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Drive-in Church: Irregular, culto ao ar livre promete reunir centenas em BH e revolta moradores

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Um evento promovido pela Igreja Batista da Lagoinha Vila da Serra pretende reunir, neste domingo (3), centenas de fiéis em um espaço aberto ao lado do trevo do Belvedere, na região Centro-Sul da capital. Batizado de Drive-in Church (formato estadunidense no qual os participantes ficam dentro dos carros), o ato não tem a liberação da PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) e motivou uma notificação do Ministério Público, além de revoltar os moradores das cercanias.

“Nossa rua é habitada por moradores mais velhos, que têm entre 60 e 80 anos. Já estamos naturalmente mais assustados durante essa pandemia. Imagine com mais de 100 carros circulando por aqui, como eles vão controlar todo esse fluxo de pessoas? Vai ter uma matança aqui amanhã, com idosos psicologicamente acuados”, afirma uma das residentes da rua Musas, Magda Guadalupe.

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O evento, anunciado pelas redes sociais e com convites disponibilizados via Sympla, será realizado a partir das 15h30 em um terreno que fica entre o trevo do Belvedere e a rua Musas, no bairro Santa Lúcia. O local está em uma área residencial, onde há proibição para se construir edificações. Há dois meses, o proprietário do espaço foi advertido pela Promotoria de Habitação e Urbanismo, do Ministério Público mineiro, justamente por realizar eventos irregulares.

“Ele já sabe que não pode fazer evento e nem alugar terreno para fazer evento. Agora, com a Covid-19, ainda tem decreto proibindo evento por tempo indeterminado. Hoje, inclusive, novamente, mandei uma comunicação formal para que ele tome providência para que o terreno não seja utilizado para esses eventos”, diz ao BHAZ a promotora de Justiça de Habitação e Urbanismo, Marta Larcher.

Procurada, a PBH informou que não existe pedido de licenciamento de evento nesse local, o que é obrigatório, e que tentou contato com os organizadores durante todo o sábado.

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‘Não é um evento’

O Drive-in Church está sendo anunciado em todos os canais da Lagoinha Vila da Serra, que fica em Nova Lima, quase no limite com BH. O pastor Sandro Gonzalez, organizador do ato, nega que trata-se de um evento. “É um culto religioso. Culto não precisa de alvará, está amparado pela Constituição Federal, não é um evento”, argumenta o religioso, que afirma desconhecer quantas pessoas retiraram o ingresso gratuito até o sábado à noite, mas esclarece que o espaço suporta até 150 carros.

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Domingo, 03 de Maio às 16h, faremos um culto – Drive In Church, cada um em seu carro, tomando todos os cuidados necessários, unidos buscando a Deus, rumo a fé, a esperança e o amor 🙏🏻🙌🏻❤️ . Inscrição gratuita nesse link 🆓 http://bit.ly/DriveInChurch 🚨É necessária uma inscrição por CARRO, não por pessoa. . 📍Local: Espaço Trevo (onde era o Circo do Marcos Frota, em frente ao BH Shopping) ⏰ Domingo, entrada a partir de 15h30 . – Todos os participantes devem ficar dentro dos carros. – Usem máscaras durante o evento. – Somente pessoas do convívio diário devem estar no mesmo veículo. – Planeje a sua chegada com antecedência. – Inscrições limitadas. #Deus abençoe a nós todos!

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O próprio pastor já contraiu Covid-19. Mesmo com estudos indicando que não há evidência de imunização por completo de pacientes curados e a distância de segurança sendo apenas uma medida para diminuir as chances de contágio, Gonzalez afirma que o público não corre risco. “As pessoas ao meu redor não terão nenhum contato físico comigo. Estarei no mínimo a um metro e meio de distância”, garante.

