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Funerária de BH rechaça gerente, nega número recorde de cadáveres e risco de Covid-19

ATUALIZAÇÃO às 19h do dia 23/03/2020 após entrevista com a direção da funerária e para incluir posicionamentos da Polícia Civil, do Grupo Zelo e da Secretaria Municipal de Saúde de BH.

Após o gerente de uma funerária de Belo Horizonte informar, na noite desse domingo (22), às autoridades policiais o recebimento de um número recorde de cadáveres – inclusive com sintomas compatíveis aos de coronavírus -, a direção do estabelecimento rechaçou as informações nesta segunda (23). O Grupo Zelo garantiu que o estabelecimento recebeu, entre sexta e domingo, 23 corpos – ao contrário de 73 informados pelo gestor – e descartou qualquer risco de óbito por Covid-19. A Secretaria de Estado de Saúde mineira reforçou que, até o momento, nenhuma morte pelo vírus foi registrada em Minas.

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Além dos corpos com a declaração de morte apontando sintomas compatíveis ao de coronavírus, o gerente afirmou às autoridades policiais que um cadáver possuía no laudo a descrição “vigência da pandemia Covid-19”. Sobre isso, a Polícia Civil informou na tarde desta segunda que trata-se apenas de um protocolo para proteger os médicos legistas – protocolo, inclusive, que foi mudado hoje para evitar “interpretação equivocada”.

Entenda tudo abaixo.

O caso

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Na noite desse domingo, a Polícia Militar recebeu uma denúncia anônima informando que mais de 40 corpos oriundos de cidades da região metropolitana de Belo Horizonte estão sendo entregues à funerária Grupo Zelo, situada no bairro Nova Gameleira, na região Oeste da capital mineira. Uma equipe do 5º Batalhão da PM, responsável pela área, se deslocou, então, até o local.

No estabelecimento, os policiais foram recebidos pelo gerente do estabelecimento, que não só confirmou a denúncia anônomia, como relatou que, em 30 anos de profissão, nunca tinha recebido tanto cadáver: ao todo, 73 em entre a última sexta-feira (20) e domingo (22). Desse total, 23 corpos possuíam como declaração de óbito diagnósticos como insuficiência respiratória aguda, pneumonia crônica e pneumonia aspirativa (este incompatível com Covid-19, segundo especialistas ouvidos pelo BHAZ).

Além do diagnóstico registrado das declarações de óbito, chamou a atenção do profissional a faixa etária dos mortos: entre 50 e 90 anos – apenas um possuía 49 anos. A OMS (Organização Mundial da Saúde) informa que o coronavírus tem mortalidade mais alta justamente contra pessoas acima de 60 anos.

Trecho do registro policial (Reprodução/Polícia Militar de Minas Gerais)

‘Normalidade’

Após a repercussão pelas redes sociais e a publicação inicial desta reportagem, o Grupo Zelo afirmou, através de uma nota (leia na íntegra abaixo), que “os atendimentos estão dentro da normalidade”. Mais tarde, o diretor de conformidade do grupo, Robert Toledo, garantiu que a funerária não recebeu 73 cadáveres em três dias, mas sim 23.

“Está tudo dentro da normalidade. Pode ter uma oscilação, mas tudo conforme nossa média”, afirmou, em entrevista ao BHAZ, o gestor, que se recusou a passar planilhas sobre o número de corpos recebidos pela funerária nos últimos anos ao alegar impedimento imposto por políticas internas.

“Mas temos o compromisso de dizer a verdade: independentemente de causa mortis, aquela unidade recebeu 23 corpos entre sexta e sábado. Aliás, nem é competência nossa definir ou mesmo analisar declaração de óbito”, complementa o diretor, rechaçando o depoimento do gerente.

Toledo ainda descarta qualquer possibilidade de falha no protocolo. “A Nota Técnica 4/2020 da Vigilância Sanitária determina que o hospital deve comunicar as funerárias em caso de qualquer suspeita de doença infectocontagiosa. Isso porque temos normas para seguir, nesses casos, de transporte e acondicionamento. E não tivemos qualquer comunicação desse tipo até agora”, garante.

