E os comensais da morte se refugiaram no Brasil…

(Divulgação/WarnerBros + Reprodução/TVGlobo)

A saga de um bruxinho magricela e seus amigos ganhou o mundo infanto-juvenil no finalzinho do século passado e logo se tornou um sucesso absoluto: com 450 milhões de exemplares, lidera a lista de séries literárias mais vendidas no mundo, é a terceira série cinematográfica de maior bilheteria de todos os tempos, deu origem a incontáveis jogos e leva multidões a parques temáticos.

Nesse universo mágico, destacam-se os comensais da morte, um grupo fiel de servos de Lord Voldemort, o vilão que semeia a morte, o terror e a destruição.

Pois bem… Como se diz, a vida imita a arte. E no Brasil, a imitação foi ruim, mas muito ruim. Muito ruim mesmo! E não há, aí, quaisquer exageros!

Regina Duarte resolveu atormentar a vida de seu ex-namorado. Saúda a ditadura, minimiza a morte e a tortura praticada por agentes do Estado e com uma voz irritante diz que devemos esquecer o passado. Mas não fala nada sobre o presente… Revelou-se o talco do pum do palhaço. Ernesto Araújo briga pelas redes sociais com o maior parceiro comercial do Brasil, enquanto Weintraub insiste na realização do ENEM em meio à pandemia. Guedes, com sua bitola ideológica, não consegue propor soluções que atenuem o caos social que se avizinha e observa, mudo, a disparada do dólar, sinal de que ele já fez “muita besteira”. Ricardo Salles aplaude o desmatamento recorde na Amazônia, causado pelos garimpos ilegais, e Nelson Teich ainda não se mostrou disposto a assumir as funções de Ministro da Saúde.

Na série literária, o Ministério da Magia – símbolo do aparato estatal naquele universo – cai nas mãos dos comensais, que direcionam suas ações para perseguir seus inimigos políticos, beneficiar os seus aliados e implantar um período de trevas. É Impossível não associar essa passagem da obra com as indicações para a Polícia Federal, CAPES, IBAMA, ICMBIO, Fundação Palmares e FUNAI…

A marcha de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal evoca o ataque final à Escola de Hogwarts, o último bastião que ainda resistia ao projeto de Voldemort. À frente de empresários que dizia representar 40% do PIB nacional (mais uma mentira, o correto fica em torno de 20%), foi confrontar o Ministro Dias Toffoli e reclamar das decisões judiciais que impedem a consolidação de seu projeto autoritário.

Toffoli pode não ser exatamente um Dumbledore, o poderoso mago diretor da escola de bruxaria, mas não há dúvidas de que o STF representa, hoje, a pedra no sapato de Bolsonaro. Nos últimos dias, não só lhe negou o poder de impor suas ideias genocidas a estados e municípios como ainda manteve as investigações contra um de seus filhos, permitiu a continuidade da CPI das fake news e admitiu a instauração de procedimento para averiguar as revelações de Moro, o comensal da morte que abandonou o barco para salvar sua biografia – e seu futuro político.

A Suprema Corte anda tão insolente que resolveu até mesmo tratar os generais como cidadãos comuns. O Ministro Celso de Mello chegou a determinar a condução sob vara – isto é, coercitiva – dos militares que se recusarem a prestar depoimento. Realmente, nada pode ser mais ofensivo para os comensais da morte que essa ideia republicana absurda de tratar a todos igualmente! O que os conforta é saber que, em menos de um ano, poderão dar um aspecto “terrivelmente evangélico” ao STF e alinhá-lo a seu projeto de poder.

Para celebrar suas conquistas, o presidente organizou um churrasco para este final de semana. É o banquete em que os comensais poderão comemorar a vitória de seu projeto político. Irão celebrar a morte. A morte de mais de 10.000 brasileiros, a morte do meio ambiente, a morte das instituições republicanas, a morte de um projeto educacional inclusivo e a morte da cultura. Deve ser horrível participar desse banquete. É muito melhor ficar em casa. Fiquem em casa!

Rodolpho Barreto Sampaio Júnior
Rodolpho Barreto Sampaio Júniorrodolpho.sampaiojr@gmail.com

Rodolpho Barreto Sampaio Júnior é doutor em direito civil, professor universitário, Diretor Científico da ABDC – Academia Brasileira de Direito Civil e associado ao IAMG – Instituto dos Advogados de Minas Gerais. Foi presidente da Comissão de Direito Civil da OAB/MG. Apresentador do podcast “O direito ao Avesso”.