O organizador do evento ainda diz que apenas oito pessoas participarão da produção do Drive-in Church. “Estamos guardando todos os cuidados, todas as orientações da secretária de Saúde e da OMS. Todo mundo estará usando máscara, vamos inclusive oferecer máscara para quem não tiver máscara. O número de pessoas na organização é o mínimo possível, não vai ter aglomeração, contato físico”, afirma.

Mesmo com o intenso fluxo de veículo, já que são esperados mais de 100 veículos, Gonzalez sustenta que o poder público – o que inclui a BHTrans – não precisava ser avisado e que não recebeu nenhuma notificação do Ministério Público, nem mesmo do proprietário. “Se eu receber alguma notificação até o horário do evento, se alguém me procurar ou for lá da fiscalização e dizer: ‘esse culto religioso não pode acontecer com base nisso, nisso e nisso’, perfeitamente [cancelo]”, garante.

Igreja Lagoinha Vila da Serra é a organizadora do evento (Reprodução/Google Street View)

A promotora é enfática sobre o risco que os envolvidos correm ao realizar o evento. “Se, eventualmente, o município ficar omisso em tomar providências, assim como o proprietário, podem responder criminalmente. Inclusive, agentes públicos podem responder por improbidade. Mandei uma comunicação formal para o proprietário do evento e para a PBH, para que tome providências, junto com a Guarda Municipal, a fim que o evento não seja realizado”, diz Larcher.

O BHAZ entrou em contato, por telefone, com Bernard Martins, da MinasInvest, empresa proprietária do terreno. O diretor jurídico disse que não estava sabendo de nenhum evento no domingo e passou o telefone de um dos sócios da empresa.

Após a publicação desta reportagem, um dos sócios da empresa proprietária do terreno, Elias Tergilene, respondeu às mensagens do BHAZ neste domingo (4). Ele afirmou que emprestou o espaço após pedido da igreja. “As pessoas falaram que iriam parar dentro dos carros e não iriam descer dos carros. Onde que está a aglomeração? Seria como parar no estacionamento do Verdemar”, explicou.

Ele acrescentou que o espaço foi pedido pela igreja para ajudar pessoas com sintomas de depressão. Tergilene informou ainda que não foi notificado por nenhum órgão público com relação à necessidade de alvará para se realizar o culto.

Entrevista completa com Sandro Gonzalez:

BHAZ: A PBH diz que o evento não está autorizado e o Ministério Público, inclusive, já mandou notificações para a própria PBH e para o proprietário para que o evento seja cancelado. Você pretende suspender o Drive-in?

Sandro Gonzalez – Não é um evento, é um culto religioso. Culto não precisa de alvará, está amparado pela Constituição Federal, não é um evento. Todo mundo estará dentro do carro, guardadas todas os procedimentos indicados pela secretaria de Saúde, OMS, todo mundo, com distanciamento, não tem aglomeração.

Mas há toda uma estruturada montada já neste sábado para suportar um grande evento.

SG – Não tem som acima do limite de 65 decibéis, não tem telão, tudo dentro das normas. Nossa questão com MP é o seguinte: MP acha que é um evento, nós não achamos que é um evento. Nossa definição é de culto religioso. Se eles quiserem barrar um culto religioso, o MP estará ferindo a Constituição Federal.

As pessoas fizeram inscrição dos carros, não as pessoas. Quem vai dentro do carro? Se for casado, vai com sua esposa. Se for solteiro, vai sozinho. Se for casado e tiver dois filhos, é a ocupação máxima do carro: três pessoas, quatro pessoas, cinco pessoas.

Quantas pessoas já garantiram o ingresso gratuito?

SG – Não sei quantas pessoas se inscreveram no Sympla, mas lá cabem aproximadamente 150 carros.

Além da necessidade legal de ter uma liberação da PBH, você não acha que um evento que pretende reunir mais de 100 carros precise de um suporte do poder público, ao menos da BHTrans?

