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Com aulas online forçadas, universitários expõem dificuldades e pedem mensalidades mais baratas

universidades adotam aulas online

A pandemia do novo coronavírus tem mantido todo mundo em casa. A medida, obviamente, inclui alunos e professores das faculdades e universidades da capital que passaram a se “encontrar” em aulas virtuais. O problema é que a implementação dos cursos à distância não agradou alunos de algumas instituições de ensino de Belo Horizonte. Universitários da PUC (Pontifícia Universidade Católicas de Minas Gerais) entraram em contato com o BHAZ e denunciaram falta de diálogo e má qualidade do material disponibilizado. Outro problema é a ineficácia das aulas à distância para quem não tem acesso à internet.

A realidade se repete para alguns estudantes matriculados no UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte). Alunos das duas instituições não concordam ainda com a manutenção do valor da mensalidade em um cenário em que eles não utilizam as dependências das faculdades.

E como fica a formação?

Alunos matriculados em cursos relacionados à saúde têm enorme preocupação com relação à qualidade da formação online. Uma estudante da PUC Betim, de 25 anos, que pediu anonimato, cursa o sexto período de Medicina Veterinária e não concorda que aulas sejam ministradas pela internet.”Estamos tendo aulas online, com provas online. Muitos alunos consultam materiais durante os testes, outros perdem aulas e acabam não aprendendo. O sistema não tem a qualidade necessária. Aulas à distância na área da saúde não são indicadas”, desabafou.

Paloma Abreu, de 23 anos, concorda com a colega de curso. Ela explicou que se preocupa com o aprendizado de matérias complexas como anatomia e bioquímica. “A gente precisa dessas disciplinas para fazer outras matérias. Não estamos nos laboratórios, não temos monitoria e precisamos aprender por fotos”, reclamou.

Paloma e a jovem de 25 anos tentaram, inclusive, trancar o curso. No entanto, elas não conseguiram contato com representantes da PUC para realizar o procedimento.

Aluna do quinto período de Nutrição do UniBH, Júlia Souza de 21 anos passa pelo mesmo problema. “Eu tenho muito medo de não aprender, eu não consigo prestar atenção nesse tipo de aula. Vou precisar me tornar autodidata”, considerou.

E as mensalidades, foram ajustadas?

Outra reclamação entre os universitários é o valor da mensalidade. Mesmo sem ir aos campi para utilizar laboratórios e outras dependências, os estudantes estão pagando o mesmo valor. O curso de medicina veterinária, conforme a jovem de 25 anos, custa entre R$ 2.600 e R$3.000 na PUC. “Estamos pagando por um serviço que não estamos recebendo. E o pior é que a professora falou que eu só posso trancar o curso quando tudo normalizar”, contou a jovem.

Júlia também considera que é injusto pagar o mesmo valor para ter aulas à distância. “O valor integral do curso é por volta de R$1.400. Até agora falaram que estão fazendo o melhor possível e não informaram nada sobre a mensalidade”, revelou.

Sem acesso

Outra aluna da PUC de 23 anos, que pediu para não ser identificada, precisou voltar para a zona rural. A família da jovem não mora em Belo Horizonte e retornar para casa foi a única opção em tempos de quarentena.

O problema é que na casa dos pais, a estudante não tem acesso à internet. “Estou passando os dias de isolamento na roça. Aqui não há internet rápida e o sinal do celular oscila, só funciona em alguns lugares”, contou. A estudante não conseguiu assistir a nenhuma aula e só conseguiu fazer as atividades avaliativas com a ajuda do celular de outra pessoa. “Estou ficando prejudicada nas aulas e atividades assim como outros alunos, já que nem todos tem acesso rápido à internet”, finalizou.

Falta diálogo

Outro aluno da PUC, de 23 anos, matriculado no nono período do curso de Direito, considera que o principal problema da implementação do ensino à distância é a ausência de comunicação entre faculdade e alunos. “O que mais incomoda é a falta de diálogo. Se não houver a participação dos alunos, muitas incertezas aparecem”, considera.

O Diretório Acadêmico do curso de Direito da PUC da praça da Liberdade enviou um ofício para a universidade no dia nessa segunda-feira (23) pedindo que a Universidade discuta as dificuldades com os alunos. Veja o documento:

O que diz o Direito do Consumidor?

