificuldade, né?! Aí eu dei um jeito de realizar meu sonho e ajudar”, revela o coletor de 23 anos.

Giulio Gonçalves entra em cena quando BH descansa (Amanda Dias/BHAZ)

O sonho de Giulião, como é conhecido, foi realizado quando a filha nasceu e a situação financeira apertou. “Vendia balas nos sinais da Zona Sul, mas as coisas começaram a ficar apertadas e, graças a Deus, consegui este emprego”, afirma. “Antes tinha que comprar fraldas de segunda mão pra minha filha. Ainda não conquistei tudo que eu queria na vida, mas já consegui arrumar minha casinha e não deixo nada faltar”, diz.

“Amo meu trabalho”, resume.

Se os trabalhadores aparentam compreender a importância do ofício, o mesmo não pode se dizer de toda a sociedade. A lista de absurdos é tão vasta quanto chocante.

  • “Pedi água para uma pessoa e ela não me deu só a água, como o copo também. Só porque eu tinha bebido nele. A gente sabe que isso é por nojo, preconceito só por a gente ter pegado naquele copo. Outra vez estava deitado, descansando na rua e as pessoas já vêm mandando levantar. Não entendem que não temos outra escolha e estamos cansados”. Gileade Manasses, coletor.
  • “Às vezes, eu entro no ônibus pra trabalhar ou ir embora para casa e as pessoas trocam de lugar, saem de perto de mim. Mas, como eu trabalho a noite, eu tenho pouco contato com as pessoas. Nesse horário, a visibilidade é zero”. Giulio Cesar Gonçalves, coletor.
  • “Sofri [preconceito] demais, principalmente por parte da família de namorados. Irmãs, mãe, perguntando ‘nossa, você está namorando aquela lixeira, aquela gari?”. Karen Cristina Ribeiro, ex-coletora.
  • “A pior vez foi um dia que eu estava puxando o lixo no local em que o caminhão não passava. Pedi uma água e a mulher disse que não tinha copo. Vimos que na verdade ela tava com nojo. Aí ela apontou para um copo de iogurte sujo, que estava no chão da rua, mas agradecemos e fomos embora. É muito constrangedor”. Weverton Pedro da Silva, coletor.
  • “Era [assédio] o tempo todo. Homens que criticavam falando que nosso lugar era no fogão, no tanque lavando roupa, que não era trabalho de mulher. O tempo todo eram gritos de homens humilhando a gente”. Karen Cristina Ribeiro, ex-coletora.
  • “Uma dupla de garis estava varrendo [no Centro de BH] e do nada alguém cuspiu nelas. E aí elas subiram e conversaram com o síndico do prédio e falaram que estavam fazendo um serviço importante e que elas mereciam ser tratadas com respeito”. Georgina Maria Véras, mestra em Psicologia pela UFMG, realizou pesquisa sobre os garis (veja mais sobre o estudo abaixo)

Por que isso ocorre justamente contra a figura profissional mais simpática da cidade e essencial para todos os moradores?

“Não só essa profissão, mas profissões que são consideradas do cuidado, como da casa, da organização, são desvalorizadas. E isso tem a ver com o nosso passado escravocrata colonial, que passa por aí, onde essas funções eram designadas para pessoas que eram entendidas como pessoas que trabalhavam com coisas que não eram dignas”, explica o doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Carlos Magno Camargos Mendonça.

“Então, mesmo que a cidade saiba que precisa do profissional da limpeza, ela não valoriza, porque considera que [esse profissional] está desenvolvendo uma atividade não digna. Isso está diretamente ligado com a nossa estrutura colonial”, complementa o estudioso.

Em 2018, apenas 0,9% do lixo recolhido foi para a reciclagem (Amanda Dias/BHAZ)

A mesma linha apresentada por Mendonça foi verificada pelo professor Guilherme Ricoy Leão no mestrado, em 2016. A fim de estudar a invisibilidade social dos garis, o acadêmico escutou trabalhadores de limpeza da regional Norte de Belo Horizonte que trabalham há pelo menos 20 anos em diferentes regiões da cidade e atendendo a diferentes classes sociais.

“O trabalho do gari é sentido justamente quando ele está ausente. Parece até que os lugares são limpos naturalmente, sem intervenção de ninguém. Não aparece a pessoa, nem o gari, nem o varredor, nem a varredura, somente lugares varridos e limpos. Isso prova que o gari é considerado somente quando se precisa dos seus serviços. Fora isso, os outros não o veem e não o reconhecem”, afirma Leão.

“Mas eles não se comportam de maneira submissa ou se sentem revoltados diante de uma situação de preconceito. Muitos relatam que isso é algo passageiro. De certa forma, aprenderam a lidar com isso e vão superando devido ao vínculo social muito forte que têm”, complementa.