SG – Olha, pedimos ao pessoal que fosse lá, fizemos a medição do terreno, o terreno está todo sinalizado. Cabe com folga, até mais. Quando o circo estava lá, paravam 250 carros. Ou seja, estamos com todo regramento, distanciamento entre os carros, não tem nenhum carro parando que impeça a saída de outro veículo, qualquer pessoa pode sair a qualquer momento. Não são 2h, 3h de evento, são 40 minutos de evento. Ou seja, todo mundo pode ficar perfeitamente dentro do carro. Não é um evento como um show, uma partida de futebol, algo que demande alimentação, sanitário, nada disso. Isso tudo foi pensado.

Mas o espaço só tem um acesso de entrada…

SG – E não é um acesso. Você não esteve lá, você não conhece [a reportagm esteve no local]. São dois acessos: um de entrada e um de saída. Não é pela BR, é pela rua lateral.

Mas para chegar a essa rua, que é sem saída, só existe um acesso.

SG – Sim. Mas acho que não [tem necessidade do apoio da BHTrans] porque os carros vão passando por lá. Alguns vão passar, alguns vão ficar, alguns vão embora. É um modelo de drive-in: a pessoa chega a hora que quer e vai a hora que quer.

Qual o tamanho da equipe para realizar um evento com centenas de pessoas, já que cada carro pode receber até cinco pessoas (o que totalizaria em um cenário improvável e extremo de 750 frequentadores)?

SG – A organização é composta por oito pessoas, não mais do que isso. Já tem toda a sinalização no terreno. As pessoas chegando já sabem onde vão parar: mais ou menos um sistema de fila indiana ou estacionamento pré-programado. O evento é gratuito, não tem o que comprar, não tem o que vender, não tem o que oferecer. É um momento de oração, é um culto, né?!

Você não sente temor de tirar tantas pessoas de casa?

SG – Você está andando de carro, de moto, de bike? As vias não estão interditadas. Se eu estiver descumprindo algum aspecto legal de trânsito, o evento será cancelado. Mas as ruas estão abertas, ninguém vai sair do carro.

Não, pastor, não falamos de aspecto legal. O aspecto legal é sobre a autorização da PBH. Pergunto sobre sua responsabilidade ao retirar centenas de pessoas de casa em meio à pandemia da Covid-19.

SG – Estamos guardando todos os cuidados, todas as orientações da secretária de Saúde, da OMS, todo mundo usando máscara, vamos inclusive oferecer máscara para quem não tiver máscara. O número de pessoas na organização é o mínimo possível, não vai ter aglomeração, contato físico… Todas as orientações estão sendo guardadas. Como estacionamento, estacionamentos não estão abertos? Funcionando regularmente.

Você já pegou Covid-19, certo?!

SG – Sim, fui um dos primeiros de BH.

Não teme a exposição, com o contato com tantas pessoas?

SG – Eu já estou curado, estou imune.

Pergunto sobre as pessoas que terão contato contigo.

SG – As pessoas ao meu redor não terão nenhum contato físico comigo. Estarei no mínimo a um metro e meio de distância. Não vou chegar perto de ninguém, ninguém vai chegar perto de mim. Nenhuma outra pessoa vai se expor a isso.

Os moradores estão revoltados com o descumprimento das normas municipais e com medo da movimentação intensa. O que você tem a dizer?

SG – Queria pedir aos moradores a compreensão em relação ao evento. Estamos tomando todas as medidas, nenhuma garagem vai ser impedida de ter transito, toda a faixa da rua, que é uma rua pequena, não vamos deixar carros do evento parar ali. Os carros que irão ao evento só participarão se estiverem dentro da área, estão informados do evento. A gente espera e constrói o evento para que seja da forma mais segura possível, não faremos nenhum tipo de abordagem nas casas, não vamos exceder o limite de 65 dc imposto pelo regimento. A gente acha que não vai causar nenhum transtorno aos moradores, o que vai acontecer é um fluxo maior de veículos nesse horário.

Mesmo sem a liberação da PBH, a notificação do Ministério Público e o descontentamento de moradores, não há chance do evento ser suspenso?

