Home Notícias BH Tomei Belorizontina, devo me preocupar? Médico e mestre-cervejeiro respondem dúvidas

Tomei Belorizontina, devo me preocupar? Médico e mestre-cervejeiro respondem dúvidas

Desde que a Polícia Civil confirmou a presença da substância tóxica dietilenoglicol em amostras da cerveja Belorizontina, nessa quinta-feira (9), consumidores temem ingerir a bebida por conta da síndrome nefroneural que chamou a atenção de especialistas de todo o país. A preocupação é ainda maior entre pessoas que consumiram a cerveja no último mês. No entanto, há também aqueles que beberam unidades dos lotes contaminados e não manifestaram nenhum sintoma.

Amanda Peron, moradora do bairro Buritis, na região Oeste de Belo Horizonte, onde foram registrados a maioria dos casos até agora, contou ao BHAZ que comprou duas caixas da cerveja em dezembro e também consumiu a mesma marca com o marido em um bar. Ela explica que não sentiu os sintomas associados à síndrome, mas também passou mal: “Nós estamos, desde segunda-feira, com alguns problemas de estômago. Nada demais”.

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Em entrevista ao BHAZ, o médico Carlos Starling, infectologista e especialista em medicina preventiva, explicou que pessoas que ingerem a substância podem apresentar diferentes reações, já que a gravidade dos sintomas depende da dose. “Depende de qual foi o volume consumido, da interferência de outras coisas que a pessoa tenha ingerido ao mesmo tempo, que podem interferir na absorção do álcool, e a característica do metabolismo de cada pessoa também influencia”, conta.

O profissional também reforça que a investigação ainda é preliminar. Segunndo o médico, a partir da comparação entre pessoas que foram expostas e aquelas que não foram, mesmo ingerindo a bebida, é que vão surgir as informações e estatísticas necessárias para o desenvolvimento do caso.

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“Apesar de a polícia ter encontrado sinais da substância na cerveja, ainda precisa haver investigação e confirmação laboratorial de que é isso que está causando os sintomas”, lembra. O médico ressalta que, assim como a ingestão da cerveja, há outros fatores que devem ser avaliados.

Renato Teixeira Neves, de 63 anos, também é morador do bairro Buritis e faz parte do grupo de pessoas que consumiram a cerveja e não sofreram com nenhum sintoma. Ele contou ao BHAZ que bebeu seis cervejas de um dos lotes das amostras nas quais foram identificadas a substância tóxica: “Fiquei preocupado quando descobri que a cerveja podia estar relacionada, mas já bebi seis e, graças a Deus, não me fez mal. Fiquei apreensivo”.

Quando procurar um médico?

O especialista Carlos Starling afirma que as pessoas que beberam as cervejas dos lotes L11348 e L21348, e não manifestaram nenhum sintoma, não precisam se preocupar. “Não tendo sentido nenhum sintoma, sem alteração de fluxo urinário e sem sintomas neurológicos, não há porque temer. Provavelmente não ingeriram a substância, apenas a cerveja”.

Quanto àqueles que ingeriram a cerveja e sentiram algum dos sintomas, a recomendação é que procurem um médico o mais rápido possível. “Procure o mais cedo possível, porque existe tratamento e, quanto mais precoce o diagnóstico, mais eficiente é o tratamento”, alerta.

O que é o etilenoglicol?

Uma das questões ainda pouco esclarecidas é o papel do dietilenoglicol no processo de produção da cerveja. Em entrevista ao BHAZ, Marco Falcone, vice-presidente do SindBebidas e diretor da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal), contou que a substância funciona como um anticongelante, que pode atuar no processo de refrigeração sem nunca ter contato com a cerveja, mas não é usualmente utilizada em cervejarias.

“Para gelar os tanques de fermentação, a gente trabalha com uma temperatura de -5ºC. Nessa temperatura, a água congela, então precisamos usar um anticongelante”, explica. Ele ainda conta que o mais comum é que as cervejarias utilizem, para esta função, uma mistura de cerca de três partes de água para uma de etanol, de forma que não haja risco algum para o consumidor: “O máximo que pode acontecer é aumentar o teor alcoólico da bebida”, diz.

Marco alega que nenhuma das 55 cervejarias associadas ao SindBebidas utiliza o dietilenoglicol e que esse é um dos fatores que, junto com a restrição geográfica da ocorrência da síndrome – com pelo menos 7 casos de pessoas que moram ou estiveram no bairro Buritis -, gera estranhamento. “Claro que não estamos questionando o inquérito da Polícia Civil, mas muito nos estranha isso ter aparecido em duas amostras apenas, em um universo de 60 mil cervejas”, conta.

O mestre-cervejeiro conta que, durante o processo de produção, depois de sair dos tanques de cozimento e passar para o equipamento onde ocorre a fermentação, a cerveja não tem mais contato nenhum com o ar e, por isso, não teria como a substância entrar em contato e contaminar a bebida.

Quanto à possibilidade de contaminação por vazamento, Marco também conta que acredita ser pouco provável: “No caso de um tanque desses furar, como a densidade da cerveja é maior, ela é que passaria para o lado do etilenoglicol, e não contrário. Com isso, seria possível identificar o problema dentro da própria fábrica e o lote não seria distribuído”.

Apesar de conseguir apontar hipóteses, Marco, assim como o médico Carlos Starling, também reforça que as investigações ainda estão no começo, o que impossibilita afirmações mais categóricas. Motivo pelo qual o posicionamento oficial do sindicato só será publicado uma vez que as investigações sejam concluídas.

Como devolver garrafas da cerveja?

Enquanto informações mais concretas não são divulgadas, diversas casas em Belo Horizonte acumulam garrafas de cerveja Belorizontina, compradas por moradores que, agora, preferem não arriscar.

Mesmo Amanda e Renato, que consumiram a bebida antes de saber das investigações, preferem aguardar que o caso seja concluído. Amanda tem, atualmente, nove garrafas fechadas e seis na geladeira: “Não sei ainda o que vão fazer. Estamos meio que aguardando”. Já Renato preferiu devolver as bebidas. “Estou devolvendo a cerveja que ainda está comigo para a Backer. Eles vêm buscar aqui em casa”, contou.

As autoridades reforçam que consumidores que tenham a cerveja em casa podem encaminhar o produto para a Vigilância Sanitária, em Belo Horizonte, e para sedes dos Procons municipais fora da capital. Os lotes contaminados são o L1 1348 e L2 1348. Em BH, o material ficará sob custódia da SMS (Secretaria Municipal de Saúde) para encaminhamento das investigações necessárias. Endereços de recolha podem ser conferidos aqui.

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