Questionada pelo BHAZ sobre o suporte oferecido a esses profissionais, a SLU (Superintendência de Limpeza Urbana) afirmou que, “conforme determinação contratual, as empresas prestadoras do serviço de limpeza urbana da capital são obrigadas a manter setores de medicina e segurança do trabalho para prestar o apoio necessário ao trabalhador, nos termos da lei trabalhista”.

Tão básico quanto o respeito no tratamento deveria ser o respeito às atividades dos garis. Deveria. “Já cortei meu dedo, fui atropelado, quebrei o dedão do pé, já furei com espeto de churrasco e em seringa. Infelizmente, o cidadão não tem consciência, embala o lixo de qualquer forma e isso reflete diretamente em nós. Falta respeitar mesmo a integridade da gente”, desabafa Gileade.

“Tenho várias marcas de cortes no corpo. Os materiais cortantes são descartados de maneira incorreta e nos machucam”, relata o coletor Weverton Pedro da Silva, de 36 anos, dos quais 15 trabalhando na limpeza de BH.

Para deixar a cidade limpa, garis precisam driblar falta de educação de parte da sociedade (Amanda Dias/BHAZ)

E não se resume ao descarte irresponsável, mas também o comportamento enfurecido no trânsito. “As pessoas no trânsito são muito mal educadas, não têm paciência. A gente às vezes demora para coletar, aí só falta passar por cima da gente, nos atropelar”, reclama Weverton Silva.

Não à toa que uma das principais bandeiras do Sindeac (Sindicato dos Empregados em Edifícios e Condomínios, em Empresas de Prestação de Serviços em Asseio, Conservação, Higienização, Detetização, Portaria, Vigia e dos Cabineiros de Belo Horizonte) é justamente para tentar conscientizar a população sobre esses temas.

“É uma preocupação de quem representa esses trabalhadores no mundo inteiro. Tem acontecido muitos acidentes com esse profissionais. Temos feito campanhas para que a população tenha um pouco mais carinho e respeito por esses trabalhadores. Se tiver um sol quente, ofereça uma água, tenha cuidado no trânsito para não atropelá-los. Embrulhe vidros com jornal para evitar que se machuquem”, afirma o presidente do sindicato, Paulo Roberto da Silva.

Profissionais correndo por horas no meio do trânsito cada vez mais agressivo, se segurando na traseira de caminhões e muitas vezes sem um local para beber, se alimentar ou simplesmente fazer as mais básicas necessidades. O trabalho de gari, por si só, está longe de ser dos mais seguros…

“Por esse motivo [falta de estrutura física], eles acabam dependendo muito da população. Então quando vão às lojas, a lugares para poder utilizar o banheiro ou tomar uma água, vão de uniforme. E em muitos lugares as pessoas os discriminam quando estão uniformizados, como se aquele trabalhador fosse a própria atividade e representasse o próprio lixo”, analisa a mestra em Psicologia pela UFMG, Georgina Maria Véras, autora de um estudo sobre as condições de trabalho dos garis.

“Eles não têm local apropriado para se alimentar ou almoçar. É comum vê-los sentados em calçadas, em meio a sujeira e poluição. Também não tem sanitários para eles, tem que pedir em restaurantes, condomínios, e geralmente são negados”, reforça Paulo Roberto da Silva.

Garis da coleta dificilmente possuem sanitários à disposição durante o trabalho (Amanda Dias/BHAZ)

A SLU afirma que os garis de varrição “possuem os chamados micropontos de apoio, que são locais onde estão disponíveis banheiro, chuveiro e pia para que possam realizar a higiene pessoal, além de aquecedor de marmitas e armários para a guarda de pertences, roupas e uniformes”.

“Nesse caso, os garis de coleta têm a opção de utilizar esses equipamentos se eles estiverem em suas rotas. Outras opções seriam os órgãos públicos municipais como centros de saúde e estabelecimentos comerciais”, complementa a superintendência, que ainda aponta banheiros das sedes das empresas, no início e final do trajeto, como alternativas.

“A natureza do trabalho dos coletores exige essas soluções específicas”, diz.

Por fim, a SLU diz que banheiros químicos são instalados para “equipes de multitarefa que realizam, por exemplo, capina e remoção de deposições clandestinas, por permanecerem mais tempo em determinados pontos, durante a execução de suas tarefas”.

“Qualquer cidadão comum é multado se estiver dirigindo sem cinto de segurança. Os garis andam pendurados na traseira de caminhões em movimento sem qualquer proteção. Isso é um absurdo, ficam no sol, na chuva, e só aumenta o risco de acidente”, esbraveja o presidente do sindicato da categoria, que afirma ter uma solução. “Criar uma nova cabine atrás do motorista, para que eles não andem pendurados, já que isso tem causado acidentes”.

