Home Notícias Brasil Energia cai e cinema usa gerador em sessão exclusiva, para acalmar jovem que tem autismo

Energia cai e cinema usa gerador em sessão exclusiva, para acalmar jovem que tem autismo

“Assistimos ao filme só eu e meu filho, foi um momento lindo. Fico muito agradecida, feliz demais, emocionada. Fui embora chorando, nunca vou me esquecer”. Após faltar energia em um shopping, o cinema precisou cancelar todas as sessões previstas para a tarde do último dia 23 de novembro.

Com o propósito de acalmar um jovem com espectro autista, ansioso com a mudança de planos, a direção do local decidiu fazer uma sessão, com um uso de um gerador, para que ele e a mãe pudessem assistir ao filme. A atitude emocionou Cláudia Cruz Costa, mãe de Victor Costa, que compartilhou a situação no perfil que mantém no Facebook.

Cláudia e Matheus Rodrigues, sub-gerente do cinema, falaram da importância da inclusão, ao BHAZ. O caso aconteceu no Shopping Jockey Plaza, na rede Cinépolis, em Curitiba (PR). A mãe do jovem Victor, de 18 anos, já tinha combinado com o filho, há algum tempo, de assistir “A Família Addams”.

“Além do autismo moderado, meu filho tem um pouco de dificuldade de locomoção. Por isso, eu sempre paro o carro bem perto do elevador. Só que não estava funcionando, aí tivemos que subir dois lances de escada. Chegando ao cinema, fomos direto para fila, para comprar os ingressos. Aí fomos informados que, com a queda de energia, as sessões haviam sido canceladas”, explica Cláudia ao BHAZ.

A mãe do jovem explica que ele começou a ficar irritado. “Ele não entende esse tipo de situação, aí começou a ficar nervoso. As pessoas ficaram olhando, julgando. Porém, rapidamente um funcionário apareceu para perguntar o que estava acontecendo e contei tudo. Falei que o Victor só precisava ir para um lugar tranquilo para se acalmar um pouco”, continua.

Nesse momento, o funcionário os levou para uma sala vip, onde Victor e a mãe puderam se sentar e aguardar. “Expliquei que precisava dar uma Coca-Cola para ele, que ele fica melhor. Sei que a lanchonete estava fechada, mas perguntei se conseguiriam me ajudar. Eles foram muito rápidos e já buscaram o refrigerante para o meu filho”, relata.

Cláudia e Victor (Cláudia Cruz Costa/Arquivo pessoal)

Sessão exclusiva para mãe e filho

O sub-gerente do cinema Matheus Rodrigues ficou sabendo da história e foi até a sala. “Estava atendendo os clientes, explicando, mostrando a saída. Quando eu cheguei na sala, ele ainda estava um pouco agitado. A energia ainda estava bem instável mas, como ele estava em crise, tomei a decisão de colocá-los na sala para eles assistirem ao filme, com a energia alimentada elétrica por um gerador”, explica o profissional.

“Tenho experiência com crianças que têm autismo, sei lidar com esse tipo de situação. Eu fui criado no meio evangélico, trabalhava muito com crianças especiais na escola dominical. Embora nunca tenha feito curso, a gente lida bem com isso. A gente acaba sabendo reconhecer e como atuar”, continua Matheus.

Cláudia e Victor assistiram ao filme em uma sessão só deles e deu tudo certo. O jovem ficou extremamente feliz. “Ele [Victor] é uma pessoa não-verbal. Expliquei que a gente iria sair e agradecer ao pessoal do cinema. O jeito que ele conseguiu fazer isso foi rindo para mostrar gratidão. Eu saí de muito emocionada, chorando demais. É maravilhoso saber que ainda existem pessoas assim”, explica Cláudia.

A foto só foi tirada uma semana depois do ocorrido, nessa sexta-feira (29), e Cláudia reforça a importância de falar sobre o assunto. “Foi a data que consegui marcar de tirar essa foto, pois estavam todos trabalhando. A ideia é que as pessoas entendam que pequenas atitudes fazem uma grande diferença”, conta.

“As pessoas olham, não entendem, recriminam. Já passei por muitas situações complicadas. Uma vez tive que demorar em uma fila, por exemplo, e ele se agitou muito, e as pessoas ficaram bravas. O tempo dele de tolerância é curto”, conta Cláudia.

Sobre o filho, a mãe é só elogios. “Ele é uma pessoa muito carinhosa, receptiva, gosta muito de vida social, de sair, ver gente. Não privamos ele de nada. Se a gente vai ao cinema, restaurante, supermercado, vai estar sempre junto com a gente. É um ser-humano incrível”, completa.

Cinema inclusivo

O sub-gerente conta que o Cinépolis tem um projeto que se chama “Cinema Azul”. “É um momento em que a gente fecha algumas salas e exibe filmes para pessoas com autismo. Tudo é adaptado às necessidades deles. Alguns precisam de abafadores, outros precisam de adaptações específicas, vai depender do grau. Um dos nossos objetivos é integrar todos os tipos de pessoas, pois todo mundo tem o direito de ver um filme”, explica Matheus.

Para Matheus, é uma grande satisfação poder proporcionar momentos como esse. “Mexe com o emocional. Gosto de trabalhar mudando a vida das pessoas de alguma forma. Trabalhamos nos pequenos detalhes, no sentido de construir uma sociedade melhor. É preciso que as pessoas abram a mente, estudem mais sobre o assunto. Eu me sinto agradecido, o privilegiado fui eu, não os dois”, completa.

Resistência a mudanças

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, algo comum entre pessoas que têm TEA (Transtorno do Espectro Autista) é a dificuldade para que se mude a rotina. Por exemplo, caso esteja fazendo uma atividade, ela será resistente para que se inicie alguma outra.

Além disso, existem, também, momentos de crise de desorganização, que se parecem com uma “birra”, mas acontecem por conta da dificuldade em lidar com mudanças ou expressar sentimentos. Alguns exemplos são o barulho de uma máquina ou então a textura de uma roupa, coisas que podem ser perturbadoras para essas pessoas.

Para as pessoas com TEA, o mundo é algo confuso, que elas precisam de tempo para entender. Então, o que é uniforme e previsível, é sempre mais confortável. Mudanças bruscas de rotina não são somente complexas, são como tirar tudo aquilo em que essas pessoas estão sustentadas.



Vitor Fernandes

Vitor Fernandes

Jornalista no Portal BHAZ

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