Protocolo modificado

Além dos 23 óbitos cujas causas seriam enfermidades respiratórias, o denunciante informou às autoridades policiais que teria recebido recentemente um caso na cidade de Betim, na Grande BH, cujo laudo descrevia “vigência da pandemia Covid-19”.

Sobre esse caso específico, a Polícia Civil informou que tratava-se de um protocolo adotado justamente para proteger os médicos-legistas, que “foram orientados a priorizar, na necropsia, o exame cadavérico externo, com o objetivo de reduzir o agravamento da pandemia do Covid-19”.

“Neste contexto, ao emitir a declaração de óbito, registra-se “causa indeterminada no momento – vigência da pandemia pelo Covid19, caso não seja possível a determinação da causa da morte somente pelo exame externo”, afirma, por nota (leia na íntegra abaixo). “O objetivo da anotação é justificar a não realização do exame interno, no cadáver e não significa, absolutamente, que a causa da morte foi o Covid-19”, complementa.

Para evitar “interpretação equivocada”, no entanto, a polícia decidiu alterar hoje a orientação original – a declaração constará, apenas, “causa indeterminada”.

‘Indício de informações inverídicas’

O denunciante ainda afirmou aos militares que os corpos são oriundos de Belo Horizonte (entre os quais um do Hospital da Polícia Militar), Contagem, Betim e Matozinhos, todos na região metropolitana; além de Sete Lagoas (região Central de Minas).

O porta-voz da PM, major Flávio Santiago, confirmou a veracidade do registro policial, mas sugeriu que há “indício de informações inverídicas” na denúncia realizada pelo gerente.

“É claro e evidentemente que a PM já tomou procedimentos, já encaminhou à polícia investigatória para que isso seja melhor definido. Mas já tem uma informação extremamente importante: o caso relatado de uma pessoa falecida oriunda do Hospital Militar não é verídica”, disse o major.

“É importante que nós levemos essa informação a todos para não criarmos pânicos desnecessários inclusive com situações que estão em apuração. Cabe aos policiais militares todo e qualquer relato enviarem aos seus comandantes”, complementou, antes de finalizar. “O mais importante é que essas informações estão sendo checadas, mas que já há um indício de informações inverídicas e precisamos de muita cautela no repasse dessas informações”.

Apesar do posicionamento do porta-voz da PM, o Grupo Zelo não contestou o número de cadáveres nem mesmo o conteúdo das declarações de óbito informados pelo denunciante.

Procurada pelo BHAZ, a assessoria da Secretaria Municipal de Saúde de BH informou, por telefone, que recebeu uma “notificação a partir de um boletim de ocorrência, sobre esses casos da funerária”. “Pelo próprio boletim, identifica-se que muitos casos são da região metropolitana. Belo Horizonte está aprofundando a investigação, junto com a polícia, em relação a esses óbitos”, complementa.

Por fim, reforça que “não tem nenhum caso confirmado de coronavírus”.

A reportagem tentou entrar em contato com o gerente do estabelecimento, em dois números atribuídos a ele. Porém, não obteve sucesso até esta publicação. Tão logo consiga, esta reportagem será atualizada.

Nota da SES-MG

“Sobre a sua solicitação, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informa que a situação mencionada está sendo avaliada e acompanhanda pelos órgãos competentes. Vale ressaltar que não há, até o momento, nenhum caso confirmado de óbito por Covid-19 no estado de Minas Gerais. Tão logo as informações sejam apuradas adequadamente, daremos os devidos esclarecimentos”.

Nota da Polícia Civil

“A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informa que no último dia 21, sábado, os médicos-legistas foram orientados a priorizar, na necropsia, o exame cadavérico externo, com o objetivo de reduzir o agravamento da pandemia do Covid-19, mantendo-se a obrigatória utilização do equipamento de proteção individual – EPI.

Neste contexto, ao emitir a declaração de óbito, registra-se “causa indeterminada no momento – vigência da pandemia pelo Covid19”, caso não seja possível a determinação da causa da morte somente pelo exame externo. O objetivo da anotação é justificar a não realização do exame interno, no cadáver e não significa, absolutamente, que a causa da morte foi o Covid19. Após o término da contingência epidemiológica, caso a autoridade policial entenda ser necessária, a exumação do corpo a poderá ser realizada.