Mas a SLU descarta a ideia ao dizer que estudos “apontaram que instalação de cabine não seria a medida mais eficaz nesse caso”. “Os procedimentos de segurança adotados incluem a instalação de sensores no estribo para que o caminhão não trafegue em velocidade superior a 20 km por hora durante a coleta de resíduos”, afirma.

A superintendência explica que dispositivos instalados nos caminhões identificam a presença do gari e “automaticamente limitam a velocidade do veículo”. “Em deslocamentos maiores, por exemplo, da garagem até o trecho de início do recolhimento dos resíduos, esses profissionais se deslocam na boleia do caminhão junto ao motorista”, conclui.

Quem ousa desvendar o grande mistério da humanidade: a felicidade?! “Difícil de ser definida porque até pode ser colocada como ideal, mas depende de nossos estados subjetivos. Então não existirá uma correlação objetiva, sempre igual, entre felicidade e as condições objetivas que a pessoa vive”, afirma Carlos Roberto Drawin, psicólogo e professor de Filosofia da UFMG.

Mas a historiadora Eliana Belo encarou o desafio de tentar explicar a emblemática alegria dos garis. A estudiosa entrevistou 50 profissionais da limpeza e colheu dados sobre a satisfação deles em relação ao trabalho.

“É uma alegria, uma coisa impressionante. Eles – os garis – são muito unidos e se ajudam muito. Existem problemas como a falta de educação da sociedade e pessoas que não respeitam a profissão deles, mas, ainda assim, eles se mostram satisfeitos. É trabalho cansativo, mas há uma qualidade muito grande devido a relação entre eles, que é muito forte”, explica.

Nada menos do que 88% dos entrevistados definiram como boa, muito boa ou excelente a relação com a equipe de trabalho. O alto índice é observado novamente em outra percepção dos garis: sete em cada dez trabalhadores questionados consideram que o clima entre colegas influencia muito ou totalmente.

“O que torna o serviço bom é essa espontaneidade, essa alegria que temos, o companheirismo, o que faz do nosso dia melhor. Saio de lá feliz, primeiro porque venci o dia, e segundo porque estou com meus amigos, que são pessoas que acaba que convivo mais que com a minha família”, explica Gileade, na prática, o que Eliana observou.

“Os estados subjetivos são muito determinados pelas interações e pelos relacionamentos. Ou seja, da mesma forma que um olhar de desprezo ou uma palavra ruim pode fazer com que a pessoa fique em um estado subjetivo de tristeza, de infelicidade, de frustração, uma comunidade pode também reforçar um ao outro na sua alegria”, explica Drawin.

“Pode ser uma atmosfera, criada por esses trabalhadores, de alegria e de compensação pela situação objetiva que eles vivem, já que não é um trabalho socialmente valorizado. Ou seja, um reforça no outro o sentimento de alegria, de extroversão, porque tudo auxilia em uma tentativa de um contágio da felicidade, porque do mesmo jeito que existe um contágio de medo, todos os humores contagiam”, complementa o filósofo.

Giulião e seus colegas conseguem levar alegria ao ofício (Moisés Santos/BHAZ)

Um exemplo dessa contaminação é a equipe de Giulião – ou MC Jhulhão. O coletor é apaixonado por funk e até criou uma música para exaltar os garis (trecho da canção é exibido no vídeo que abre esta reportagem). “Chego na porta da empresa fazendo sinal da cruz, sento perto dos irmãos e faço uma oração. Disposição é o que exala e muita força de vontade, guerreando todo dia, é o corre da agilidade”, diz, em trechos da canção (ouça abaixo).

A mestra Georgina Maria Véras, que também realizou um estudo sobre os garis, credita a alegria à importância desses profissionais para a sociedade. “Em muitos dos depoimentos colhidos, é relatado sobre essa alegria que eles carregam. E eles afirmam que deriva de se sentirem bem por saberem que o trabalho que estão realizando vai beneficiar a população e vai melhorar a condição de vida de muitas pessoas”, relata.

“O gari se sente como uma pessoa que contribui, o que de fato é verdade, para a melhoria das condições de saúde da população. Trago até a frase de uma das garis entrevistadas: ‘É ter amor com o trabalho que a gente faz, é sentir igual se a gente tivesse trabalhando dentro da nossa própria casa’”, conta Georgina.

Se um sentimento contagia uma comunidade, não é exagero dizer que o entusiasmo dos garis conquista vários – especialmente, os mais puros, as crianças. “Uma vez, uma criança que estava acompanhada da mãe me chamou, eu desci do caminhão e ela pediu para tirar uma foto comigo. Eu estava muito suado, mesmo assim ela me abraçou e disse que era fã dos garis. Fiquei muito feliz”, relembra, orgulhoso, Giulião.