Eu não diria dessa forma. Diria que o evento está preparado, programado, tem todo cuidado com segurança das pessoas, que a equipe envolvida é a menor possível. Mas a gente não quer nenhum tipo de enfrentamento ou indisposição seja com a sociedade ou com a prefeitura ou com MP. Se o MP chegar lá e dizer que esse culto não pode acontecer, ok, vou entender. Até agora, eu não recebi nenhuma informação formal e legal dizendo que o culto não pode acontecer.

Vocês vão fiscalizar se algum participante sair do carro?

SG – Vai ter fiscalização. Vai ter um aviso, as pessoas que forem chegando ao culto, vão receber no para-brisa do carro as instruções que o culto dura 40 minutos, que todo mundo deve estar com máscara, que ninguém deve sair do carro. Se tiver uma situação de emergência, que aquele carro deve deixar o evento e ir embora.

Com tantas retrições, por que não realizar um evento virtual?

SG – O culto é uma celebração de fé e de vida. Nesse momento em que as pessoas estão desesperançosa, estão tristes, angustiadas, reclusas dentro de casa, a gente entende que esse culto é uma oportunidade da pessoa receber uma palavra de esperança, de fé. O virtual é muito importante e acontece na nossa igreja. Amanhã mesmo, esse culto será transmitido online. Quem não quiser não precisa sair de casa, vamos reproduzir tanto no Intagram quanto no YouTube. Agora, existe uma dimensão maior no presencial, as pessoas podem pelo menos se ver, ninguém vai se abraçar, ninguém vai se tocar, mas as pessoas vão se ver de longe.

Você não se sente desconfortável em fazer um evento em um espaço cujo proprietário está em desacordo com as normas, que ignora até mesmo a notificação do MP?

SG – Eu desconheço essa notificação. Eu não tenho conhecimento. Se o proprietário do terreno me falar que foi notificado com alguma questão que impeça o culto religioso de acontecer amanhã, vou entender. De novo, nossa proposta não é nenhum tipo de enfrentamento, aviltar a questão da vida, da saúde, opor às normas estabelecidas pelo prefeito, pela MP, absolutamente. Estamos de acordo com tudo o que está sendo feito na nossa cidade pelo prefeito. Entendemos que realizando amanhã não estamos infringindo a lei. Se eu receber alguma notificação até o horário do evento, se alguém me procurar ou for lá da fiscalização e dizer: ‘esse culto religioso não pode acontecer com base nisso, nisso e nisso’, perfeitamente. Eu não sou absolutamente soberano em relação a essa decisão. Não quero roubar a paz da cidade, ser motivo de truculência, muito pelo contrário, queremos promover a paz, promover a vida e promover a fé. Vale uma reflexão do MP: o que estamos realizando lá não é um evento, é um culto religioso. Se estamos guardando todas as orientações, questão de ambientação, sonorização, distanciamento social, de higiene e tudo mais, não vejo porquê cancelar.

Vocês já mediram a altura do sistema de som utilizado amanhã?

SG – Não, fizemos o teste de som. Temos um aparelho que mede o limite de som. Então o som está regulado para ficar dentro do que é permitido pela prefeitura.

Thiago Ricci

Thiago Ricci

Editor-chefe do BHAZ desde agosto de 2018, cargo ocupado também entre 2016 e 2017. Jornalista pós-graduado em Jornalismo Investigativo, pela Abraji/ESPM. Editor-chefe do SouBH entre 2017 e 2018; correspondente do jornal O Globo em Minas Gerais, entre 2014 e 2015, durante as eleições presidenciais; com passagens pelos jornais Hoje em Dia e Metro, TVs Record e Band, além da rádio UFMG Educativa, portal Terra e ONG Oficina de Imagens. Teve reportagens agraciadas pelos prêmios CDL, Délio Rocha, Adep-MG e Sindibel.

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