De toda forma, para evitar qualquer interpretação equivocada, alterou-se a orientação original. Não sendo possível a determinação da causa do óbito, a declaração constará, apenas, “causa indeterminada” e outras informações constarão no laudo de necropsia enviado à autoridade policial.

Os corpos acautelados em câmaras frigoríficas do IML referem-se a casos em processo identificação e aguardam autorização para o enterro, e não se referem à pandemia do Covid19.

Desde o início da pandemia, não houve, no IML, registro de óbito causado pelo Covid19.

Na últimas 24h (7h de 22/03/2020 às 7h de 23/03/2020), foram necropsiados no IML Dr. André Roquette, em Belo Horizonte, 7 corpos, e no IML Betim, 4 corpos, nenhum deles com suspeita ou confirmação de infecção pelo Covid19.

Esclarece-se, por fim, que o diagnóstico do Covid19 depende de exames laboratoriais realizados em vida, e não de necropsia. Portanto, não cabe a PCMG examinar corpos de pessoas que morreram em decorrência de doença infectocontagiosa, salvo quando da ocorrência de algum crime associado”.

Nota do Grupo Zelo

“COMUNICADO À IMPRENSA

Ciente de sua responsabilidade social e da importância da transparência em suas operações, o Grupo Zelo tem a informar o seguinte:

1 – Em relação ao Boletim de Ocorrência da Polícia Militar de Minas Gerais, de que o Grupo Zelo estaria recebendo um volume alto de óbitos em sua unidade Gameleira, podemos afirmar que todos os atendimentos estão dentro da normalidade.

2 – O número de atendimentos teve um aumento nos últimos dias, mas nada que possa ser considerado significativo, estando dentro da regularidade para essa época do ano.

3 – O Grupo Zelo não é responsável pela emissão de atestados de óbitos, portanto está impossibilitado de atestar a causa mortis dos atendimentos realizados.

4 – Todos os nossos colaboradores estão preparados para fazer os atendimentos segundo normas de segurança e portando os Equipamentos de Proteção Individual necessários.

5 – Até o momento, o Grupo Zelo não recebeu comunicação de nenhum caso de Covid-19 confirmado por parte dos hospitais.

6 – Quando há o caso específico de risco biológico para doença infecto-contagiosa como a Covid-19, a recomendação das autoridades de vigilância sanitária é de não se fazer a tanatopraxia, ou seja, o corpo deve ser levado ao laboratório, onde é colocado na urna. A mesma deve ser lacrada e enviada diretamente para sepultamento.

7 – Nesses casos, o hospital deve comunicar imediatamente a funerária no momento da remoção, o que, conforme já comunicado acima, não ocorreu até o momento presente.

8 – O Grupo Zelo está à disposição para quaisquer novos esclarecimentos relacionados ao assunto.

SOBRE O GRUPO ZELO

O Grupo Zelo nasceu em 2017, com a aquisição da Funerária Bom Jesus e da carteira de clientes das empresas Santa Clara, Santa Rita e Bom Pastor. Teve as suas atividades iniciadas no mercado funerário de Minas Gerais a partir do termo de ajustamento da regulamentação dos planos de assistência funerária no Brasil.

O Grupo Zelo está presente em mais de 600 cidades em todo o país – com 65 unidades espalhadas em 40 cidades em três estados. O Grupo cresce continuamente com foco na oferta de estrutura completa para o atendimento, do início ao fim, de serviços de assistência funerária.

ASSESSORIA DE IMPRENSA DO GRUPO ZELO”

Thiago Ricci

Thiago Ricci

Editor-chefe do BHAZ desde agosto de 2018, cargo ocupado também entre 2016 e 2017. Jornalista pós-graduado em Jornalismo Investigativo, pela Abraji/ESPM. Editor-chefe do SouBH entre 2017 e 2018; correspondente do jornal O Globo em Minas Gerais, entre 2014 e 2015, durante as eleições presidenciais; com passagens pelos jornais Hoje em Dia e Metro, TVs Record e Band, além da rádio UFMG Educativa, portal Terra e ONG Oficina de Imagens. Teve reportagens agraciadas pelos prêmios CDL, Délio Rocha, Adep-MG e Sindibel.

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