A paixão de um desses pequenos, aqui em BH, comoveu o mundo recentemente. Um vídeo do pequeno Caio Henrique, de três anos, mostrando toda sua idolatria pelos amigões da limpeza viralizou e ultrapassou as 5 milhões de visualizações no fim de 2018. Nas imagens, o menininho aparece com uma roupa de gari, confeccionada pela avó, com a qual ele “trabalha” junto aos coletores.

Morador do bairro Glória, na região Noroeste da capital mineira, Caio Henrique mantém a mesma rotina: aguarda ansiosamente a chegada do caminhão de limpeza, as terças, quintas e sábados.

“Desde os 9 meses do Caio que a gente fica na varanda e o barulho do caminhão sempre chamou a atenção dele. Os meninos [coletores] sempre mexiam com ele. Depois que cresceu e passou a andar, ele vai correndo encontrar com os amigos. Sempre que alguém pergunta, ele fala que ‘trabalha’ com eles”, explica Raquel Gonçalves, mãe do Caio.

A mãe do pequeno tem muito orgulho do filho. “Eu passo para o Caio o que aprendi com a minha mãe, sobre respeito e educação. Fico muito feliz com essa amizade que eles criaram, é bacana demais. Quem é mãe sabe da importância de ver o filho sendo bem tratado pelas outras pessoas, e eu vejo isso sempre com o pessoal da limpeza. Tenho telefone da maioria do garis, o Caio manda áudio para eles de vez em quando”.

A ideia da roupa de gari surgiu quando o garoto viu uma reportagem na televisão. “No mesmo momento ele começou a me pedir uma, mas eu disse que não tinha como fazer, aí ele ficou bem chateado. Contei para a minha mãe, que é costureira, mas nem pensei que ela fosse confeccionar. Minha mãe chegou aqui em casa, de surpresa, já com a roupa. O Caio ficou muito feliz e já queria até dormir com ela”, explica Raquel.

Caio e seus “amigões” (Raquel Gonçalves/Facebook/Reprodução)

“Ele não perde um dia sequer. Mesmo quando o Caio está dormindo, eles gritam e ele sai correndo lá para fora. Meu filho é muito fã do homem-aranha, aí eles aparecem pendurados no caminhão e ficam fingindo jogar teia. É muito legal, ele fica tão entusiasmado que até perde a voz”.

“A gente passava na rua coletando e ele sempre pedia para a mãe para levá-lo na varanda e ficar gritando a gente. Depois que descobrimos o nome do Caio, sempre chamamos e brincamos com ele. A amizade com ele foi só se estreitando com os coletores”, conta um dos amigões de Caio, Weverton Pedro da Silva, que trabalha na equipe que atende o bairro Glória.

“Sempre temos que parar e pegar na mão dele, cumprimentando. Ele sempre tem que jogar a sacola de lixo no caminhão. Depois dele, várias crianças apareceram. Elas alegram nosso trabalho, com sua inocência, reconhecendo o serviço dos garis”, relata o ritual.

Em 2017, o saudoso Pedro Guadalupe, criador do portal BHAZ, produziu e dirigiu um vídeo em homenagem aos garis. “Pra todo lado nessa cidade, a gente pega o lixo e espalha alegria. Cidade fica limpa, fica linda demais. Me enche de orgulho ainda mais pra cantar”, diz trechos da produção que compartilhada e visualizada milhares de vezes:


Em 2014, Gileade chegou a salvar uma criança engasgada pelo leite. “Um bebê chamado Davi, que tinha 9 meses na época. Eu estava trabalhando, passando por um bairro da região de Venda Nova, como todos os dias. Uns amigos nossos se depararam com uma pessoa pedindo socorro, com o bebê já no colo. Eu estava vindo na rua de cima, e o motorista foi o primeiro a ajudar, aí pediram para me chamar porque já fui socorrista”.

“Fui correndo, bem rápido. Quando eu peguei o Davi no colo, ele já estava roxo, bem roxinho mesmo. Fui ter ciência da situação e tomei um choque no primeiro momento. Mas consegui executar o socorro com sabedoria. Aquilo foi muito gratificante, honroso”, relembra o gari, que mantém contato com a família de Davi até hoje. “Eles sempre fazem questão de me mandar fotos dele, vídeos e de querer me manter perto dele”.