A advogada Ana Carolina Caram, especialista em Direito do Consumidor, considera que a situação dos cursos à distância “forçados” configura algo complexo e inovador para o campo jurídico. “A gente tem usado muito a palavra conciliação. O MEC (Ministério da Educação) tem liberado essa ferramenta para que os alunos não percam o ano letivo, mas é preciso manter a qualidade”, destacou a especialista.

Ela considera que as aulas, por exemplo, devem ficar gravadas para que os alunos possam ter acesso caso tenham algum tipo de problema tecnológico.
Sobre o impasse do valor das mensalidades, Ana prevê uma discussão acirrada. “As universidades vão ter redução de custos com limpeza, luz, água, eventual dispensa de alguns funcionários e é um momento de crise econômica para todos. Será preciso chegar a um equilíbrio para equacionar essas questões”, ressaltou.

A advogada considera que as faculdades vão precisar inovar nesse campo até para não excluir alunos que, por ventura, percam os postos de trabalho em decorrência da crise econômica. 

No caso das faculdades que não estão prestando o serviço, o custo da mensalidade deve ser suspenso já que há uma “quebra de contrato”. No entanto, a advogada considera que possa haver também a reposição das aulas.

O que diz a PUC?

O BHAZ informou a PUC, por meio de e-mail, as reclamações dos alunos. No entanto, até o fechamento desta matéria, a universidade não havia se pronunciado. O portal tentou ainda, por diversas vezes, contato telefônico, mas a mensagem gravada informa que os atendimentos só estão sendo feitos por meio eletrônico.

O reitor da instituição, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, publicou nas redes sociais uma mensagem para os alunos.

O que diz o UniBH?

O UniBH informou, por meio de nota, que está se esforçando para não interromper os serviços. Foi esclarecido ainda que o número de colaboradores não foi reduzido e que todos os recursos foram mantidos para atender ao estudante.

O centro universitário explicou ainda que não adota EAD (Ensino a Distância). “Continuamos a oferecer os nossos cursos no ambiente online, com a mesma qualidade e as nossas atividades acontecem no mesmo momento em que aconteceriam de forma presencial”, explicou o texto.

Confira na íntegra as respostas do UniBH:

Alunos reclamam que o valor das mensalidades não foi alterado. Algo será feito com relação a isso? Será equiparado a cursos EAD?

Estamos nos esforçando muito para não interromper a cadeia de serviços; afinal, continuamos sendo tomadores de todos os serviços que sempre contratamos, o que inclui professores, colaboradores e prestadores de serviços. Não houve mudança em nossa estrutura física, desligamento de profissionais ou adoção de outras políticas, como, por exemplo, antecipação ou férias coletivas dos nossos colaboradores.

Com isso, afirmamos que, no panorama atual, mantivemos todos nossos recursos para atender nossos estudantes, algo que não ocasiona mudança em nenhum custo da contratação do seu curso.

Vale ressaltar ainda que o modelo de aula virtual adotado neste momento, difere-se do modelo de Ensino a Distância (EAD) e que não houve substituição do ensino presencial pelo EAD.

Alunos que não tem estrutura para fazer o curso não presencial serão ressarcidos?

Entendemos que toda sociedade está passando por um momento delicado e sensível, por isso, estamos em busca de opções de seguros e soluções financeiras para auxiliar nossos alunos e alunas, principalmente aqueles em situação financeira mais vulnerável e que não têm condições de arcar com os custos em função das mobilizações de combate ao COVID-19.

Estudantes informaram que não há maneira de trancar o curso. Por que?

O processo de trancamento do curso continua o mesmo.  O aluno deve procurar a coordenação de curso, pelo atendimento online, para realizar a solicitação.

Universitários reclamam que a qualidade dos cursos EAD é muito mais baixa. O que o UniBH vai fazer com relação a isso?

O UniBH não adota o modelo de ensino a distância (EAD). Continuamos a oferecer os nossos cursos no ambiente online, com a mesma qualidade e as nossas atividades acontecem no mesmo momento em que aconteceriam de forma presencial, com professores e alunos realizando as atividades de forma conjunta. Ou seja, o conteúdo programado na grade curricular dos cursos de graduação e de pós-graduação do UniBH seguem sem prejuízos ao currículo programado“.

Aline Diniz

Aline Diniz

Editora do BHAZ desde janeiro de 2020. Jornalista diplomada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) há 10 anos e com experiência focada principalmente na editoria de Cidades, incluindo atuação nas coberturas das tragédias da Vale em Brumadinho e Mariana. Já teve passagens por assessorias de imprensa, rádio e portais.

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