Jornalista portuguesa oferece negros como mercadoria na Black Friday

Reprodução/Facebook

Um jornalista portuguesa, de uma das principais emissoras de TV de Portugal, tornou-se alvo de críticas nas redes sociais, ao longo das últimas horas, por conta de uma publicação feita no Facebook, nessa quarta-feira (27). Tânia Laranjo, da CM TV, postou imagem em que é possível ver dois negros sendo oferecidos como mercadoria para a Black Friday.

Assim que o post de Tânia ganhou repercussão, internautas portugueses e de diferentes partes do mundo passaram a criticá-la. Alguns relacionaram a postagem da jornalista ao histórico escravocrata de Portugal. Escritor e ativista brasileiro pelos direitos humanos, Anderson França publicou um texto a respeito da situação. “Ela está fazendo exatamente isso que você está vendo ela fazer. Oferecendo negros, como mercadoria em promoção, no dia comercial do Black Friday”, escreveu o carioca em um trecho.

“Não há hipótese de uma pessoa sã e lúcida fazer isso por ‘brincadeira’, como ela tenta se defender na sequência. Jornalista do CM TV e no Correio da Manhã, não vai sofrer qualquer sanção, porque estes veículos, certamente, apoiam e protegem jornalistas que disseminam tais notícias”, disse em outro momento.

Pedido de desculpas

Depois de sofrer críticas, a jornalista voltou às redes sociais para dizer que é “angolana branca” e que tem familiares “angolanos pretos”. Segundo ela, a postagem em questão não tinha relação com a cor da pele das pessoas que aparecem na imagem. “Tem a ver com a inteligência”, escreveu Tânia.

Sou angolana, branca. Tenho na minha família angolanos pretos. Temos todos sentido de humor. É uma cena que não tem a…

Posted by Tânia Laranjo on Wednesday, November 27, 2019

Para a página “Os truques da imprensa portuguesa”, no entanto, a justificativa é uma variação da expressão “tenho um amigo que é”. “Entretanto, Tânia Laranjo veio dizer que era ‘angolana branca’ e que tinha familiares ‘angolanos pretos’, numa variação do clássico ‘tenho um amigo que é’, esclarecendo que todos eles, independentemente da cor, têm sentido de humor, e acrescentando que esse humor ‘é uma cena que não tem a ver com a cor da pele'”, escreveu a página que tece críticas à imprensa local.

Em outro post, Tânia pediu desculpas “aos que se ofenderam” e justificou o ato dizendo não ser racista. “Agora falando a sério. Humor é humor. Nem todos gostamos das mesmas piadas. Mas não devemos matar o humor.
Não sou racista. Nunca fui. Brancos, amarelos ou azuis. Nasci em Angola e sou filha de angolanos. Não somos os colonizadores maus. Sou angolana e portuguesa”, escreveu a jornalista.

Agora falando a sério. Humor é humor. Nem todos gostamos das mesmas piadas. Mas não devemos matar o humor.Não sou…

Posted by Tânia Laranjo on Thursday, November 28, 2019

Na mesma postagem, ela ainda fez referência ao presidente norte-americano Donald Trump e ao brasileiro, Jair Bolsonaro. A jornalista disse, em outras palavras, que há pessoas abertamente racistas. “As críticas à Joacine e ao Mamadou não têm a ver com a cor da pele. Há brancos ‘rasgados’ nas redes sociais. Basta ver o Trump ou o Bolsonaro.
Aos que se ofenderam peço desculpa. Para os politicamente corretos e que usam os insultos nada tenho a dizer. Apenas que estava a brincar. Mais nada”, concluiu.

Joacine Katar e Mamadou Ba: Quem são?

As críticas contra Tânia Laranjo foram potencializadas principalmente por conta das pessoas que aparecem na imagem publicada por ela. A mulher em questão é Joacine Katar, deputada no Congresso Nacional português, a Assembleia da República. Além de parlamentar, ela é especialista considerada referência em Assuntos Africanos e, vira e mexe, é alvo de reportagens em que tem a aparência e a dificuldade de fala como destaques.

Já o homem é Mamadou Ba. Ele é um importante ativista afroportuguês que comanda a ONG SOS Racismo, uma das mais influentes no combate ao preconceito em Portugal e nos países da Europa. Mamadou já sofreu diversas agressões e denuncia a violência policial e outros preconceitos contra negros naquele país.

Até a publicação desta reportagem, nenhum dos dois se pronunciaram a respeito da postagem da jornalista Tânia Laranjo. A emissora em que ela trabalha, a CM TV, também não emitiu nenhum posicionamento.

Lei antirracismo

O ano de 2017, em Portugal, foi marcado pela mudança na lei de combate à discriminação. No dia 23 de agosto, entrou em vigor o novo regime jurídico de prevenção, proibição e combate à discriminação, em razão da origem racial e étnica, cor, nacionalidade, ascendência e território de origem.

Diferentemente do Brasil, onde o racismo e a discriminação são crimes inafiançáveis, em Portugal o fenômeno ainda é entendido como contraordenação, ou seja, como um comportamento violador da lei a que é dado menor relevância por ser considerado menos grave, e punível com multa.

A lei portuguesa busca reforçar, segundo a CICDR (Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial), a proteção das vítimas. Uma mudança apontada pelo relatório anual foi a relativa ao ônus da prova, que dispensa a necessidade de prova por parte da vítima. Outra mudança foi o agravamento das multas aplicadas, com valor máximo de 4.289 euros, no caso de pessoa singular, e de 8.578 euros, no caso de se tratar de pessoa coletiva. No regime anterior, os limites máximos eram de 2.525 euros e de 5.050 euros, respectivamente.

Com Agência Brasil