A partir do dia 22 deste mês, a SLU vai estrear uma novidade que promete ser o início da mudança de um hábito cultural: justamente o trabalho dos coletores pendurados em caminhões de lixo recolhendo sacos de lixos deixados pelas calçadas de BH. Falar em fim dessa figura essencial para a cidade ainda é uma realidade muito distante, provavelmente não antes de 2040, segundo a superintendência. Mas a redução desse profissional, especialmente o da coleta seletiva, é algo bem palpável – e esse processo começa na próxima semana.

Isso porque uma etapa importante do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos de Belo Horizonte, criado em 2017, entrará em ação: dois caminhões começarão a recolher o lixo sem a necessidade do gari: a máquina já coloca o material no compactador, devolve o contêiner para o local e vai embora. A novidade percorrerá todas as regionais da cidade em caráter de teste. A ideia é que, até dezembro, esses caminhões passem a atender 77 pontos de coleta e, até fim de 2020, 200 pontos. Isso porque a tarefa automatizada é mais rápida.

Todas essas mudanças fazem parte do plano, que prevê uma série de ações e estratégias para, até 2036, mudar a concepção da coleta de resíduos na capital mineira, especialmente em relação à coleta seletiva. Atualmente, apenas 15% da população de BH – ou 36 bairros – é contemplada no recolhimento desse lixo selecionado, feito apenas da forma tradicional, chamada porta a porta – os garis passando pegando o lixo depositados nas calçadas.

O plano prevê que, até 2036, 100% da população seja contemplada. O índice do porta a porta vai até diminuir, para 10%. Mas isso justamente porque a SLU quer, aos poucos, reeducar BH. Os outros 90% dos belo-horizontinos serão contemplados por esse caminhão moderno, que consegue fazer as tarefas sozinho. Mas o veículo não recolherá na porta de todas as residências, mas em pontos específicos onde a população deverá levar os lixos.

São dois tipos de coleta: “Ponto a ponto conteneirizada mecanizada” e “Ponto a ponto binária conteneirizada automatizada”. A única diferença, segundo a SLU, é que, no segundo tipo, há uma diferenciação entre contêineres de material reciclável (lixo seco) e de lixo domiciliar (lixo molhado).

Além, obviamente, de investimento dos poderes público e privado, para tudo isso sair do papel é fundamental a mudança de um ator que adora se omitir desse processo: nós, a população.

“O plano tem um prazo de 20 anos. Por isso, temos que trabalhar com um processo de conscientização, de educação ambiental com as pessoas. Temos que preparar para uma mudança de hábito mesmo, que requer muito tempo. É um processo de internalização mesmo”, explica Aurora Pederzoli, coordenadora da SLU.

Um dos desafios do plano é mudar a impactante estatística de 2018: BH produziu 689,2 mil toneladas de lixo por dia, das quais apenas 6,2 mil toneladas foram encaminhadas à coleta seletiva. A meta é sair desse 0,9% registrado no ano passado para 11,3% em 2036. “Hoje, as pessoas estão acostumadas a terem um caminhão coletando porta a porta. Com isso, elas só ficam sabendo o dia que o caminhão vai passar e colocam o resíduo na porta de casa”, diz a coordenadora.

“A pessoa terá que sair de casa, pegar os recicláveis e levar até o contêiner mais próximo. É uma mentalidade que queremos mudar no cidadão. A tendência é que, no futuro, o morador se comprometa a diminuir a emissão de gases do efeito estufa. Já que, fazendo coleta porta a porta, com os caminhões andando por todas as ruas da cidade, isso gera uma emissão grande de gases. Queremos que o cidadão leve, não somente os recicláveis, mas também os outros resíduos”, explica Aurora Pederzoli.

Segundo o professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, Raphael Tobias, a SLU fez um plano ousado e precisa correr contra o tempo. “Nossa cultura é de relaxamento em relação ao lixo. Temos o costume de achar que os problemas não são graves e, por conta disso, ninguém quer fazer sua parte e acha que o governo tem que fazer. Há uma transferência de responsabilidade. O poder público também vai muito devagar nessa questão, deveriam ser mais rigorosos em mobilizar e chamar a atenção da população”, analisa.

“A gestão é muito além do que colocar lixo no aterro. Gestão vem do pressuposto de não gerar resíduos e, o que gerar tem de ser reduzido, tratado e reutilizado. A população vai ter que participar da proposta, e a prefeitura terá de fazer uma campanha violenta de publicização, para que as pessoas participem e até que esse tipo de coleta esteja inserido no nosso dia a dia”, salienta.

Desde 2007, o lixo de Belo Horizonte é levado para o aterro sanitário de Macaúbas, em Sabará, na região metropolitana. “O caminho do lixo depende do tipo de resíduo. Os recicláveis vão para galpões de catadores, lá eles fazem a triagem e comercializam o que puder ser reaproveitado, para gerar renda para os trabalhadores. O que não é reciclável, ou que teria potencial, mas não foi separado, vai para o aterro sanitário de Macaúbas”, explica Aurora Pederzoli.

Rafael D’Oliveira/Editoria de Arte BHAZ

Segundo Raphael Tobias, o ideal seria que a cidade produzisse lixo zero, mas, como isso é impossível, é necessário um sistema organizado. “É necessário que se invista em compostagem do resíduo orgânico, que a capital produz muito. Esses alimentos descartados precisam ser reaproveitados em compostos de condicionamento de solo para plantação. Outro problema que a prefeitura tem é o lixo da construção civil”, acrescenta o professor.

A coordenadora da SLU, Aurora Pederzoli, concorda com o professor nesse aspecto. “Muitas vezes a população deixa os resíduos de construção civil na rua, sem um condicionamento adequado e, com isso, ocasionam problemas pela cidade, como enchentes”, explica.

Por dia, a SLU recolhe 424 toneladas da construção civil. Além disso, 380 toneladas de lixos clandestinos jogados pela população em locais irregulares são levados pelos garis. “A tendência é coletarmos esse material, que também é levado para Macaúbas. Chegando lá, é feita uma triagem, já que algumas vezes é possível recuperar parte desse material e ser reaproveitado. Aí esse material vai para as cooperativas e não são aterrados”, conta Aurora.

O professor da UFMG ressalta que a população precisa repensar a produção de lixo. “Cada vez mais, cuidar do meio ambiente tem se tornado algo caro, a população precisa entender que não lidar com o lixo de maneira correta vai custar caro para o pagador de impostos no futuro, que é a própria população”, conclui.

População deve se conscientizar urgentemente sobre a gestão de resíduos, concordam especialistas (Amanda Dias/BHAZ)

A coleta seletiva porta a porta da capital mineira, antes realizada por empresas, ganhou uma nova dinâmica e novos responsáveis. Desde o segundo semestre deste ano, a atividade passou a ser assumida por associações e cooperativas de catadores de materiais recicláveis. Pertencentes ao Fórum Municipal Lixo e Cidadania de Belo Horizonte, as organizações passaram a atender uma população aproximada de 388 mil habitantes de 36 bairros.

A Coopesol Leste foi a responsável pelo projeto piloto de coleta, realizado nos últimos dois anos no bairro Floresta, na região Leste da capital, que levou a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) a contratar outras seis organizações. São elas: Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável (Asmare), a Associação dos Recicladores de Belo Horizonte (Associrecicle), a Cooperativa dos Trabalhadores com materiais Recicláveis da Pampulha Ltda (Coomarp), a Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis da Região Oeste de BH (Coopemar) e a Cooperativa Solidária dos Recicladores e Grupos Produtivos do Barreiro e Região (Coopersoli).

Um dos galpões onde a coleta seletiva é realizada (Amanda Dias/BHAZ)

Segundo a presidente e fundadora da Coopesol, Vilma Stevam, a efetivação trouxe legitimidade ao trabalho dos catadores. “Eu sinto que estamos sendo vistos e valorizados. É claro que a gente sabe o tamanho da responsabilidade, porque você sai de uma área pequena para atender o triplo de residências. Mas se for pensar, há alguns anos atrás, o catador servia só pra catar coisas na rua e era visto como ‘homem do saco’. Hoje não, hoje você vê ele prestando um serviço para a prefeitura, sendo um profissional reconhecido. Isso é resultado de esforços de muito gente, tenho muito orgulho disso”, relata a fundadora.

O coletor efetivado Samuel Felipe de Almeida, de 24 anos, afirma notar uma nova percepção, por parte da sociedade, sobre a categoria. “Pra mim, hoje em dia, eu nem acho que tenha mais preconceito, pelo menos não com o coletor. Porque é um serviço que está visado por todo mundo, onde eu passo me perguntam se está tendo vaga, me entregam currículo para eu trazer…”, diz Felipe ao BHAZ.

Resíduos encaminhados pela população à coleta seletiva (Amanda Dias/BHAZ)

Além dessa nova visão , Vilma destaca o cuidado diferenciado que os trabalhadores das cooperativas têm com o material coletado. “Com a efetivação há uma garantia da qualidade do material recolhido, porque o coletor além de receber pelo serviço ele recebe pelo material. Então você garante um serviço de qualidade, porque se você pega uma empresa privada, o interesse dela é apenas coletar, agora quando você coloca o catador, o interesse dele também é garantir que o material chegue com o menor número de rejeito possível na cooperativa”.

Vale ressaltar os inúmeros benefícios sociais e ambientais que a coleta seletiva de materiais recicláveis traz para a comunidade. Além de diminuir a exploração dos recursos naturais, melhora a limpeza, a qualidade vida da população, diminui a poluição do solo, da água e do ar. Com isso, diminui a proliferação de doenças e a contaminação de alimentos. Segundo Vilma, as pessoas precisam ter consciência de que é responsável pelo lixo que produz.

“Então se é responsabilidade minha, eu tenho que saber da destinação correta daquele resíduo. E aí pensando também que é pro bem comum de todos. Hoje, nós cidadãos precisamos ter essa preocupação, porque é um problema hoje mundial. Então é necessário pensar bem como descartamos, para que isso não seja feito de qualquer maneira e prejudique o meio ambiente”, finaliza a coordenadora da Coopesol.

  • Quais ações a SLU tem tomado para aumentar a conscientização da população em relação à separação e armazenamento do lixo?

A Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) possui um Departamento de Políticas Sociais e Mobilização, que atua o ano inteiro em diversas ações de sensibilização da população a respeito do correto descarte de resíduos. A iniciativa buscar convencer o cidadão sobre a importância do engajamento de todos na preservação da limpeza dos espaços públicos.

Em algumas situações, escolas e centros de saúde, bem como associações comunitárias, bares, restaurantes, instituições públicas e privadas e diversos outros segmentos da sociedade têm estabelecido parcerias com a SLU no intuito de fortalecer o comprometimento dos cidadãos no combate às deposições clandestinas de resíduos.

Ao todo, existem hoje, em Belo Horizonte, mais de 300 Pontos Limpos. Nesse trabalho, após campanhas educativas, limpeza da área e a implantação da placa indicativa do projeto, as pessoas estão se apropriando do espaço revitalizado e percebendo aquela área também como delas. Uma iniciativa que tem dado bons resultados é o plantio de mudas de espécies ornamentais e a instalação de pneus coloridos, para sustentar os canteiros, com a participação dos moradores ou estudantes da área em questão (nos Pontos Limpos). Assim, o local é efetivamente ocupado para que futuros descartes de resíduos não venham a formar um novo ponto crítico de eliminação irregular de lixo.  Em diversos Pontos Limpos, a própria comunidade se comprometeu a irrigar as plantas e, com isso, ajudar na manutenção do lugar. Tão importante quanto limpar é a população se sensibilizar sobre a conservação da limpeza.  

Frequentemente a SLU também realiza campanhas para reforçar a importância do cumprimento dos dias e horários da coleta domiciliar de resíduos, evitando que o lixo permaneça exposto nas vias públicas por mais tempo que o necessário. O mesmo ocorre com a Coleta Seletiva, em que os técnicos e as próprias cooperativas parceiras dialogam com os cidadãos sobre a correta separação e destinação dos recicláveis.  Durante o Carnaval e outros eventos culturais, a SLU está presente com seus técnicos reforçando as ações de conscientização.

Uma ótima notícia é que, em 2016, o município contabilizava 880 pontos críticos de descarte clandestino de lixo. Hoje esse número caiu para 590. Foi constituído um grupo de trabalho formado por educadores ambientais, fiscais e cadastradores a fim de mapear todos esses pontos. O georeferenciamento permite atuar de maneira mais eficiente, limpando e monitorando rapidamente as áreas afetadas, no intuito de coibir novas infrações, pensando estrategicamente formas de enfrentamento das deposições clandestinas. Há reuniões mensais com o grupo responsável por esse segmento para avaliar as iniciativas desenvolvidas e o andamento das ações.  A diminuição dos pontos críticos de descarte irregular de resíduos em Belo Horizonte está relacionada aos esforços de mobilização social, de fiscalização e ao empenho das unidades regionais de Limpeza Urbana da capital.

Em 2018, as atividades de mobilização social e educação ambiental atingiram mais de 70 mil pessoas.

  • Quais medidas estão sendo adotadas para diminuir a produção de lixo na capital?

Campanhas educativas em todas as regiões da cidade e mensagens informativas em ônibus, jornais, portais e mídias sociais (além das ações descritas na resposta anterior).

  • A PBH pretende expandir o aterro de Macaúbas, já que o mesmo tem validade até 2032?

É importante destacar que a destinação dos resíduos de Belo Horizonte à Central de Tratamento de Resíduos Macaúbas é realizada por meio de uma parceria público-privada (PPP). No momento oportuno, quando houver necessidade, um novo contrato poderá ser firmado para a realização desse serviço, conforme a Constituição, seguindo um procedimento licitatório. Porém, é importante lembrar que a SLU se preocupa diariamente em criar no cidadão a cultura da redução e do reaproveitamento de resíduos, para que, a cada ano, menos lixo seja enviado a aterros sanitários.

  • Há a possibilidade de um novo aterro sanitário ser implantado para atender a capital? 

Não há essa intenção por parte do município. Assim como ocorre hoje, as chances são de novos contratos com centrais de tratamentos de resíduos sólidos, dentro das normas legais, quando for preciso.

  • Os garis reclamam da falta de sanitários durante o trajeto de trabalho para que eles façam suas necessidades. A secretaria reconhece que este é um problema?

Os garis de varrição possuem os chamados micropontos de apoio, que são locais onde estão disponíveis banheiro, chuveiro e pia para que possam realizar a higiene pessoal, além de aquecedor de marmitas e armários para a guarda de pertences, roupas e uniformes.  Nesse caso, os garis de coleta têm a opção de utilizar esses equipamentos se eles estiverem em suas rotas. Outras opções seriam os órgãos públicos municipais como centros de saúde e estabelecimentos comerciais. Há banheiros químicos instalados para equipes de multitarefa que realizam, por exemplo, capina e remoção de deposições clandestinas, por permanecerem mais tempo em determinados pontos, durante a execução de suas tarefas. Esses banheiros químicos também podem ser utilizados pelos garis de coleta. Banheiros das sedes das empresas, no início e no final do trajeto, também são algumas alternativas. A natureza do trabalho dos coletores exige essas soluções específicas.

  • O que pode ser feito para solucionar isso?

Legalmente, estão sendo concedidas a esses profissionais todas as condições dignas para a execução do trabalho. Ainda há a possibilidade de utilização dos banheiros do aterro sanitário durante a descarga dos caminhões.

  • Em relação ao local para alimentação e descanso dos garis, que acabam comendo e deitando nas calçadas, o que a SLU pode fazer para melhorar essa situação?

Conforme normas técnicas da limpeza urbana, a cada uma hora de trabalho, os garis devem descansar por 10 minutos. Sempre que os caminhões se deslocam até a Central de Tratamento de Resíduos Macaúbas para descarregar os resíduos, os coletores  realizam pausas e descanso. Além disso, as empresas terceirizadas fornecem ticket alimentação para que os profissionais se alimentem adequadamente em estabelecimentos comerciais.

  • Há algum ponto de apoio para que os garis possam se alimentar e descansar?

Os garis de varrição possuem os micropontos de apoio, citados anteriormente, e sedes de varrição, que são locais dotados de estrutura para asseio corporal e local para refeição. No caso dos coletores, pela natureza e dinâmica do processo de coleta, as refeições são feitas em estabelecimentos comerciais próximos de cada distrito, permitindo que os trabalhadores façam uso de instrumentos públicos como parques e jardins para o descanso.

  • Qual a porcentagem de mulheres trabalhando como garis em BH?

Estamos apurando [a SLU não respondeu até a publicação desta reportagem].

  • Os garis têm apoio psicológico para lidar com a rotina de trabalho, preconceito, desgaste etc?

Conforme determinação contratual, as empresas prestadoras do serviço de limpeza urbana da capital são obrigadas a manter setores de medicina e segurança do trabalho para prestar o apoio necessário ao trabalhador, nos termos da lei trabalhista.

  • Os garis reclamam da exposição ao Sol e pedem a distribuição de protetor solar. Essa é uma responsabilidade das terceirizadas ou da SLU? O que pode ser feito em relação a essa reclamação?

As empresas contratadas para a prestação do serviço de limpeza urbana são obrigadas, por contrato, a fornecer Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), incluindo uniformes, botas, luvas, bonés e o filtro solar a seus funcionários. Há inclusive a recomendação de que os protetores solares contenham agentes repelentes de insetos, para contribuir com a proteção dos trabalhadores contra as doenças transmitidas pelos mosquitos.

  • Quanto à segurança, os garis trabalham suspensos na traseira dos caminhões, a secretaria considera acatar a sugestão do sindicato de instalar uma cabine para que os garis fiquem seguros?

Estudos da SLU apontaram que instalação de cabine não seria a medida mais eficaz nesse caso. Portanto, os procedimentos de segurança adotados incluem a instalação de sensores no estribo para que o caminhão não trafegue em velocidade superior a 20 km por hora durante a coleta de resíduos. Esses dispositivos identificam a presença do gari e automaticamente limitam a velocidade máxima do veículo. Em deslocamentos maiores, por exemplo, da garagem até o trecho de início do recolhimento dos resíduos, esses profissionais se deslocam na boleia do caminhão junto ao motorista.

  • A SLU considera seguro o método atual de como os garis trabalham – pendurados na traseira do caminhão?

Os garis recebem treinamento para que realizem a tarefa de recolhimento de resíduos com segurança. Quando permanecem no estribo, sensores de presença reduzem a velocidade do caminhão, não os deixando ultrapassar os 20 km por hora.

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